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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eucaliptos, imaginação e disparates

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, o bêbedo local estraga a história que conta com um mero pormenor -- no Rossio, em Lisboa, atinge o carteirista com um soco e este, ao cair, bate com a cabeça num eucalipto...
Assim é a arte da escrita. Basta um detalhe para arruinar uma bela história, e não há frases, por mais trabalhadas, que a possam salvar. Porque a imaginação não torna aceitável a ignorância, e um disparate, por mais ornamentado que esteja, não deixa de ser um disparate, a não ser que o leitor se aperceba de que o escritor está a gozar com ele.
Exemplifico: no seu Voyage dans la Lune, do séc. XVII, Cyrano de Bergerac põe o seu narrador a dizer que, como toda a gente sabe, a Lua atrai as gorduras... Mark Twain, num conto, faz uma descrição em que um esófago contempla meditativamente o pôr-do-sol...
Bem diferente é a frase que  li no Facebook, dias atrás, atribuída a Clarice Lispector, segundo a qual a vida tinha começado com duas moléculas. Falta-lhe a piada dos exemplos de Cyrano e Twain, e é disparate tão gritante que me surpreendi por a frase não ter sido prontamente  dissecada e desmentida, fosse à luz do conhecimento actual, fosse do que estava acessível no tempo da autora.
Leitores, abram esses olhos e não prescindam do espírito crítico, não se deixem enrolar por palavreados, perguntem sempre, como o Calisto Elói, de Camilo, o que é que tal significa em vernáculo; escritores, se fazem questão de afirmar assertivamente (desculpem o pleonasmo) o que não sabem, e julgam ter tanta certeza no cag... que não erram o chão, dispensando-se de modalizar, ao menos coloquem as asserções na boca das vossas personagens. porque, podem ter a certeza, basta um pormenorzinho para arruinar o trabalho do dia, de semanas ou meses até.
 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nunca o invejoso medrou...

A alegria  que aqui manifestei por um conto meu ter sido distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa parece ter azedado o humor de leitor que, a coberto do anonimato, me censura e dá conselho (ou ordem?):
"Caramba, você comporta-se com uma menção honrosa em Arruda dos Vinhos como se tivesse recebido o Nobel. Tenha juízo. "
Pois é, caro anónimo: cada qual usa o seu blogue para o que bem entende; o meu serve, entre outras coisas, para aqui partilhar as minhas alegrias, coisas insignificantes como distinções literárias, produção de batatas, uma lavoura, desenhos dos netos... Suponho que as suas, a existirem, só ocorrerão quando o seu clube de futebol ganha ou quando consegue estragar o dia a alguém... Adiante.
Manda a boa educação que, se quiser entrar em morada alheia, se identifique como pessoa de bem, dê a saudação, ao entrar limpe os pés, e já agora, a boca, aceite e agradeça o pão e o vinho que o dono da casa lhe oferece. Ou, não querendo, vá bater a outra porta, ou, mais adequadamente, deixe-se ficar na sua casa, a remoer amargamente como vai receber o Nobel, enquanto lhe falham outras distinções, mas atenção: ponha-se na bicha, que à sua frente já está, assumidamente, o Arquitecto Saraiva!
E também não quero juízo, como esse que manifesta no comentário. Sempre assino por baixo do que escrevo e não perco o meu tempo a tentar azedar a alegria alheia.
Vá comentando: é que, por vezes, faltam-me ideias para posts...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Apreciação de Tino, o Perneta

Diz a escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira:
"Acabei agora de ler o conto integral que o José Cipriano Catarino me enviou por correio eletrónico! Gostei muitíssimo. Escrita impecável, isso já o autor nos habituou. Ritmo, vivacidade, graça, elegância, ironia, algum deleitoso sarcasmo, uma visão, diria eu, andrógina, dos factos comezinhos da vida doméstica, que oscila entre a ternura, a armadilha da luxúria e a graça conventual! Deliciei-me a ler_eu não sou muito de doces, mas a leitura deste conto fez-me lembrar lembrar o encanto das horas de vésperas no pátio interior de uma ermida com despensa bem fornecida!"

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Menção Honrosa

Amigos, alegrem-se comigo: acabo de saber que um conto meu foi distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa, de Arruda dos Vinhos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ni Dieu ni Maître

1846. No Minho, em plena revolução da Maria da Fonte -- e na cama com ela.
"Não lhe tinha mentido, não era maçon, pedreiro-livre como ela dizia, embora em tempos tivesse frequentado algumas das lojas que brotavam pela capital como as nascentes no Inverno. Não chegou a ser iniciado, desagradado com o ambiente rasca, nos antípodas da elevação espiritual que sempre associara à Grande Fraternidade, enojado com as intrigas, as disputas de cargos e lugares políticos, o compadrio, a alegre aceitação da corrupção por parte daqueles mangas-de-alpaca que não viam contradição entre os ideais maçónicos de justiça e o suborno que quotidianamente recebiam, inclusive de ambas as partes, nas litigâncias. Passada a novidade, começou a aborrecer os rituais, vendo-os como missa profana, o padre substituído pelo mestre, o bispo pelo grão-mestre, o Grande Arquitecto em vez de Deus, estátuas de santos devotos, imagens beatas, relíquias sagradas trocadas por objectos de uma profissão que não era a sua — martelos, compassos —, aventais ricamente decorados em vez de sotainas, mas sempre, tal como no seio do clero, a intriga, a luta pelo poder, a convicção de que aqueles que estão de fora são bestas ignorantes que importa manipular mas não redimir. E, sem romper por completo, começou a espaçar a participação, incapaz de aceitar como chefes espirituais homens de vícios e de baixezas como os padres, como eles a pregar uma coisa e a fazer o seu contrário. 
A perda da fé, primeiro no Deus bíblico, que apesar dos castigos com que flagelou a humanidade não conseguiu impedir que o Mal infectasse a Terra, depois no Seu Filho, o Salvador vindo ao Mundo para redimir o Homem e dar esperança ao Pobre, e o Homem, dezanove séculos depois laborava nos mesmos erros e mistificações e o Pobre cada vez estava mais pobre, por fim nos belos ideais maçónicos, convenceu-o paulatinamente de que teria de ser ele mesmo, Adolfo, a assumir a responsabilidade de libertar a humanidade das trevas da ignorância em que a queriam manter todos os outros, fossem eles cristãos, maçons, miguelistas, cartistas, setembristas até. Como se cada loja maçónica, cada partido, mais não fosse do que mera carruagem tomada para conduzir à Câmara dos Deputados, à governação. Sem confiar nos outros e nas organizações que criavam e logo atafulhavam de ritos embrutecedores, de rituais de submissão para obviar disputas de poleiro, julgava-se o homem providencial, aquele que chegada a ocasião não recuará e não hesitará em adoptar os meios necessários, em ser o Danton, o Robespierre do nosso tempo! Aquele que, como leu num panfleto francês, não receia recorrer à faca, à bomba, ao veneno, para despertar o povo para a revolução. Ni Dieu Ni Maître! — proclamava o opúsculo. Assim pensava, assim se sentia, livre, disponível para a revolução, à espera de oportunidade, que julgou surgir quando a sorte o bafejou com a reportagem da sublevação do Minho."
JCC, inédito

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O argueiro e a trave

É espantosa a capacidade que muitas pessoas têm para orientar a vida dos outros. Sobretudo quando não aparentam aplicar a si mesmas essa capacidade e assim vêemr o argueiro no olho alheio mas não ver a trave no próprio, como dizia Jesus.
"Se viesses a pé só te fazia bem!" 
E eu não me dou à maçada de explicar que não, nem me fazia bem, nem tenho falta de actividade física: no estado em que tenho os joelhos, acabaria a coxear, com dores lancinantes; mas já hoje fiz uma hora de ginásio...
"Tiras os óculos para ler? Devias ir ao oftalmologista para te mudar a graduação !"
E falta-me a paciência para explicar, mais uma vez, que tenho queratocone, o problema não se resolve com mudança de lentes, nem com cirurgia...
Porque não adianta. Explicamos, as pessoas não nos ouvem, ou se ouvem, ouvem apenas uma parte, distraídas, percebem mal, esquecem depressa. E depois, sabem tudo, o que faz bem e o que faz mal. 
Aos outros.

domingo, 4 de setembro de 2016

As Tripas de Deus

“Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos!”
(O Castelhano, Auto da Índia, Gil Vicente)
Ontem, por mero acaso, a que não foi alheio o calor que me fechou em casa, vi no canal Discovery “Criou Deus o Universo?”, com base em livro do físico S. Hawking.
Ao longo do programa, o físico deixa claro que não pretende mudar crenças e convicções, mas, à luz do conhecimento científico, e é este o busílis, Deus não é necessário para a criação do nosso Universo. Para tal, e como a energia total do Universo tem de ser zero – vejam o programa para compreenderem a explicação, aliás perfeitamente intuitiva – são suficientes, para que um universo surja do Nada, três ingredientes: Matéria, Energia, Espaço.
Matéria e Energia, sabemo-lo desde Einstein, são a mesma coisa; Espaço -- e aqui as minhas orelhas arrebitaram, curioso para conhecer a definição de Hawkings – pois fiquei na mesma, limitou-se a dizer que é abundante no Universo. Mas nem outra coisa seria de esperar, que o universo não existe fora do Espaço. Do Espaço-Tempo, como sabemos desde Einstein.
Não duvido de que um universo possa surgir espontaneamente do Nada, como argumenta Lawrence Krauss no seu extraordinário livro A Universe from Nothing (Amazon), mas parece-me que esta visão estritamente materialista tem uma insuficiência insuperável. Para que um universo surja e se estruture como aquele em que vivemos é preciso Informação (ver, por exemplo, também da Amazon, God, Soul, New Physics, de Trevelyan).
Explico-me sumariamente: se uma única das forças que regem o Universo (força forte, força fraca, electromagnética e gravidade) tivesse um valor infinitesimalmente diferente, o nosso Universo não existiria, e nós não estaríamos cá a colocar questões sobre Deus e o Universo. Em termos mais vulgares, não basta juntar ingredientes para cozinhar. É preciso seguir uma receita – as leis da Física.
Ficamos, portanto, como na história do ovo e da galinha. Sem Informação não há universo materialista, mesmo que todos os restantes ingredientes necessários à sua criação estejam presentes. Como surgiu essa informação estruturadora? Porquê?
Se a esses Princípios Criadores chamar Deus, ou leis da Física, pouco interessa; as palavras surgiram muito provavelmente quando ainda andávamos de tanga pelas savanas africanas, cruidas pela necessidade de descrever um mundo – e não um universo – que se não estenderia muito para além do horizonte, quando cada força da Natureza, cada catástrofe, era obra de um deus e os milagres eram corriqueiros. As palavras que temos, as línguas naturais que as integram, não são certamente adequadas para descrever a estranheza do Universo e das suas leis e a nossa lógica de primatas não consegue conceber nem os seus mistérios (que é a matéria negra? A energia negra? Que é o Espaço-Tempo?...) nem os da sua criação.

Por enquanto.