Número total de visualizações de página

terça-feira, 31 de julho de 2012

Réstia de cebolas

Faria melhor figura se dissesse que faço agricultura biológica, a qual escapa ao estigma da agricultura rasteira. É que a biológica tem a seu favor o ser feita por gente culta, de meio social favorecido, que exerce a actividade quase como desporto. 
Mas - que hei-de fazer? - sou do contra, avesso a modas e modismos, e entendo que toda a agricultura é biológica, feita ou não com recurso a adubos químicos e pesticidas. Não usei nada no caso destas cebolas, que, coitadas, nem água viram de Novembro a Abril porque o céu a não deu. Mas noutras culturas, como a da vinha, não me venham com tretas: ou combatemos as pragas, sobretudo o míldio e o oídio, ou não teremos vinho nem vinha. E ninguém me consegue convencer de que são preferíveis os tratamentos exclusivos com os produtos químicos empregues na agricultura biológica, como a calda bordalesa (sulfato de cobre e cal) ou o enxofre, os quais têm em seu desfavor menor eficácia - nenhuma, até, no combate ao Black Rot. 
Agricultura rasteira, portanto. Na foto, hoje a fazer réstias de cebolas enquanto o povo torra feliz nos areais de Portugal, indiferente a crise e a  troika. Enfim, cada qual diverte-se como quer ou como pode.

domingo, 29 de julho de 2012

Gratidão

Rentes de Carvalho foi um dos raríssimos escritores a aceitar receber um exemplar de Entre Cós e Alpedriz. Leu-o e enviou-me o seguinte comentário, que me encheu de satisfação (suponho que por volta de 2010):

Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC

Apita o comboio...

Antigamente, se alguém se queixava de ter perdido o comboio, logo ouvia réplica trocista: como é que se perde coisa tão grande?
Hoje é a CP que perde passageiros. Seis milhões só este ano, mais de metade da população de Portugal. Por muito mais pequenos que os passageiros sejam do que os comboios que os deviam transportar, a CP devia, tendo em conta a dimensão da perda, fazer um esforço para os encontrar. E porque o comboio é o meu meio de transporte favorito, sugiro a contratação do "cliente-mistério" para:

  • Comprar bilhete em qualquer uma das bilheteiras deste país para se aperceber da sobranceria com que somos tratados e pôr-lhe cobro;
  • Comprar bilhete na gare do Oriente cinco ou dez minutos antes da chegada do comboio, que é como quem diz consumir-se na bicha, que as máquinas estão avariadas e o funcionário "como tem tempo não tem pressa" (frase roubada a Fernando Pessoa);
  • Pagar o bilhete para ver o que custa a vida: Entroncamento - Oriente e volta, 25 euros em intercidades. Mais caro que de carro, portagens incluídas, parece-me; Faro - Porto, muito mais caro que de avião...
  • Tentar viajar naqueles dez meses do ano em que há greves...
FOTO: No TGV, rumo a Paris, em 2000.

sábado, 28 de julho de 2012

Jogos olímpicos

Lentamente, regresso à normalidade. Na televisão, a abertura dos Jogos Olímpicos. Sobre a cerimónia, faço minhas as palavras de Eduardo Pitta e de João Gonçalves. Foi exactamente o que senti, antes de enjoar e abandonar a televisão. Hoje, ainda olhei para provas de natação. Sem a identificação espectador - atleta, o espectáculo das máquinas bem afinadas a cortar a água, mais parecidas umas com as outras do que os carros da fórmula 1, resulta monótono, desinteressante.
Azares de quem recusa o rebanho, se não maravilha com milhões gastos, luzes e fogos de artifício. De quem lamenta hipocritamente não conseguir ser quinhoeiro  de tanta alegria, de tanta emoção, de tanta felicidade ao alcance da mão.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Quando os sinos dobram

O sino dobra novamente a finados...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tempo contado

Rentes de Carvalho anuncia o fecho do seu blogue Tempo Contado. Leitor assíduo, só posso lamentar a decisão do autor; mas compreendo as suas razões pois, como diziam os antigos, não dá para cavar na vinha e no bacelo ao mesmo tempo. Um blogue exige alimento frequente, rouba tempo que faz falta, especialmente quando, como no caso de Rentes de Carvalho ou no meu, todo ele está contado. 
Aproveitemos para ler e reler Rentes de Carvalho nos seus romances e aprender com o mestre. E talvez ele não consiga resistir e cedo interrompa a ausência anunciada.

domingo, 15 de julho de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os meus leitores no Scribd

Eis a estatística das leituras dos contos que comecei a publicar no scribd no início deste ano. São mais numerosas do que eu pensava e, surpresa,  mais de um terço tem origem no Brasil. A todos os leitores, um abraço, e o desejo de que continuem a ler as minhas histórias. Muito obrigado.
 (clicar na imagem para ampliar)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Zé Manel não vem

A recepcionista levantou-se da secretária e dirigiu-se aos africanos, uns sentados nos sofás, outros de pé, todos silenciosos. Conto, por alto, a maré negra: dezoito! Com quem desejavam falar? Um dos gigantes, numa voz aflautada que faria rir noutro contexto, esclarece: -- É com o Zé Manel que a gente queremos falar. 
 -- Ah, mas o senhor José Manuel não vem hoje! 
Os trabalhadores entreolharam-se alarmados, protestaram ruidosos. O líder atalhou o clamor com gesto de mão: -- A gente não saímos daqui sem falar com o Zé Manel. 
A recepcionista encolheu os ombros e regressava à sua secretária, sem coragem ou sem vontade de argumentar, aparentemente habituada àquelas invasões. Mas reparou em mim, esquecido desde que os imigrantes tinham ocupado a sala: --- É melhor voltar noutro dia. Hoje, isto está complicado. E apontou com o olhar a complicação: aqueles trabalhadores da construção civil, decididos a esperar pelo Zé Manel, o subempreiteiro que recebe da empresa sete euros à hora e lhes paga dois ou três. Se pagar, que pode ter esturrado o vencimento do pessoal numa qualquer casa de alterne. Aqui, nesta empresa respeitável, ninguém tem culpa de nada, se necessário for, chamam a polícia, mostrarão recibos, deixarão bem claro que pulhices não são com eles – apenas com o engajador, o mesmo que todas as manhãs recruta vinte ou trinta imigrantes, sempre diferentes, e manda embora os outros, para que não se atrevam a reclamar, mesmo que lhes pague quanto e quando quiser. Dois andares acima, talvez os administradores sintam algum incómodo por não poderem sair antes que os trabalhadores zangados se cansem de esperar pelo Zé Manel, ou talvez riam da partida que, mais uma vez, pregou aos pretos… 

NOTA: ouvi esta história ao Nuno, anos atrás, quando a construção civil florescia. Fui buscá-la à minha gaveta informática após ouvir hoje, num telejornal, protestos de trabalhadores africanos, também eles subcontratados.)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mundo pequeno

Excerto do mail de uma amiga: (...) o teu livro "Entre Cós e Alpedriz" [me] foi pedido, via Bookmooch, por alguém com nome árabe que está no Reino Unido! :)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Figuras sem estilo

São poucos os leitores que me fazem chegar as suas opiniões e críticas, pelo que cada uma das que recebo me enche de alegria e de gratidão: alguém me leu. Dias atrás, a propósito do conto Figuras sem estilo, um amigo enviou-me por mail este comentário "Gostei do conto, mas preferia que tivesse um final feliz! Coitado do Paradoxo!" Pois, também eu tenho pena do pobre Paradoxo, igual a tantos outros que por aí andam, os quais, tal como ele, dificilmente poderão ser protagonistas de histórias com final feliz...

Jornalismo latrinário

Indigna-se o Correio da Manhã com o despesismo da ministra da Agricultura: levou ao Brasil comitiva de 20 pessoas, que custou ao contribuinte 40.000 euros:
A ministra da Agricultura, Assunção Cristas, levou para a Cimeira Rio+20 uma comitiva de 20 pessoas. Por dois dias no Brasil, foram gastos cerca de 40 mil euros, só em viagens e estadia. O CM foi saber o que é que os contribuintes portugueses têm a dizer sobre estes gastos governamentais numa altura em que lhes são exigidos tantos sacrifícios. O exemplo não deveria vir de cima?
Agisse o autor da notícia como jornalista e, em vez de se escandalizar com o gasto de 2.000 euros por pessoa numa visita oficial, investigaria e exporia eventuais ganhos com a deslocação, tendo em conta que o Brasil é um dos grandes clientes de produtos agrícolas portugueses, como, por exemplo, o azeite e o vinho verde. 
Mas não. É mais vendável a ideia de que todos os políticos são corruptos, trafulhas -- uma cambada de parasitas que vive à custa dos contribuintes. E as cimeiras são férias pagas. É (também) por causa desta mentalidade mesquinha que não passamos da cepa torta.

domingo, 8 de julho de 2012

Tous les enfants


Nascido a 4 de Julho

Nascido dia 4, 4 anos, segundo de 4 netos.

Poesia de sempre


Como este vilancete de Francisco de Sousa, que tanto me diz:

Abaix´esta serra 
verei minha terra

Ó montes erguidos,
deixai-vos cair,
deixai-vos sumir
e ser destruídos,
pois males sentidos
me dão tanta guerra
por ver minha terra.

Ribeiras do mar,
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deixai-as passar.
Deixai-mas tornar
dar novas da terra
que dá tanta guerra.

Cabo

O sol escurece,
a noite se vem;
meus olhos, meu bem
já não aparece.
Mais cedo anoitece
aquém desta serra
que na minha terra.

Francisco de Sousa

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Tu também sabes

Com ligeiro atraso, aqui vai a prometida história, ouvida ao meu amigo X, e depurada do calão setentrião. Precisa de uns retoques, dar-lhos-ei mais tarde. E há problemas de formatação, culpa do IPad (que fino!) em que estou a escrever. Ainda não percebi bem como funciona.
Zacarias vai à discoteca. Com olho de predador, inspecciona possíveis presas, procura eventuais interesses comuns, espreita fragilidades, fareja carências. Exclui as acompanhadas -- veio para o engate, não para a pancadaria. Tampa após tampa das mais giras, vão-se reduzindo as escolhas. Pela madrugada, só resta uma: trinta e muitos, para o gorducho, para o feio, algum mau gosto no arranjar-se, tristonha – ah, Zacarias está por tudo, atormentado por atrozes dores testiculares, longo é o jejum, esta não lhe pode escapar, é a última oportunidade da noite. Chega-se, educado, melífluo, copo após copo vai-se encostando, escuta-lhe meigamente os desabafos, nada de pressas, mau-grado os protestos da parte baixa, impaciente com tamanhas delongas. E ela fala pelos cotovelos, derrama lágrimas e conta desgraças sentimentais: "Não sei porque é que te conto estas coisas", "Ora, em mim, podes confiar, faz-te bem desabafar", tudo ouve e nada pede em troca, ansioso embora de que ela se deixe de conversas da treta: "Os homens são todos iguais, querem todos o mesmo e apenas isso." Pudica virgem em local destes? Que espera encontrar aqui, afinal? Um príncipe encantado? Não se dará conta de que não é nenhuma princesa donzela a ver feio sapo em cada pretendente? Dissimula o desagrado, não a contradiz, antes lhe enche o copo e insiste para que beba, finge interesse pelos seus dramas sentimentais: "Não sou, não aceito ser, objecto sexual, passatempo, brinquedo de tempos livres"; está na altura de o namorado se decidir, de lhe propor compromisso firme: "Isto assim não é nem deixa de ser, os anos vão passando, para ele, que é homem, tudo bem, mas para mim assim não serve, ele..." Ele pretextou, conta, turno no hospital, hospital onde, basta ver as séries de televisão, mais namoriscam do que trabalham, e há a colega dos olhos verdes, nova e gira, a Inês, por quem o safado já reconheceu sentir-se atraído... Por isso aqui está sozinha, justifica-se, a cumprir a ameaça que lhe fez: "Então saio eu, estou farta de passar fins-de-semana encafuada em casa à tua espera!" Zacarias ouve mais do que fala, encosta-se, aperta-a contra si, outra vez lhe enche o copo, ajuda-a a levá-lo aos lábios e quase a força a beber, embora ele se resguarde -- álcool, mau álcool de discoteca, pode ser fatal no momento da verdade. Desponta a madrugada quando saem, ela arrepia-se com o frio matinal, ele abraça-a protector, apoia-a no seu caminhar cambaleante, a moça deixa-se levar, vagamente dá-se conta de que entraram para o furgão de uma carrinha fechada, e ele, não aguentando mais, deita-a sobre colchão de espuma, para cima dela se atira, é agora, é agora, as mãos precipitadas levantam-lhe a camisola de gola alta, desviam o sutiã e apertam-lhe os peitos, depois descem em busca de intimidades mais íntimas, e ela, já mais lúcida, afasta-lhas, esquiva ao toque as partes pudendas, evita-lhe a boca, e fala, fala, já não as lamúrias infelizes de há pouco, antes remorsos, afinal é do namorado que gosta, e o Zacarias quer lá saber de quem gosta ou deixa de gostar, precisa é que abra as pernas e sem mais demora, ela soergue-se como querendo ir embora… Ah, assim não, não quer perder outra noite, tanto trabalho lhe deu, tanta paciência para lhe escutar as baboseiras, está por tudo, em desespero mete-lhe a coisa na mão, implora: “Vá lá, ao menos, uma punheta”. Ela começa, sem vontade, sem jeito, mas depressa larga a causa de toda aquela maçada: “Faz tu, que também sabes.”

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Do real e do verdadeiro

Perguntam-me amiúde quem são as personagens das minhas histórias, o que me lisonjeia: trabalho muito para que sejam, ambas, verdadeiras. Muito mesmo. De tal forma que, tenho-o verificado, são normalmente os excertos verídicos que os meus leitores consideram inverosímeis...
Por vezes, sempre devidamente assinaladas, reconto histórias alheias. Por exemplo, hoje à noite publicarei aqui o micro-conto "Tu também sabes", baseado em história ouvida num jantar a um amigo. É dele a história, meu o discurso, i.e., a forma de a contar. E sim, trabalhei muito para conseguir que a minha versão escrita esteja à altura do seu talento de contador de histórias. O que não é nada fácil.

Coimas e mais coimas

1. Fui surpreendido -- ainda me surpreendo com estas coisas -- por mail da Autoridade Tributária a informar-me de que não paguei o imposto de circulação em 2008. Tenho a certeza de que o paguei. Pago sempre. Pela internet. Não tenho papéis: já lá vão 4 anos e há tempos, antes de mandar o carro para a oficina após pequeno acidente, fiz limpeza ao porta-luvas. No site das finanças não há registo de qualquer dívida. Para evitar a contra-ordenação com que me ameaçavam, paguei novamente. Com coima, para recompensar, suponho, à incompetência dos serviços que só levaram 4 anos a descobrir, dizem eles, um pagamento em atraso. Desnecessário seria dizer, mas faço-o porque me alivia, que enquanto enquanto ocupam os serviços a vasculhar registos à cata de "dívidas" de 30 euros em 2008 dão tempo aos figurões que sempre deixam prescrever as dívidas de muitos milhões.
2. Uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular. Telefona-me a polícia: o processo que me foi movido há 3 anos ao tentar renovar licença caducada de uso e porte de arma de caça, aqui relatado com desenvolvimento, entretanto arquivado pelo tribunal, ainda mexe: agora tenho de pagar coima de 301 euros! Lá fui para protestar, pagar e terminá-lo. Qual quê! Mais uns papéis, volta novamente tudo para Santarém e daqui por uns meses o agente telefonar-me-á novamente para, talvez então, poder pagar a coima e livrar-me destas arrelias que me fazem perder dias e dias...