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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os três gostos

Aí pelos anos 90 pululavam pelas ruas de Lisboa os vendedores de time-sharing. Emboscados nas esquinas, escolhiam as vítimas com o olhar predador do carteirista e atacavam-na com requintes de psicologia dignos de mestre do conto do vigário, a vender, não a torre de Belém ou a ponte sobre o Tejo, mas férias paradisíacas em locais de sonho. 
Um deles cortou-me passagem no passadiço que puseram no Chiado após o incêndio. Fiz gesto com a mão esquerda, a recusar conversa. E ele: -- São só três perguntinhas..., em tom de voz que insinuava que eu seria malcriado em recusar, como se responder a desconhecido importuno fosse o mesmo que negar copo de água a viandante sedento.
Com o olhar, fiz-lhe sinal para que se despachasse.
-- Gosta de andar de avião?
-- Não.
Gosta de viajar?
-- Não.
Gosta de férias?
-- Não.
E deixei-o pasmado, em visível conflito interior entre os seus dois neurónios: o saloio era mesmo parvo ou estava a fazer-se?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Caixa Geral de Depósitos e eu

A minha relação com a Caixa Geral de Depósitos remonta, pelo menos, às minhas primeiras colocações como professor. Era, então, obrigado a receber o vencimento pela Caixa. Depois, surgiu a possibilidade de receber o ordenado noutro banco, mas não vi razões para mudar. Nesses bancos  clientes pouco abonados, como eu, eram tratados com sobranceria, mesmo quando queriam abrir depósito; se precisavam de empréstimo, sofriam vexames hoje inacreditáveis. Passei por isso.
E fui ficando cliente da Caixa. Nada percebo de finanças, mas ultimamente preocupam-me as notícias. Antes de mais, por a Caixa ser notícia. Depois, por ser invariavelmente má notícia. Buraco astronómico -- como é possível, ó Vara, ó génios colocados na administração pelos aparelhos partidários? -- e agora a proposta de uma equipa de gestão  numerosa, que não faltam boys a precisar de jobs, e, pior, declaradamente, atestadamente, incompetente:
"O BCE impõe que três futuros gestores executivos da CGD que não tinham ainda experiência em gestão bancária de topo - João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão - frequentem o curso de Gestão Bancária Estratégica do Insead. Segundo a brochura desta escola de gestão, a propina deste curso é de 12 600 euros por aluno, o que significa que a CGD vai pagar à cabeça perto de 38 mil euros para inscrever estes três gestores no Insead.

Mas a despesa deverá ser superior Como explica a escola sediada em Fontainebleau, a “propina não inclui viagens, acomodação e outras eventualidades”.Tendo em conta os atuais preços de quartos em hotéis de cinco estrelas em Fontainebleau e as viagens da TAP para Paris em classe executiva, os gastos com viagens e acomodações poderão ascender a cerca de 10 mil euros. E há ainda outros custos, como a alimentação. Além disso, um dos gestores, João Tudela Martins, terá de frequentar outro curso específico de Gestão de Risco na Banca, que custa 8,6 mil euros - mais viagens, alojamento e alimentação. Contas feitas, a CGD terá de gastar perto de 60 mil euros para o “regresso à escola” de três gestores." (Da notícia do Sapo/Sol)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

1972 (outro fragmento)

"Não muito longe, na Rua do Salitre, o sr. Fragoso arruma a secretária para sair do emprego, a mulher da limpeza começa a faxina, no Instituto Comercial, ao Camões, a professora de Cálculo Financeiro inicia a última aula da tarde, a que o Zé vai faltar, não por causa do engarrafamento na Baixa, pois anda a pé e poupa os quinze tostões do bilhete de autocarro, mas por ser um dos agitadores, ele que participa na sua primeira manifestação num misto de euforia e de medo. 
Ei-lo a atirar pedra a montra de banco, quem diria que este rapaz, provinciano e pacato, se envolveria em actividade subversiva — terrorista! dirá amanhã o Século, se a censura permitir que publique a notícia que noite alta redigirá o jornalista Ribeiro Esteves, a braços com a dificuldade de fingir condenar o sucedido para enganar o censor, deixando embora nas entrelinhas pistas para os oposicionistas saberem que o regime é contestado nas ruas. Entra o revisor tipográfico, também do reviralho, 
— Já terminou o artigo? 
— Ainda não, precisa de uns retoques, a ver se passa por entre as malhas.
— Duvido. A censura não vai deixar publicar nada sobre a manifestação dos estudantes. O que querem eles, afinal, não cheguei a perceber?
— E eu sei lá? Mas alegra-me que chateiem o regime.
E ficam a discutir por momentos, o revisor tem razão, pouco importa fingir, o  lacaio do lápis azul não permitirá que se noticie que um punhado de estudantes desceu a Almirante Reis, paralisou o trânsito, estilhaçou montra de banco, gritou palavras de ordem que nada dizem aos que as escutam retidos no trânsito a ver a polícia de choque desancar pobres transeuntes,os quais, fiados no proverbial  "quem não deve não teme" se deixam apanhar na confusão —  voltemos ao escritório da Andantino, onde, por causa do tumulto e engarrafamentos, chega atrasado o sr. Antunes, sócio gerente, vem acompanhar o turno da tarde, que patrão fora, dia santo na loja, despede-se do sr. Fragoso com aperto de mão, a dona Lourdes, a faxineira, ouve-o contar que para os lados dos Restauradores há confusão, a polícia de choque dá tareia em estudantes que se revoltaram, e mais em quem apanha pela frente, aperta-se-lhe o coração a medo que o filho estremado se tenha metido nessas desordens, raro é o dia em que lhe não suplica que se afaste dessa malta, cada qual deve acamaradar com seu igual, e nada de política, se o filho vai preso não tem como pagar a advogado, nem como o tirar da cadeia, e ele fica com a vida estragada, será prontamente incorporado — como soldado raso, destruindo o seu sonho de o ver oficial, será talvez mobilizado como castigo para a mortífera Guiné, de onde, se regressar vivo e inteiro, virá marcado com o ferrete de comunista, que para sempre o impedirá de ter bom emprego no funcionalismo público, e o  condenará a vida de escravatura, como a do pai, que Deus haja, guarda-freios da Carris, como a dela, que apenas sonha dar melhor futuro ao filho, assim ele não perca a cabeça e estrague a sua vida."
JCC, inédito, de romance em curso. Porque me apetece.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A arte de matar o pinto no ovo

Eça, que  como o Chouriço, personagem da sua A Capital, a sabia toda, dá-nos conta de várias artimanhas utilizadas pelos donos da literatura para aniquilarem potenciais rivais. 
Duas delas estão presentes n' Os Maias: todos nos lembramos da crítica feroz do Alencar, que aponta "dois erros de gramática, um verso errado, e uma imagem roubada a Beaudelaire"  nos versos do Craveiro -- acusações sempre terrivelmente eficazes, pois poucos arriscam discutir os supostos erros, a medo de serem tomados por ignorantes, e acusação de plágio é coisa feia, que sempre enlameia os visados, mesmo quando injusta; outra, é o velho ataque ad hominem, tão ao gosto nacional: Alencar lança torpe calúnia contra a irmã do poeta rival, "esse caloteiro que se não lembra de que a irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canavezes".
Já em A Capital, o estratagema demolidor usado contra o potencial rival é mais subtil, mas igualmente demolidor: pressentido talento no estreante literário, o patrão da poesia aplaude -- não o drama, mas uma pilhéria involuntária do artista ("estrelados, só ovos") desviando as atenções dos ouvintes, que prontamente esquecem a peça para se gabarem das respectivas habilidades cómicas, uma das quais consiste na imitação do zurrar de um burro no cio...
Outro truque, também presente n' A Capital, consiste em descobrir uma cacofonia -- no verso "nunca cauda mais pura..." logo apontam: "Ca-cau, cacau do Brasil, chocolate..."
Por hoje, fico-me por estes exemplos do Eça, na certeza de que não há nada de novo sob o Sol. Facebook e blogosfera ficam para outra ocasião.
E deixo para reflexão dito de Saramago, numa das suas entrevistas: na literatura ninguém tira o lugar a ninguém...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

1972

Excerto de um inédito meu. Porque me apetece.
"Aquela tarde  de Dezembro de 1972 devia ser igual a tantas outras que a cidade já conheceu desde que Salazar impôs a sua ordem ao país, e o adormeceu como criança ao colo materno, que no conchego esquece os peitos secos, e se não agita a medo de forte palmada, ensinada desde o nascimento  que, se escasseia a comida,  sobeja a porrada para quem reclama.
Esta substituição da comida pela pancada está tão enraizada nas mentalidades que já entrou na língua: é o gaiato que na escola ameaça colega "lá fora tu *comezas*!", e não tenciona repartir o farnel, antes quebrar a cara do infeliz, seguramente mais pequeno, porque, eis outra virtude nacional, espancam-se os mais fracos e bajulam-se os mais fortes, é a mãe que carinhosamente previne o filho após patifaria insignificante, "Vais ver a carga de cachaporra que *comes* quando o teu pai chegar a casa" -- até na capital, de falares mais finos, mais polidos à superfície, se diz das ordens do governo, das leis, das ordens do patrão, por mais abstrusas que sejam: "é *comer* e calar!"
É este o nosso Portugal conformado. O do "come e cala-te", em que se *come* sofrimento, adoçado embora pela linguagem metafórica, pelo que não espantará ouvir camponesa na feira responder a filho que, olhos aguados, lhe choraminga "Mãe, compre-me um bolo!" "Compro-te mas é uma pouca de merda!", isto porque a merda, fedorenta, pegajosa, colou-se não apenas às línguas, mas também às mentalidades —"Este país é uma merda!".
Dois verbos, *comer* e *calar*; um nome, *merda*. Três palavrinhas que resumem o salazarismo e delas  deriva  tudo o mais: o silêncio resignado; a miséria de um povo descalço, a subnutrição, o analfabetismo, a violência animalesca contra os mais fracos. O medo. 
Por isso, naquela  tarde de sexta-feira, chuvosa, tristonha, apenas se deviam ter visto autocarros e eléctricos apinhados de trabalhadores a caminho de casa, fartos da merda do emprego, cansados da merda da vida, parados na Baixa, no Martim Moniz, na Praça da Figueira, no Terreiro do Paço, pela merda dos automóveis de uns merdas engravatados que compram carros a prestações para  entupir as ruas da cidade, e impacientes com os engarrafamentos, com as bestas que são os outros condutores, ainda buzinam infernalmente, interminavelmente, ou exasperados metem a cabeça de fora da janela a berrar "Cale essa merda, não vê que ninguém pode passar?", inconformados com esta injustiça social que os obriga a ficarem parados atrás dos autocarros onde antes viajavam!
Por todo o lado estalam conflitos, "Vá bardamerda!" "Vá você, seu malcriadão!" "Oiça lá, sabe com quem está a falar?", e o pretenso figurão exige a presença das autoridades, mas é sabido que estas só aparecem quando não fazem falta, e o cavalheiro olha em volta, desconsolado: "Quem me agarra, que mato aquele malandro?"
Ainda o não sabem, mas a polícia está ocupada mais adiante, um punhado de estudantes armou arruaça, bloqueou a Almirante Reis, em breve todos estes cidadãos, proprietários de automóvel ou desclassificados utilizadores de transportes públicos, uns e outros inocentes, pacatos, respeitadores da ordem, cumpridores da Lei,  ver-se-ão  envolvidos na  pancadaria, pois a polícia de choque quando carrega é como toiro bravo, também ela só vê pela frente o vermelho que a enerva, ai dos mais exaltados, esses que ciosos dos seus direitos de prioridade, garantidos pelo Código da Estrada,  exigem a presença das autoridades -- levarão umas boas cacetadas, um ou outro será detido e levado para os calabouços do Governo Civil, enquanto a malandragem que armou o desacato escapa por entre as malhas policiais como as ratazanas pelas sarjetas da cidade."

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Solidões

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people (Ah, look at all the lonely people!)
Where do they all belong?
(Eleanor Rigby, The Beatles, Lennon/McCartney)

Hospital. Na sala de recobro, a enfermeira corre a cortina para que paciente, chegada de intervenção cirúrgica, desperte com recato da anestesia.
– Dona (chamemos-lhe Leonor) – Dona Leonor, está-me a ouvir?, insiste. A paciente, pela voz ainda nova, responde debilmente. Paulatinamente, regressa à consciência.
– Dona Leonor, quem quer que chame para junto de si?
Não ouço a resposta. A enfermeira insiste: – Quem é que a vem buscar ao hospital? Assim, não pode sair! Tem de ter alguém que a leve. Não tem família? Uma amiga? Uma vizinha, uma conhecida? A doutora não a deixa sair sozinha!
Não sei como acaba a história. Bem não é, certamente, qualquer que tenha sido o desfecho.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

L'arroseur arrosé

O S. era um velho implicativo, quezilento, amigo de armar zaragata por ofensas reais ou imaginárias. E passava o tempo a sacanear os outros, em parte por maldade, em parte para se vangloriar das partidas pregadas.
Por isso, num dia em que pediu ao dono do café e padaria que lhe guardasse meio cabrito amanhado na arca congeladora, este regozijou e prontamente convidou os amigos: -- Logo à noite apareçam e tragam o vinho, que vou assar meio cabrito no forno!
A patuscada prolongou-se noite alta, bem regada a tinto, acompanhada com pão quente acabado de sair do forno. Para sobremesa, o dono do café quis contar a patifaria que tinha pregado ao S.: -- Sabem como é que arranjei este cabrito?
Pois não sabiam. E aguardavam curiosos a explicação, a pressentir patifaria: E o dono da padaria, ufano: -- Vejam lá que hoje me apareceu aqui o S. a pedir para lho guardar na arca!
-- Mas ele não tem cabritos!
E outro a adivinhar o sucedido: -- Só se foi o cão que lhe morreu ontem! Vais ver, o sacana esfolou-o, amanhou-o, cortou-o a meio para não desconfiares e pediu-te para o guardares na arca!