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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Fraquinha, mas boa!

Naqueles tempos de brincadeiras parvas havia o costume de embebedar pobres diabos para chacota geral ao vê-los aos tombos, desnorteados,
-- Espetámos-lhe com tamanha bebedeira nos queixos que o tivemos de levar de carro de mão a casa! 
Era o que fazia grupo de rapazolas, mortos de riso, a encherem copos atrás de copos de bebida branca a velhote já senil: -- Ti Jaquim, beba mais um copo! Que tal é ela?
-- Obrigado, rapazes, é fraquinha mas é boa! 
Preocupado, o meu pai chega-se, a tentar evitar desgraça: -- Vocês ainda matam o velho!
E um dos rapazes, a chorar de riso, dá-lhe a cheirar o garrafão: -- É água!
E o meu pai, para poupar o pobre diabo à judiaria: -- Ti Jaquim, não beba mais senão fica transtornado!
-- É isso, rapazes. Muito obrigado, mas fico por aqui, que já me está a trepar à cabeça!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Função Fática no Facebook

Lembram-se das velhinhas funções da linguagem, de Roman Jacobson? Nunca lhes achei grande piada, nem utilidade para o estudo do texto. Mas em determinada altura tornaram-se quase obrigatórias em tudo o que era formação, pelo que ainda se devem recordar.
Uma das mais interessantes é a função fática, em que o emissor procura a todo o custo manter o contacto com o seu receptor, e o exemplo dado era, invariavelmente, uma dessas conversas telefónicas em que se fala sem dizer nada. Fosse hoje, e o exemplo seria o Facebook. De tal forma, que frequentemente desisto da sua leitura logo às primeiras mensagens, pelo que muito provavelmente perco outras mais interessantes, mas que não surgem imediatamente.

Permitam-me o conselho, perdoem-me a arrogância de o dar: não basta atirar o barro à parede; é preciso alisá-lo, poli-lo, pintá-lo para que o resultado final mereça rápida olhadela nestes tempos de excesso de materiais audiovisuais. Mais: fujam do trivial, dêem-me algo de novo, uma foto interessante, pelo enquadramento ou pelo assunto, uma frase original, uma rima, uma ideia arrevesada. Porque o mais é déjà vu, banalidades, fofuras e gostosuras. 
Ah, os meus "gosto" são sinceros, pouco se me dá se alguém ficar ofendido por não retribuir a fineza. Nunca pertenci à Sociedade do Elogio Mútuo.  

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reflexões em torno da arte da escrita

Passei 36 anos a corrigir textos; mas era a minha profissão, pagavam-me para isso, eu tinha autoridade para corrigir, mesmo quando, sobretudo nos últimos anos, precisava frequentemente de provar a alunos e a pais e mães que tinha razão.
Este vício de emendar, de corrigir, de sugerir, entranhou-se-me nas veias. Frequentemente, ao ler textos próprios ou alheios, dou comigo a pensar que aquele texto melhorava se... ou que devia ser rasgado e rescrito. E não raro, num passado recente, tive a presunção e a arrogância de o dizer a autores orgulhosos, embevecidos com a obra produzida, só preparados para encómios e aplausos... Muitos foram os dissabores; passei a tomar algum juízo e já só leio e comento materiais inéditos de amigos que sei estarem receptivos a críticas.
Mas o vício de ensinar permanece vivo, mãos dadas com a tal arrogância que me leva a avaliar, a julgar, a classificar muito do que vou lendo. Por isso, ouso avançar com algumas sugestões, que bem tento seguir.

  • Um fotógrafo famoso -- mas podia ser qualquer outro artista -- respondeu assim a quem lhe perguntava porque é que demorava tanto tempo com uma simples fotografia que em exposição mereceria, no máximo, uns segundos de atenção: -- Para que as pessoas olhem para ela uns segundos.
  • Trabalho em busca da forma perfeita não implica produção de textos rebuscados, barrocos, gongóricos.
  • Estilo simples não é estilo simplório.
  • Uma coisa é o real, outra o verosímil. O primeiro é material de jornalistas, o segundo de escritores.
  • Um texto não deve apresentar erros de ortografia, de semântica ou de sintaxe; mas isso não o torna num bom texto. É preciso que tenha mais qualquer coisa. O quê?
  • Considero a história fundamental em romances e contos. Bem contada, sem erros de pormenor. Sem história, são livros, alguns muito bons. Mas a história não chega.
  • O essencial: que, como ensina o padre Vieira, as coisas sejam introduzidas com caso, queda e cadência. Com caso, porque devem ser relevantes naquele fragmento e naquela obra; com queda, devendo surgir não apenas com naturalidade, mas com inevitabilidade; com cadência, porque o ritmo é fundamental na escrita, isto se quisermos evitar textos chatos.
(Continua)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lavoira

Hoje. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A RTP e os procurados pela justiça

Indigna-me que a RTP -- que eu pago na factura da electricidade -- dê voz e protagonismo a procurado pela justiça por morte de homem. Da GNR, abatido cobardemente. E isto antes do julgamento.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os meus Fiéis Defuntos

Lembro-me vagamente de três bisavós. Nem sequer sei os respectivos nomes. A minha família conhecida começa com os meus avós: Francisca Ferreira e José Alves Catarino (o Avô Sargento) pelo lado paterno; Maria da Luz Trindade (a Avó da Luz) e José Cipriano, pelo lado da minha mãe.
Seguem-se meu pai, Afonso da Silva Catarino, e minha mãe, Maria Isabel Trindade Cipriano.
Todos eles são apenas nomes, fotos, memórias. E saudade.




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de Finados*

Deixava-se candeia de azeite ou candeeiro a petróleo aceso toda a noite, a torcida baixa, para que os nossos mortos, de volta ao lar, o não encontrassem às escuras, ou para que a luz débil os impedisse de nos assustar com a sua presença, só visível no escuro, suponho.

Acabaram candeias e candeeiros a petróleo, as velhas habitações foram abandonadas, hoje muda-se de casa como de camisa – onde podem os defuntos visitar os entes queridos, na única noite do ano em que tal lhes é permitido? 

(*2 de Novembro)

Halloween

Acabam de me tocar a campainha: dois vultos negros, a dizer Travessuras ou gostosuras. Não percebo. Repetem.
-- Não sou dessa religião, voltem amanhã, que é o Dia de Todos os Santos!
(Este meu feitio de velho ranzinza!)

Um par de botas


Aí por 1970, pobre mulher, de preto do lenço aos pés metidos em tamancos largueirões, entrou em sapataria da vila, a comprar calçado para o filho. 
A cada prova, pede outro par: -- Maiorzinho, que o pé está a crescer!
Tanto se repete a cena que às tantas o vendedor, exasperado, lhe sugere:
-- Minha senhora, porque é que lhe não compra umas botas 44, guarda-as debaixo da cama, que assim o moço ainda tem calçado quando for para a tropa?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Montes, 1964

Sobre o pó das estradas, ou a lama, ou poças de água, mulheres e crianças andavam descalças. Eu levava sapatos para a escola, mas logo à saída me descalçava. O calçado, feito por medida no sapateiro da terra, era pesado, rígido dos protectores de ferro e cardas, e era desconfortável.
Era a liberdade nos pés, era a ligeireza, sempre fundamental para fugir de rapazola que me quisesse puxar as orelhas por lhe ter gritado a alcunha, ou de grupo que me quisesse “contar as velhas” – parvoíce muito em uso que consistia em agarrar rapazinho, deitá-lo ao chão, baixar-lhe calças e ceroulas, expor as suas misérias ao escárnio de raparigas de passagem, e sepultar a pobre gaita debaixo de bom punhado de terra.
Os pés descalços estavam expostos às agressões dos caminhos: topadas em pedras que rebentavam a cabeça dos dedos, espinhos, pregos, vidros que os laceravam… E o tratamento era terrível, autêntica tortura, aplicada por mãe desesperada, que outro remédio não conhecia, a criança que berrava e fugia: escaldar a ferida. Isso mesmo: meter o pé em água fervente, ou pingar azeite a ferver sobre o buraco infectado do espinho que acabava de ser extraído.
Sou desse tempo. Quase sempre às portas da morte: lombrigas, infecções, gripes constantes, sarampo, tosse convulsa, que me fazia ver luzes na escuridão do quarto quando tossia os pulmões, diarreias de caixão à cova, icterícia… Mas nunca tive piolhos, nem tinha, e só vi percevejos na asseada Lisboa.
Fui tratado, quase sempre, com a “medicina popular”. Dolorosa, fedorenta, ineficaz. Conheci demasiado bem o “mercúrio”, a tintura de iodo, a tintura de mostarda, o bálsamo, a aguardente com açúcar queimada e abafada, os escaldões, a enxúndia, as rezas. E depois, viva o progresso, vieram as sulfamidas, o Vick Vaporub, os rebuçados do Dr. Bayard, a aspirina… Mas esses são outros tempos, de transição para a nossa modernidade – em que, paradoxalmente, abundam os saudosos desse Portugal imundo, subnutrido, rude, malcriado e, o que mais me espanta, da “medicina popular”. A esses, deixo as palavras de um dos grandes mestres da escrita:
“Oo geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tamtos malles, nem foi quinhoeiro de taaes padecimentos!” (Fernão Lopes, Crónica d’el-rei D. Joham I)
FOTO do velho Kodak do meu pai: o meu irmão em bebé, eu mais atrás, a minha mãe, descalça; provavelmente 1964)

sábado, 22 de outubro de 2016

À espera do Inverno

Sexta-feira, 20 de Outubro, abri regos de drenagem.

sábado, 15 de outubro de 2016

Taxistas, Uber e o Admirável Mundo Novo

Agora que a guerra dos taxistas conhece uma trégua e os ânimos não parecem estar tão exaltados, atrevo-me a chamar a atenção para o cerne do problema.
A ameaça maior que pesa sobre os taxistas não é a que provém da Uber e afins, embora seja a mais imediata, porque, antes de mais, lhes desvaloriza os alvarás, a partir do momento em que deixam de ser indispensáveis para o exercício da actividade profissional, e não suporta idênticos custos comerciais, nem em pessoal, nem em impostos, licenças, etc.
A maior ameaça, e não é ficção científica, pendente sobre taxistas e TODOS os condutores profissionais de transportes rodoviários, públicos e privados, chega sob a forma de veículos sem condutor, em fase avançada de testes nos EUA e na Alemanha, por exemplo.
Se os particulares podem não querer, ou não poder, comprar um carro sem condutor, já os gestores das empresas de transportes de toda a natureza devem estar a esfregar as mãos de contentes com esta solução, previsivelmente mais segura, porque isenta do erro humano, e incomparavelmente mais barata.  E não duvido de que as grandes empresas do sector do táxi sejam das primeiras a aderir, dispensando os condutores que agora levam para a rua em protestos exaltados.
É a vida. Foi assim nos primórdios da Revolução Industrial, quando os operários em greve destruíam as máquinas que os enviavam para o desemprego, foi assim que profissões inteiras, algumas até medianamente prestigiadas, desapareceram. Por força do progresso tecnológico. Dactilógrafas, estenógrafas, relojoeiros…
Neste Admirável Mundo Novo, em que até as mulheres-a-dias se vêem ameaçadas por robots já acessíveis, que não se sentam a ver televisão no sofá na ausência das patroas, nem têm horário de trabalho nem salário, haverá cada vez menos trabalho, especializado e não especializado. Até que o ser humano, cada vez mais remetido ao papel exclusivo de consumidor e fruidor, seja, ele mesmo, dispensável.
A cada dia que passa, esse momento fica mais próximo. E os taxistas julgam poder adiá-lo, ou evitá-lo, dando uns pontapés nos carros da concorrência, por enquanto ainda com condutor…


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Literatura chata

Muito me podem gabar certos autores. O que para mim conta é se passam ou não no teste da leitura inicial -- das primeiras linhas, de um ou de outro parágrafo lá para o meio, escolhido aleatoriamente.
A esmagadora maioria, de autores nacionais e estrangeiros, reprova. 
Porque lhes falta interesse, e parecem estar a encher morcelas, e vai gordura, e vai sangue, e vão cominhos em excesso, na forma de adjectivos empregues na ilusão de assim escreverem "poético". 
Porque a escrita não tem ritmo, não tem cadência. Porque não desenvolve, e lemos, lemos, e, como no velho lugar comum, nem o pai almoça nem a gente morre -- ou o seu contrário. Porque o seu gosto é diferente do meu -- por exemplo, um famoso autor americano começa com um "não as podes f. todas!" e eu ponho-o de lado, ainda na livraria, por achar a escrita vulgar, e não se pense que é pelo emprego do palavrão, magistralmente utilizado, por exemplo, por Gil Vicente. Outros livros, porque são chatos, andem neles à procura de carneiros selvagens ou leve o protagonista a amante para hotel e três capítulos depois ainda não tenham chegado a vias de facto -- neste caso, tinha decidido ler o romance, custasse o que custasse, mas acabei por dar parte de fraco.
Lembram-se de Boleano, esse génio da literatura? Bem tentei ler O Terceiro Reich. Acho que até consegui chegar à página 4. Bem menos do que nos Versículos Satânicos, no Ulisses, em que cheguei quase à centena antes de desistir.
Há dois anos, numa férias, emprestaram-me livro de autor português da nova vaga, de quem até já tinha lido um romance aceitável. Logo às primeiras páginas, uma adolescente, no momento de perder a virgindade, imagina que as partes do homem se desintegram e sobem por ela... Como é possível escrever tamanho disparate e a editora deixá-lo passar? Ou agora as moças, nesse momento marcante da sua sexualidade, entretém-se a imaginar cenas que nem nos desenhos animados se vêem?
Outro, pelos excertos divulgados no Facebook, põe uma personagem, também adolescente, a exigir que a amada os imagine velhinhos. Lindo, não? Só que os adolescentes, como aquele que fui, como os que conheci, como os que conheço, nunca serão velhos, pelo que tal proposta é simplesmente absurda...
E assim perdem um leitor, o que nenhuma diferença lhes fará. Contanto que os seus livros se vendam para prendas de natal e de aniversário, contanto que alguém os vá citando com veneração. 
-- Não gostas? Problema teu, não faltam admiradoras.
-- Criticas? É só inveja.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eucaliptos, imaginação e disparates

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, o bêbedo local estraga a história que conta com um mero pormenor -- no Rossio, em Lisboa, atinge o carteirista com um soco e este, ao cair, bate com a cabeça num eucalipto...
Assim é a arte da escrita. Basta um detalhe para arruinar uma bela história, e não há frases, por mais trabalhadas, que a possam salvar. Porque a imaginação não torna aceitável a ignorância, e um disparate, por mais ornamentado que esteja, não deixa de ser um disparate, a não ser que o leitor se aperceba de que o escritor está a gozar com ele.
Exemplifico: no seu Voyage dans la Lune, do séc. XVII, Cyrano de Bergerac põe o seu narrador a dizer que, como toda a gente sabe, a Lua atrai as gorduras... Mark Twain, num conto, faz uma descrição em que um esófago contempla meditativamente o pôr-do-sol...
Bem diferente é a frase que  li no Facebook, dias atrás, atribuída a Clarice Lispector, segundo a qual a vida tinha começado com duas moléculas. Falta-lhe a piada dos exemplos de Cyrano e Twain, e é disparate tão gritante que me surpreendi por a frase não ter sido prontamente  dissecada e desmentida, fosse à luz do conhecimento actual, fosse do que estava acessível no tempo da autora.
Leitores, abram esses olhos e não prescindam do espírito crítico, não se deixem enrolar por palavreados, perguntem sempre, como o Calisto Elói, de Camilo, o que é que tal significa em vernáculo; escritores, se fazem questão de afirmar assertivamente (desculpem o pleonasmo) o que não sabem, e julgam ter tanta certeza no cag... que não erram o chão, dispensando-se de modalizar, ao menos coloquem as asserções na boca das vossas personagens. porque, podem ter a certeza, basta um pormenorzinho para arruinar o trabalho do dia, de semanas ou meses até.
 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nunca o invejoso medrou...

A alegria  que aqui manifestei por um conto meu ter sido distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa parece ter azedado o humor de leitor que, a coberto do anonimato, me censura e dá conselho (ou ordem?):
"Caramba, você comporta-se com uma menção honrosa em Arruda dos Vinhos como se tivesse recebido o Nobel. Tenha juízo. "
Pois é, caro anónimo: cada qual usa o seu blogue para o que bem entende; o meu serve, entre outras coisas, para aqui partilhar as minhas alegrias, coisas insignificantes como distinções literárias, produção de batatas, uma lavoura, desenhos dos netos... Suponho que as suas, a existirem, só ocorrerão quando o seu clube de futebol ganha ou quando consegue estragar o dia a alguém... Adiante.
Manda a boa educação que, se quiser entrar em morada alheia, se identifique como pessoa de bem, dê a saudação, ao entrar limpe os pés, e já agora, a boca, aceite e agradeça o pão e o vinho que o dono da casa lhe oferece. Ou, não querendo, vá bater a outra porta, ou, mais adequadamente, deixe-se ficar na sua casa, a remoer amargamente como vai receber o Nobel, enquanto lhe falham outras distinções, mas atenção: ponha-se na bicha, que à sua frente já está, assumidamente, o Arquitecto Saraiva!
E também não quero juízo, como esse que manifesta no comentário. Sempre assino por baixo do que escrevo e não perco o meu tempo a tentar azedar a alegria alheia.
Vá comentando: é que, por vezes, faltam-me ideias para posts...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Apreciação de Tino, o Perneta

Diz a escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira:
"Acabei agora de ler o conto integral que o José Cipriano Catarino me enviou por correio eletrónico! Gostei muitíssimo. Escrita impecável, isso já o autor nos habituou. Ritmo, vivacidade, graça, elegância, ironia, algum deleitoso sarcasmo, uma visão, diria eu, andrógina, dos factos comezinhos da vida doméstica, que oscila entre a ternura, a armadilha da luxúria e a graça conventual! Deliciei-me a ler_eu não sou muito de doces, mas a leitura deste conto fez-me lembrar lembrar o encanto das horas de vésperas no pátio interior de uma ermida com despensa bem fornecida!"

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Menção Honrosa

Amigos, alegrem-se comigo: acabo de saber que um conto meu foi distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa, de Arruda dos Vinhos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ni Dieu ni Maître

1846. No Minho, em plena revolução da Maria da Fonte -- e na cama com ela.
"Não lhe tinha mentido, não era maçon, pedreiro-livre como ela dizia, embora em tempos tivesse frequentado algumas das lojas que brotavam pela capital como as nascentes no Inverno. Não chegou a ser iniciado, desagradado com o ambiente rasca, nos antípodas da elevação espiritual que sempre associara à Grande Fraternidade, enojado com as intrigas, as disputas de cargos e lugares políticos, o compadrio, a alegre aceitação da corrupção por parte daqueles mangas-de-alpaca que não viam contradição entre os ideais maçónicos de justiça e o suborno que quotidianamente recebiam, inclusive de ambas as partes, nas litigâncias. Passada a novidade, começou a aborrecer os rituais, vendo-os como missa profana, o padre substituído pelo mestre, o bispo pelo grão-mestre, o Grande Arquitecto em vez de Deus, estátuas de santos devotos, imagens beatas, relíquias sagradas trocadas por objectos de uma profissão que não era a sua — martelos, compassos —, aventais ricamente decorados em vez de sotainas, mas sempre, tal como no seio do clero, a intriga, a luta pelo poder, a convicção de que aqueles que estão de fora são bestas ignorantes que importa manipular mas não redimir. E, sem romper por completo, começou a espaçar a participação, incapaz de aceitar como chefes espirituais homens de vícios e de baixezas como os padres, como eles a pregar uma coisa e a fazer o seu contrário. 
A perda da fé, primeiro no Deus bíblico, que apesar dos castigos com que flagelou a humanidade não conseguiu impedir que o Mal infectasse a Terra, depois no Seu Filho, o Salvador vindo ao Mundo para redimir o Homem e dar esperança ao Pobre, e o Homem, dezanove séculos depois laborava nos mesmos erros e mistificações e o Pobre cada vez estava mais pobre, por fim nos belos ideais maçónicos, convenceu-o paulatinamente de que teria de ser ele mesmo, Adolfo, a assumir a responsabilidade de libertar a humanidade das trevas da ignorância em que a queriam manter todos os outros, fossem eles cristãos, maçons, miguelistas, cartistas, setembristas até. Como se cada loja maçónica, cada partido, mais não fosse do que mera carruagem tomada para conduzir à Câmara dos Deputados, à governação. Sem confiar nos outros e nas organizações que criavam e logo atafulhavam de ritos embrutecedores, de rituais de submissão para obviar disputas de poleiro, julgava-se o homem providencial, aquele que chegada a ocasião não recuará e não hesitará em adoptar os meios necessários, em ser o Danton, o Robespierre do nosso tempo! Aquele que, como leu num panfleto francês, não receia recorrer à faca, à bomba, ao veneno, para despertar o povo para a revolução. Ni Dieu Ni Maître! — proclamava o opúsculo. Assim pensava, assim se sentia, livre, disponível para a revolução, à espera de oportunidade, que julgou surgir quando a sorte o bafejou com a reportagem da sublevação do Minho."
JCC, inédito

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O argueiro e a trave

É espantosa a capacidade que muitas pessoas têm para orientar a vida dos outros. Sobretudo quando não aparentam aplicar a si mesmas essa capacidade e assim vêemr o argueiro no olho alheio mas não ver a trave no próprio, como dizia Jesus.
"Se viesses a pé só te fazia bem!" 
E eu não me dou à maçada de explicar que não, nem me fazia bem, nem tenho falta de actividade física: no estado em que tenho os joelhos, acabaria a coxear, com dores lancinantes; mas já hoje fiz uma hora de ginásio...
"Tiras os óculos para ler? Devias ir ao oftalmologista para te mudar a graduação !"
E falta-me a paciência para explicar, mais uma vez, que tenho queratocone, o problema não se resolve com mudança de lentes, nem com cirurgia...
Porque não adianta. Explicamos, as pessoas não nos ouvem, ou se ouvem, ouvem apenas uma parte, distraídas, percebem mal, esquecem depressa. E depois, sabem tudo, o que faz bem e o que faz mal. 
Aos outros.

domingo, 4 de setembro de 2016

As Tripas de Deus

“Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos!”
(O Castelhano, Auto da Índia, Gil Vicente)
Ontem, por mero acaso, a que não foi alheio o calor que me fechou em casa, vi no canal Discovery “Criou Deus o Universo?”, com base em livro do físico S. Hawking.
Ao longo do programa, o físico deixa claro que não pretende mudar crenças e convicções, mas, à luz do conhecimento científico, e é este o busílis, Deus não é necessário para a criação do nosso Universo. Para tal, e como a energia total do Universo tem de ser zero – vejam o programa para compreenderem a explicação, aliás perfeitamente intuitiva – são suficientes, para que um universo surja do Nada, três ingredientes: Matéria, Energia, Espaço.
Matéria e Energia, sabemo-lo desde Einstein, são a mesma coisa; Espaço -- e aqui as minhas orelhas arrebitaram, curioso para conhecer a definição de Hawkings – pois fiquei na mesma, limitou-se a dizer que é abundante no Universo. Mas nem outra coisa seria de esperar, que o universo não existe fora do Espaço. Do Espaço-Tempo, como sabemos desde Einstein.
Não duvido de que um universo possa surgir espontaneamente do Nada, como argumenta Lawrence Krauss no seu extraordinário livro A Universe from Nothing (Amazon), mas parece-me que esta visão estritamente materialista tem uma insuficiência insuperável. Para que um universo surja e se estruture como aquele em que vivemos é preciso Informação (ver, por exemplo, também da Amazon, God, Soul, New Physics, de Trevelyan).
Explico-me sumariamente: se uma única das forças que regem o Universo (força forte, força fraca, electromagnética e gravidade) tivesse um valor infinitesimalmente diferente, o nosso Universo não existiria, e nós não estaríamos cá a colocar questões sobre Deus e o Universo. Em termos mais vulgares, não basta juntar ingredientes para cozinhar. É preciso seguir uma receita – as leis da Física.
Ficamos, portanto, como na história do ovo e da galinha. Sem Informação não há universo materialista, mesmo que todos os restantes ingredientes necessários à sua criação estejam presentes. Como surgiu essa informação estruturadora? Porquê?
Se a esses Princípios Criadores chamar Deus, ou leis da Física, pouco interessa; as palavras surgiram muito provavelmente quando ainda andávamos de tanga pelas savanas africanas, cruidas pela necessidade de descrever um mundo – e não um universo – que se não estenderia muito para além do horizonte, quando cada força da Natureza, cada catástrofe, era obra de um deus e os milagres eram corriqueiros. As palavras que temos, as línguas naturais que as integram, não são certamente adequadas para descrever a estranheza do Universo e das suas leis e a nossa lógica de primatas não consegue conceber nem os seus mistérios (que é a matéria negra? A energia negra? Que é o Espaço-Tempo?...) nem os da sua criação.

Por enquanto. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os três gostos

Aí pelos anos 90 pululavam pelas ruas de Lisboa os vendedores de time-sharing. Emboscados nas esquinas, escolhiam as vítimas com o olhar predador do carteirista e atacavam-na com requintes de psicologia dignos de mestre do conto do vigário, a vender, não a torre de Belém ou a ponte sobre o Tejo, mas férias paradisíacas em locais de sonho. 
Um deles cortou-me passagem no passadiço que puseram no Chiado após o incêndio. Fiz gesto com a mão esquerda, a recusar conversa. E ele: -- São só três perguntinhas..., em tom de voz que insinuava que eu seria malcriado em recusar, como se responder a desconhecido importuno fosse o mesmo que negar copo de água a viandante sedento.
Com o olhar, fiz-lhe sinal para que se despachasse.
-- Gosta de andar de avião?
-- Não.
Gosta de viajar?
-- Não.
Gosta de férias?
-- Não.
E deixei-o pasmado, em visível conflito interior entre os seus dois neurónios: o saloio era mesmo parvo ou estava a fazer-se?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Caixa Geral de Depósitos e eu

A minha relação com a Caixa Geral de Depósitos remonta, pelo menos, às minhas primeiras colocações como professor. Era, então, obrigado a receber o vencimento pela Caixa. Depois, surgiu a possibilidade de receber o ordenado noutro banco, mas não vi razões para mudar. Nesses bancos  clientes pouco abonados, como eu, eram tratados com sobranceria, mesmo quando queriam abrir depósito; se precisavam de empréstimo, sofriam vexames hoje inacreditáveis. Passei por isso.
E fui ficando cliente da Caixa. Nada percebo de finanças, mas ultimamente preocupam-me as notícias. Antes de mais, por a Caixa ser notícia. Depois, por ser invariavelmente má notícia. Buraco astronómico -- como é possível, ó Vara, ó génios colocados na administração pelos aparelhos partidários? -- e agora a proposta de uma equipa de gestão  numerosa, que não faltam boys a precisar de jobs, e, pior, declaradamente, atestadamente, incompetente:
"O BCE impõe que três futuros gestores executivos da CGD que não tinham ainda experiência em gestão bancária de topo - João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão - frequentem o curso de Gestão Bancária Estratégica do Insead. Segundo a brochura desta escola de gestão, a propina deste curso é de 12 600 euros por aluno, o que significa que a CGD vai pagar à cabeça perto de 38 mil euros para inscrever estes três gestores no Insead.

Mas a despesa deverá ser superior Como explica a escola sediada em Fontainebleau, a “propina não inclui viagens, acomodação e outras eventualidades”.Tendo em conta os atuais preços de quartos em hotéis de cinco estrelas em Fontainebleau e as viagens da TAP para Paris em classe executiva, os gastos com viagens e acomodações poderão ascender a cerca de 10 mil euros. E há ainda outros custos, como a alimentação. Além disso, um dos gestores, João Tudela Martins, terá de frequentar outro curso específico de Gestão de Risco na Banca, que custa 8,6 mil euros - mais viagens, alojamento e alimentação. Contas feitas, a CGD terá de gastar perto de 60 mil euros para o “regresso à escola” de três gestores." (Da notícia do Sapo/Sol)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

1972 (outro fragmento)

"Não muito longe, na Rua do Salitre, o sr. Fragoso arruma a secretária para sair do emprego, a mulher da limpeza começa a faxina, no Instituto Comercial, ao Camões, a professora de Cálculo Financeiro inicia a última aula da tarde, a que o Zé vai faltar, não por causa do engarrafamento na Baixa, pois anda a pé e poupa os quinze tostões do bilhete de autocarro, mas por ser um dos agitadores, ele que participa na sua primeira manifestação num misto de euforia e de medo. 
Ei-lo a atirar pedra a montra de banco, quem diria que este rapaz, provinciano e pacato, se envolveria em actividade subversiva — terrorista! dirá amanhã o Século, se a censura permitir que publique a notícia que noite alta redigirá o jornalista Ribeiro Esteves, a braços com a dificuldade de fingir condenar o sucedido para enganar o censor, deixando embora nas entrelinhas pistas para os oposicionistas saberem que o regime é contestado nas ruas. Entra o revisor tipográfico, também do reviralho, 
— Já terminou o artigo? 
— Ainda não, precisa de uns retoques, a ver se passa por entre as malhas.
— Duvido. A censura não vai deixar publicar nada sobre a manifestação dos estudantes. O que querem eles, afinal, não cheguei a perceber?
— E eu sei lá? Mas alegra-me que chateiem o regime.
E ficam a discutir por momentos, o revisor tem razão, pouco importa fingir, o  lacaio do lápis azul não permitirá que se noticie que um punhado de estudantes desceu a Almirante Reis, paralisou o trânsito, estilhaçou montra de banco, gritou palavras de ordem que nada dizem aos que as escutam retidos no trânsito a ver a polícia de choque desancar pobres transeuntes,os quais, fiados no proverbial  "quem não deve não teme" se deixam apanhar na confusão —  voltemos ao escritório da Andantino, onde, por causa do tumulto e engarrafamentos, chega atrasado o sr. Antunes, sócio gerente, vem acompanhar o turno da tarde, que patrão fora, dia santo na loja, despede-se do sr. Fragoso com aperto de mão, a dona Lourdes, a faxineira, ouve-o contar que para os lados dos Restauradores há confusão, a polícia de choque dá tareia em estudantes que se revoltaram, e mais em quem apanha pela frente, aperta-se-lhe o coração a medo que o filho estremado se tenha metido nessas desordens, raro é o dia em que lhe não suplica que se afaste dessa malta, cada qual deve acamaradar com seu igual, e nada de política, se o filho vai preso não tem como pagar a advogado, nem como o tirar da cadeia, e ele fica com a vida estragada, será prontamente incorporado — como soldado raso, destruindo o seu sonho de o ver oficial, será talvez mobilizado como castigo para a mortífera Guiné, de onde, se regressar vivo e inteiro, virá marcado com o ferrete de comunista, que para sempre o impedirá de ter bom emprego no funcionalismo público, e o  condenará a vida de escravatura, como a do pai, que Deus haja, guarda-freios da Carris, como a dela, que apenas sonha dar melhor futuro ao filho, assim ele não perca a cabeça e estrague a sua vida."
JCC, inédito, de romance em curso. Porque me apetece.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A arte de matar o pinto no ovo

Eça, que  como o Chouriço, personagem da sua A Capital, a sabia toda, dá-nos conta de várias artimanhas utilizadas pelos donos da literatura para aniquilarem potenciais rivais. 
Duas delas estão presentes n' Os Maias: todos nos lembramos da crítica feroz do Alencar, que aponta "dois erros de gramática, um verso errado, e uma imagem roubada a Beaudelaire"  nos versos do Craveiro -- acusações sempre terrivelmente eficazes, pois poucos arriscam discutir os supostos erros, a medo de serem tomados por ignorantes, e acusação de plágio é coisa feia, que sempre enlameia os visados, mesmo quando injusta; outra, é o velho ataque ad hominem, tão ao gosto nacional: Alencar lança torpe calúnia contra a irmã do poeta rival, "esse caloteiro que se não lembra de que a irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canavezes".
Já em A Capital, o estratagema demolidor usado contra o potencial rival é mais subtil, mas igualmente demolidor: pressentido talento no estreante literário, o patrão da poesia aplaude -- não o drama, mas uma pilhéria involuntária do artista ("estrelados, só ovos") desviando as atenções dos ouvintes, que prontamente esquecem a peça para se gabarem das respectivas habilidades cómicas, uma das quais consiste na imitação do zurrar de um burro no cio...
Outro truque, também presente n' A Capital, consiste em descobrir uma cacofonia -- no verso "nunca cauda mais pura..." logo apontam: "Ca-cau, cacau do Brasil, chocolate..."
Por hoje, fico-me por estes exemplos do Eça, na certeza de que não há nada de novo sob o Sol. Facebook e blogosfera ficam para outra ocasião.
E deixo para reflexão dito de Saramago, numa das suas entrevistas: na literatura ninguém tira o lugar a ninguém...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

1972

Excerto de um inédito meu. Porque me apetece.
"Aquela tarde  de Dezembro de 1972 devia ser igual a tantas outras que a cidade já conheceu desde que Salazar impôs a sua ordem ao país, e o adormeceu como criança ao colo materno, que no conchego esquece os peitos secos, e se não agita a medo de forte palmada, ensinada desde o nascimento  que, se escasseia a comida,  sobeja a porrada para quem reclama.
Esta substituição da comida pela pancada está tão enraizada nas mentalidades que já entrou na língua: é o gaiato que na escola ameaça colega "lá fora tu *comezas*!", e não tenciona repartir o farnel, antes quebrar a cara do infeliz, seguramente mais pequeno, porque, eis outra virtude nacional, espancam-se os mais fracos e bajulam-se os mais fortes, é a mãe que carinhosamente previne o filho após patifaria insignificante, "Vais ver a carga de cachaporra que *comes* quando o teu pai chegar a casa" -- até na capital, de falares mais finos, mais polidos à superfície, se diz das ordens do governo, das leis, das ordens do patrão, por mais abstrusas que sejam: "é *comer* e calar!"
É este o nosso Portugal conformado. O do "come e cala-te", em que se *come* sofrimento, adoçado embora pela linguagem metafórica, pelo que não espantará ouvir camponesa na feira responder a filho que, olhos aguados, lhe choraminga "Mãe, compre-me um bolo!" "Compro-te mas é uma pouca de merda!", isto porque a merda, fedorenta, pegajosa, colou-se não apenas às línguas, mas também às mentalidades —"Este país é uma merda!".
Dois verbos, *comer* e *calar*; um nome, *merda*. Três palavrinhas que resumem o salazarismo e delas  deriva  tudo o mais: o silêncio resignado; a miséria de um povo descalço, a subnutrição, o analfabetismo, a violência animalesca contra os mais fracos. O medo. 
Por isso, naquela  tarde de sexta-feira, chuvosa, tristonha, apenas se deviam ter visto autocarros e eléctricos apinhados de trabalhadores a caminho de casa, fartos da merda do emprego, cansados da merda da vida, parados na Baixa, no Martim Moniz, na Praça da Figueira, no Terreiro do Paço, pela merda dos automóveis de uns merdas engravatados que compram carros a prestações para  entupir as ruas da cidade, e impacientes com os engarrafamentos, com as bestas que são os outros condutores, ainda buzinam infernalmente, interminavelmente, ou exasperados metem a cabeça de fora da janela a berrar "Cale essa merda, não vê que ninguém pode passar?", inconformados com esta injustiça social que os obriga a ficarem parados atrás dos autocarros onde antes viajavam!
Por todo o lado estalam conflitos, "Vá bardamerda!" "Vá você, seu malcriadão!" "Oiça lá, sabe com quem está a falar?", e o pretenso figurão exige a presença das autoridades, mas é sabido que estas só aparecem quando não fazem falta, e o cavalheiro olha em volta, desconsolado: "Quem me agarra, que mato aquele malandro?"
Ainda o não sabem, mas a polícia está ocupada mais adiante, um punhado de estudantes armou arruaça, bloqueou a Almirante Reis, em breve todos estes cidadãos, proprietários de automóvel ou desclassificados utilizadores de transportes públicos, uns e outros inocentes, pacatos, respeitadores da ordem, cumpridores da Lei,  ver-se-ão  envolvidos na  pancadaria, pois a polícia de choque quando carrega é como toiro bravo, também ela só vê pela frente o vermelho que a enerva, ai dos mais exaltados, esses que ciosos dos seus direitos de prioridade, garantidos pelo Código da Estrada,  exigem a presença das autoridades -- levarão umas boas cacetadas, um ou outro será detido e levado para os calabouços do Governo Civil, enquanto a malandragem que armou o desacato escapa por entre as malhas policiais como as ratazanas pelas sarjetas da cidade."

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Solidões

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people (Ah, look at all the lonely people!)
Where do they all belong?
(Eleanor Rigby, The Beatles, Lennon/McCartney)

Hospital. Na sala de recobro, a enfermeira corre a cortina para que paciente, chegada de intervenção cirúrgica, desperte com recato da anestesia.
– Dona (chamemos-lhe Leonor) – Dona Leonor, está-me a ouvir?, insiste. A paciente, pela voz ainda nova, responde debilmente. Paulatinamente, regressa à consciência.
– Dona Leonor, quem quer que chame para junto de si?
Não ouço a resposta. A enfermeira insiste: – Quem é que a vem buscar ao hospital? Assim, não pode sair! Tem de ter alguém que a leve. Não tem família? Uma amiga? Uma vizinha, uma conhecida? A doutora não a deixa sair sozinha!
Não sei como acaba a história. Bem não é, certamente, qualquer que tenha sido o desfecho.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

L'arroseur arrosé

O S. era um velho implicativo, quezilento, amigo de armar zaragata por ofensas reais ou imaginárias. E passava o tempo a sacanear os outros, em parte por maldade, em parte para se vangloriar das partidas pregadas.
Por isso, num dia em que pediu ao dono do café e padaria que lhe guardasse meio cabrito amanhado na arca congeladora, este regozijou e prontamente convidou os amigos: -- Logo à noite apareçam e tragam o vinho, que vou assar meio cabrito no forno!
A patuscada prolongou-se noite alta, bem regada a tinto, acompanhada com pão quente acabado de sair do forno. Para sobremesa, o dono do café quis contar a patifaria que tinha pregado ao S.: -- Sabem como é que arranjei este cabrito?
Pois não sabiam. E aguardavam curiosos a explicação, a pressentir patifaria: E o dono da padaria, ufano: -- Vejam lá que hoje me apareceu aqui o S. a pedir para lho guardar na arca!
-- Mas ele não tem cabritos!
E outro a adivinhar o sucedido: -- Só se foi o cão que lhe morreu ontem! Vais ver, o sacana esfolou-o, amanhou-o, cortou-o a meio para não desconfiares e pediu-te para o guardares na arca!

sábado, 23 de julho de 2016

Coisas que me enternecem

Nesta foto. as cinco crias do ninho de andorinhas da varanda do meu quarto, bem gordinhas, aparentemente prontas a fazerem-se à vida.
Felicidades e muito obrigado. 
Limpo sem protestos a porcaria do chão.

Ataque em Munique

Filmes e palavreado, comentadores horas a fio, como se soubessem alguma coisa. O que ninguém me diz são coisas muito simples:
--Que tipo de arma (pistola, espingarda, caçadeira...) foi utilizado pelo assassino?
-- Como é que um miúdo de 18 ou 19 anos a conseguiu?
-- Onde e como aprendeu a utilizar a arma? (Não se pense que é simples: da primeira vez que disparei uma pistola Walter na carreira de tiro errei o alvo, de 1,80 m, a 25 m; o mesmo para a pistola metralhadora FBP).
-- Como conseguiu as munições?
-- Como é que tinha as nacionalidades alemã e afegã, sabido que é que a Alemanha não permite a dupla nacionalidade?

terça-feira, 5 de julho de 2016

SÔBOLOS RIOS

Nasci em terra desprovida de cursos de água, da qual então se dizia "Montes, muito vinho e poucas fontes". 
Talvez por isso, talvez do sangue semita -- os Montes terá sido povoado por cristãos-novos -- a água sempre me fascinou e está presente nas minhas memórias mais antigas: a primeira vez que vi o mar, levado de bicicleta pelo meu pai à Nazaré, episódio ficcionado em Entre Cós e Alpedriz; uma pescaria abortada às enguias nas valas da várzea das Cobradas com o meu pai e o eu rio Zé; o "rio" das Loireiras em Alpedriz, acompanhando a minha mãe na lavagem semanal da roupa, num dia em que ela se esqueceu da colher para a sopa, e me improvisou uma com o pão do acompanhamento -- que eu comia a cada "colherada", apesar dos ralhos; Chaqueda, para onde fui aos seis anos, com "rio" nas traseiras da nossa casa, onde o meu pai pescou com rede muitos peixes desconhecidos, enormes, pareciam-me, e talvez por não saber o que fazer a tanta abundância, colocou-os no tanque da roupa, cheio de água fresca -- e de manhã, bolavam de barriga para cima, mortos, soltando um pivete fétido; as águas frias e cristalinas da represa que alimentava a azenha do nosso senhorio e patrão, o senhor Luís,a poucos metros da casa onde morávamos,  um remoinho a meio que sorvia e arrastava a água quase até ao fundo, onde os peixes nadavam em cardume, dorsos escuros a confundirem-se com o lodo, nas voltas brilhava por vezes o prateado das escamas do ventre e era a medo que me debruçava para mergulhar mãos e braços a tentar apanhar peixe e sentir a força da correnteza que se deslocava para a conduta da roda da azenha, e fazia rodar duas mós enormes, rugosas, que incessantemente moíam trigo, caído grão a grão de uma tremonha agitada pelo mecanismo. Já então, aos cinco anos, me julga mais esperto do que os outros, para quê duas pedras enormes a moerem um grão de cada vez? E empurrei umas mãos cheias de cereal, logo as mós encravaram, pouco depois surgiu afogueado o senhor Luis, que se viu e desejou para repor o engenho em funcionamento. Nunca terá sabido que aquilo foi obra minha, que até hoje a ninguém contei a façanha.

Dizem, eu sei, que os rios acabam no mar
Que a mesma água só uma vez passa sob a mesma ponte
Dizem tanta coisa e tão pouco se aproveita,
Que já só sei que o saber sabe a pouco
E o conhecimento é fugidio como o cabelo.
Azenhas avariadas, moinhos que não moem
Já nem para as águas as pontes são as mesmas
Rios ou esgotos? Nada cheira à farinha de outros tempos...
Ficaram as lembranças das águas claras da meninice
Agora sem rãs sem musgo sem pedras
Sem mulheres lavando os males do mundo
Haverá prazer na vitória, terá a derrota amargura
Até a ternura terá seu dia de glória
E talvez os rios se achem no mar
Entre algas peixes de prata recordações de verdura
Talvez. Mas a água, mãe dos peixes, escorre-me entre os dedos
E só devolve a minha imagem deformada
Sei que eu não sou este nem este é o meu rosto
Mar, o meu rio, a minha água? Que seja ribeiro
Regueira, simples fio de mágoa – mas que seja eu.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Algazarra canina nocturna

Tenha o sono pesado, mas mesmo assim acordou-me pelas duas da manhã a serenata nocturna de cão de que já aqui falei. 
Tempos atrás, a tentar minimizar o ruído, mandei instalar janela exterior em vidro duplo no meu quarto, que assim ficou com duas janelas, estores no meio. 
Tentei pensar noutras coisas. Sentir pena do cão. Inutilmente. O ladrar incessante, a procurar desgarrada, atravessava vidros, paredes duplas, portas interiores fechadas, entrava-me pelos ouvidos tapados pela roupa.
Peguei na almofada e percorri todas as divisões em busca de silêncio. Em vão. O ladrar enchia a casa.
Desesperado, levantei ruidosamente o estore da janela das traseiras, de onde vinha o barulho, e gritei para a escuridão o mais alto que pude, várias vezes: Cale esse cão! São horas de dormir!
Não se acendeu uma luz que fosse, não se ouviu porta ou janela a abrir, voz a repreender o cão -- que continuou o seu concerto nocturno, imperturbável.
Com sono, fico doido. Telefonei à polícia. 
Amável, o agente quis saber qual o número da porta do cão. Expliquei, o menos atabalhoadamente que consegui: o ladrar provinha de um grupo de várias casas, nas traseiras da minha, havia árvores a tapar a visão e no escuro...
O agente precisava das coordenadas para o Auto de Notificação... Eu devia saber quem tinha cão. Senhor agente, aqui todos temos cão! 
Agradeci, pedi desculpa pelo incómodo, o polícia ficou de mandar um carro verificar se havia ruído perturbador logo que tivesse um disponível. A conversa, longa, decorreu à janela, aberta, para o agente ouvir o chinfrim e não pensar que sou daqueles que em noite de insónia resolve chatear a polícia. Quando desliguei --
O cão calou-se! Misteriosamente, inexplicavelmente!
Agitado, dei voltas na cama durante horas, a medo de que recomeçasse a algazarra, ou que a polícia me tocasse à campainha a perguntar de onde provinha a altercação. 
Acordei rabugento, tensão arterial alta -- é assim que, na minha idade, nos dá enfarte, AVC, coisa ruim. 
Estou convencido de que o cão me ouviu a telefonar para a polícia e resolveu calar-se antes que ela chegasse. 
Ou os donos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Canícula

De dia, transpiro como camponês ao menor esforço, fujo do Sol como vampiro, fora de casa procuro a frescura da brisa nas sombras, à noite abro as janelas e às escuras, a evitar as melgas, fico no silêncio possível, constantemente cortado pelo ladrar furioso da canzoada da vizinhança. 
Assim passo estes dias de Verão. Manhãs a tentar escrever o próximo romance e um conto, ginásio, tardes ocupadas com colheitas, regas, muita erva para mondar, bricolage, noites à espera que a casa arrefeça um poucochinho. 
Alegra-os a presença mais frequente dos netos, agora que as aulas dos mais velhos terminaram, o prazer de poder fazer aquilo de que gosto, uma mini à tardinha, um uísque ao anoitecer.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Neste ofício de apagador

Ontem à noite e hoje de manhã apaguei irreversivelmente largas dezenas de textos, antigos e recentes. A purga vai continuar. 
Para mim, escrever é sobretudo isto: apagar. E recomeçar, tentando fazer melhor. 
Preciso destes banhos de humildade. Tanto, que entre os raros textos que poupei estão autocríticas tão duras que me é doloroso relê-las. Ficam, são preciosas, volto a elas regularmente, não por masoquismo, mas para que os elogios me não façam perder o norte.
Nem tudo, porém, é tortura. Creio que veio até mim, depois de procura árdua, nova história, ainda com desenvolvimento desconhecido, já com o tom e a toada justos. 
Assim escrevo. Levado pelo ritmo, por bússola o instinto, por modelo o triste Avalor que parte em barca sem leme em busca da Arima amada -- personagens de uma história para a qual a narradora inicial não vislumbra leitores.
Mais fácil, mais produtivo, seria fazer ponto-cruz, arranjar desenho prévio e encher, encher. Só que não é esse o meu modus faciendi...

domingo, 5 de junho de 2016

Na morte de Moamed Ali

Morreu Moamed Ali. (Ou lá como escrevia o nome quando deixou de ser C. Clay).  Morreu o pugilista que tirou o boxe das sarjetas e o tornou no desporto mais bem pago da actualidade. O homem do poder negro, uma das vozes importantes da emancipação negra nos EUA, o homem que não hesitou em recusar combater no Vietnam como soldado, tendo-lhe então sido roubados todos os títulos.
Mas M. Ali, com a sua coragem e grandeza de carácter, sabia que é o homem que dá valor aos títulos, não são os títulos a dar valor ao homem. E após o fim da guerra do Vietnam, voltou aos ringues, velho de 37 anos, para defrontar campeão que tinha posto KO todos os campeões que, no passado, tinham vencido Ali.
"Sou mais bonito, sou mais inteligente, vou ganhar aos pontos", fanfarronava Ali, para gáudio dos jornalistas, que acorreram depois ao combate para presenciar o massacre do velho gabarolas.
O adversário, o grande Joe Frazier, contou depois:" Bati-lhe tanto que depois do quarto assalto já não conseguia levantar os braços".
E Ali, o pugilista mais inteligente de todos tempos, com um jogo de pés inimitável, sobreviveu ao massacre, inverteu a situação, para estupefação geral venceu, não aos pontos, como tinha anunciado, mas por KO.
Não se pode ganhar sempre. Hoje, perdeu com adversário invencível. E se neste breve post há incorrecções e exageros, queiram desculpar. Afinal, trata-se de Moamed Ali, o maior de todos os tempos, talvez o último dos homens de uma espécie em extinção.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Início de Junho

Numa semana, a erva junto às cepas cresceu tanto que as abafava. Eis a vinha, com a erva roçada ainda fresca no chão. E alternei o trabalho no campo, que incluiu a preparação de terra e sementeira de dois quilos de feijão, com a pintura: o portão da direita estava no estado do da esquerda -- que, muito em breve, sofrerá intervenção idêntica. Logo que eu recupere do cansaço dos três últimos dias.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Cem mil visitas

Este blogue ultrapassou as cem mil visitas. Número nada impressionante, se considerarmos que sobrevive há uns dez anos.
Falava-se então muito de blogues, e eu perguntei como criar um a aluno meu, do Karaté, rapaz então com os seus doze, treze anos, inteligente, educado, aplicado e rigoroso nos treinos -- com a internet cortada pelos pais por se ter envolvido em pequena patifaria precisamente com o seu blogue -- asneiras da adolescência, quem as não fez?
-- É fácil, explicou-me, vai ao blogspot, escolhe criar blogue...
E assim nasceu este blogue. Sem objectivos claros, sem temática caracterizadora, apenas porque sim.
Entretanto, os blogues proliferaram, frutificaram como as faveiras em Maio, como elas muitos secaram.
Este, embora com manutenção irregular, vai andando. Como nós...

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Vaidade

Ao fim de um mau dia, leio isto, numa discussão entre leitores do blogue Horas Extraordinárias, de Maria do Rosário Pedreira:
"Entre Cós e Alpedriz ... foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!
Se fosse pela notoriedade do autor ou pela divulgação que teve, pela editora... jamais o teria lido!"
MUITO OBRIGADO!

terça-feira, 10 de maio de 2016

Verão Quente (3)

Verão quente (3)
Estão a ver o boné da foto do Salgueiro Maia? É um quico. Fazia parte da farda de de trabalho, a n.3, se a memória me não falha. Sem valor especial, ao contrário, por exemplo, das botas de trabalho.
Pois no Verão de 1975 estava eu destacado num dos quartéis de Santa Margarida e entrei no bar dos sargentos para um café.
Sempre distraído, paguei, peguei o boné de cima do balcão, e saía quando um primeiro sargento me detém, puxando-me pelo braço. Rudemente.
-- Nosso furriel, esse quico é meu!
Olho-o espantado. Levo a mão à cabeça -- descoberta. Nego.
E ele, malcriadão: -- Vá-se f..., o seu está aí! -- e apontou para a presilha das minhas divisas de segundo furriel.
Pois estava! Tinha-o lá prendido ao entrar no bar.
Nem me tentei desculpar. Apressei-me a sair, a evitar os remoques do sargento-chico, a arengar contra o chico-esperto que lhe queria roubar o quico, ah, mas ele tinha-os bem abertos, não era qualquer furriel maçarico que lhe passava a perna!

sábado, 7 de maio de 2016

Verão Quente (2)

A FBP, pistola metralhadora do sargento de serviço, deu em disparar crivando de balas a parede em frente à qual os soldados alinhavam para a formatura da manhã -- e eles, mandando a disciplina ao tal sítio, instantaneamente se lançaram por terra.
-- O meu sargento é doido ou quê?
O pobre sargento de dia, incapaz de controlar a arma, que disparava incessantemente em todas as direcções, gritava em pânico: -- Venham-me cá parar isto!
-- Vamos mas é o c...! Tire o dedo do gatilho, vire essa merda para o ar!
A FBP só parou de disparar quando esvaziou o carregador...

Verão. Quente (1)

1975. A contra-revolução crescia. No Tejo, ameacadores navios de guerra da NATO. Em Rio Maior, barricadas. Caça aos comunistas no Oeste, incêndio das sedes do PC. 
No meu quartel, deram camuflado a cozinheiros e a padeiros, passaram-nos a operacionais, a eles que mal sabiam manejar a G3 e pareciam ansiosos por a usar. Um dia, vi da minha janela um açoreano gritar para outro: -- Pá, dá-me um tiro!
-- És doido ou quê?
-- Ah, não dás? Atão dou eu! 
E zás, aponta-lhe a G3, pum! Pum!
Grita o outro, resguardado na camarata: -- Pára com essa merda, és doido ou o c...?
A medo, assomam às portas e janelas outros prontos, acaba por vir o oficial de dia, cauteloso,
-- Sim, meu aspirante, fui eu, esta merda disparou-se não sei como!
Segue responso: não deve ter bala na câmara, e a arma deve estar travada. Tiros, só contra a reacção. E furriel ranhoso acrescenta: -- E contra o M-R- Pum-Pum! Podes furar esses cabrões todos!

sábado, 30 de abril de 2016

O galo de ferro

Branquejam pela encosta as paredes das casas, vermelhos os telhados — e, acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observássemos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar ao longo das gerações que passam sob o seu olhar indiferente, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha virado para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente... 
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, agrada-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de aragens, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado em afastar a cauda do desconforto, o olhar vazio fitando o infinito. 

Coisas que não esquecem

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Onde estavas, Zé, no 25 de Abril?

A dormir.
Era uma da tarde e acordou-me a minha mulher, tínhamos casado um mês antes, para me dizer que, segundo boato ouvido na padaria, havia um golpe de estado na capital. "Pois sim, deixa-me  mas é dormir", devo ter respondido, com o sono de pedra dos vinte anos, e voltei a adormecer, não sobre fofo colchão, mas no chão, que cama não tínhamos. 
Naquela semana fazia na fábrica o turno da meia noite às oito e precisava desesperadamente de dormir. Também não tínhamos televisão nem rádio. Nem mobília nenhuma, exceptuando um mocho comprado no mercado.
Vivia na Marinha Grande e trabalhava (operário de plásticos) em Leiria. Motivos: estão em Do lacrau e da sua picada. Chego à cidade ainda de dia, procuro sinais de agitação, nada. Na Praça Rodrigues Lobo encontro o Luís Marques, também ele na clandestinidade, que não via há coisa de um ano. A notícia do golpe de estado trouxera-o até à claridade. Tal como eu, não acreditava que viessem aí grandes mudanças: "Coisas do Spínola e dos spinolistas", terá dito, e eu acreditei. E fui trabalhar, porque o patrão também não tinha ouvido falar em revolução.
Muita coisa mudou. Logo nos dias seguintes, aqueles que até então nos insultavam quando nos manifestávamos nas ruas contra a guerra colonial e o fascismo, que telefonavam à polícia quando pela calada da noite pintávamos paredes, que nos denunciavam como perigosos agitadores comunistas ao encontrarem propaganda nos quartos alugados, reconverteram-se ao vermelho, mas só no cravo na lapela, e muitos tornaram-se guardiães do regime.
Apesar deles, do dia de trabalho para a nação, do fim da luta de classes que apregoavam, o país mudou. Tanto, e para melhor, que está hoje irreconhecível. 
Aos que fizeram a revolução, agradeço a criação de condições para acabar com a ditadura, a sua polícia política, a guerra colonial, para democratizar e desenvolver. Embora, não poucas vezes, tal ter sido conseguido contra eles -- e em dia de festa não é bonito lembrar tais coisas. 
Quanto ao povo, esse está nas praias, aposto, a festejar feriado a que dá tanta importância como ao 5 de Outubro, ao 1 de Dezembro, à Nossa Senhora Não-Sei-de-Quê...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sexo e género

SEXO é uma categoria biológica; GÉNERO é uma categoria gramatical. Sobre a categoria biológica, que se pronuncie quem sabe; mas sobre a categoria GÉNERO, lembro que em Português só pode ter um de dois valores: Masculino e Feminino, diferentemente, por exemplo, de línguas como o Inglês, que têm também o GÉNERO Neutro. A gramática de uma língua não é politicamente correcta. É o que é, e importa respeitá-la. Não o fazer, por moderno, ou chic, ou prá-frente que se queira parecer, apenas revela ignorância, que nada abona em favor do partido que até tem líder com mestrado em Linguística. Dizem.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Batatas com pele e fruta por descascar

Parece ter virado moda em tudo o que é restaurante, tasca, boteco, servir as batatas com pele -- a murro. O que era uma receita camponesa, que muito aprecio no tempo da batata nova, generalizou-se. Poupam em mão de obra, poupam na matéria prima.
Acontece que não gosto da pele dura das batatas velhas, e vejo-me em palpos de aranha para a separar da polpa quando me servem tal manjar. Mas há outra razão para querer as batatas descascadas: é na pele que se acumulam os pesticidas utilizados tanto durante a produção como, sobretudo, na conservação. Eu tenho ouvido cada história! -- por exemplo, há agricultores que aquando da colheita mergulham durante 24 horas os sacos de batatas em Decis, um insecticida não homologado para o efeito. Ou noutro qualquer, que tenham em armazém para combate ao bichado da fruta!
Depois, há os tratamentos regulares, no mínimo mensais, com insecticidas em pó para combater a traça da batata (a "fia-maria" , diz-se na minha terra) e antiabrolhantes para evitar que grelem, perdendo peso e qualidade.
E então, mesmo bem lavadas, o que pouco adiantará pois os pesticidas costumam ser resistentes à lavagem, seguem para o forno com a casca onde os resíduos se acumularam -- o que não mata engorda, diz o povo.
Batatas assadas a murro -- sim! Mas novas, quando a pele é tenra e ainda não receberam cobertura de pesticidas. E apenas das minhas, que sei o que levaram, quando levaram.
Dir-me-ão: assim, não podemos comer nada! Discordo. Precisamos é de saber o que comemos. Os supermercados deveriam apresentar garantias de que batatas, fruta, hortaliças foram analisadas e estão isentas de resíduos químicos ou que estes se encontram abaixo dos limites internacionalmente fixados. E, para vos preocupar um pouco mais, acrescento que não são as grandes associações de produtores que estarão em incumprimento, mas, mais provavelmente, os pequenos agricultores que, mal informados, vendem os "bons" produtos do campo sem controle, especialmente nas regiões de minifúndio, em que estreitas leiras de horta pegam com pomares, nada impedindo que as hortaliças frescas vendidas na praça ou mercado pela manhã tenham levado banho de pesticida que o vizinho aplicou no seu pomar durante a noite, quando faz menos vento...
A fruta -- só como da minha, e na época -- fica para outra ocasião. Mas descasquem-na, se não for da vossa árvore. E não obriguem as crianças, como tentaram fazer em tempos a um dos meus netos na escola, a comer a fruta com casca.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A etimologia de um palavrão

Ainda eu era professor quando uma aluna de 12 ano, a protestar contra preconceitos, me deu como exemplo a palavra "caralho", que, dizia ela, se reportava a um dos mastros das caravelas, pelo que mandar alguém para o dito cujo significava, no tempo dos Descobrimentos, mandar subir ao mastro. Sempre valorizei, e muito, o facto de os meus alunos serem capazes de pensar pela própria cabeça e de defenderem os seus pontos de vista com argumentação sólida e nunca me agastaram assuntos ou palavrões, contanto que fossem discutidos com seriedade, como era o caso.
Porém, duvidei da etimologia e prometi verificar. Porque, como lhe disse, eu já tinha encontrado a palavra, ou o palavrão, em textos muito mais antigos, por exemplo nas Cantigas de Escarnho e Maldizer e lembrava-me até, mas não citei, de uma de Afonso X, rei de Leão e Castela, que exaltava o peninsular, "cuja grossura sua" as damas preferiam.
Assim fiz. Mas a falsa etimologia do palavrão parece ter-se tornado "mito urbano", estribado na crença actual de que toda a informação encontrada na internet é igualmente válida, agravada com a falta de exigência quanto ao rigor das fontes.
Na falta de um dicionário etimológico credível, o Professor Lindley Cintra, de quem tive o privilégio de ter sido aluno a Literatura portuguesa III (Teóricas) e Linguística Românica, recomendava o Dicionário da Porto Editora. Continuo fiel aos ensinamentos do Mestre por nada de novo ter surgido de então para cá em termos de dicionários etimológicos.
E é esta a a tipologia proposta no referido dicionário: "Do latim *caraculu-, «pequena estaca»"
Aqui vai portanto a correcção, embora convencido da inutilidade. A palavra é, repito, muito anterior aos Descobrimentos, o que não invalida que nessa época a possam ter empregado para designar mastro de caravela ou nau. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Segurança Social e obras públicas

Desaprovo e fico muito preocupado com a decisão de António Costa de usar 1400 milhões de euros da Segurança Social para financiar um programa de construção e recuperação do património. O dinheiro dos trabalhadores jamais deveria ser usado para financiar os patrões, no caso as grandes construtoras que tanto têm lucrado com a política de betão e obras públicas. 
Que me diz a isto, camarada Jerónimo? Outro sapo vivo que vai engolir?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chuva e fome

A chuva que insiste em nos incomodar, e a mim me impede de plantar as batatas, era há apenas meio século causa de desemprego e fome -- e não era a fome de que hoje os jornais nos falam, era aquela com que se definhava e morria, que não havia então subsídios, nem apoios, nem banco alimentar contra a fome, nem solidariedade organizada. Nesse tempo duro, de penúria e de falta de quase tudo, passei por privações hoje inimagináveis, embora nunca tenha passado fome, nem andado descalço e semi-nu à chuva por falta de roupa e calçado. Mas vi, recordo, e dei testemunho, quanto mais não seja para que se nos queixarmos de barriga cheia, não o façamos na ignorância daquilo por que os pais de muitos de nós passaram.
"Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os companheiros, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido."
José Cipriano Catarino, Entre Cós e Alpedriz, Leyaonline 

terça-feira, 15 de março de 2016

Leiria, 1968

A cidade cabia toda no olhar se a observássemos de um dos pontos mais altos, como o Castelo ou a Senhora da Encarnação. Ia-se a pé a todo o lado, esquivando nas ruas antigas os carros impacientes, de buzina fácil, novos senhores da cidade frequentemente envolvidos em toques e choques. Logo acorriam mirones das lojas e cafés, formava-se ajuntamento, todos conhecedores do código da estrada, estalavam discussões gritadas, por vezs violentas,
-- Este senhor é que tinha prioridade porque vinha da direita!
-- Qual prioridade, qual quê, o senhor não parou porque não quis, já eu tinha passado o eixo da via quando me bateu!
-- Quem bate por trás é sempre culpado, sentenciava camponês que viera feirar ao mercado.
-- Oiça lá,  sem matarruano, o que é que você percebe de leis?
Rolam já embrulhados pela calçada, ora o citadino por cima, ora o campónio -- e quando um logra montar a cavalo o outro, chega-lhe uns sopapos pouco convencidos.
-- Ninguém os aparta?, pergunta mulher, com vontade de estragar o divertimento da turba.
-- Ora, não se matam. e quem se mete de permeio apanha também.
É o que acaba de acontecer, homenzarrão fiado talvez na corpulência tenta separá-los, ei-lo que rebola também, camisa rasgada na bulha com o citadino, enquanto o campónio, livre do ataque, mete a fralda nas calças, apanha do chão a boina, incentiva o grandalhão, feliz com a desforra por interposto paladino.
Apita a polícia, separam-se os brigões, ninguém quer questões com a autoridade, não há vencedor nem vencido, ambos se ameaçam ainda, fingem querer atirar-se um ao outro, confiantes em que os braços que os seguram os não largarão e a polícia não permitirá mais desacatos. 
E é junto dos agentes que condutores acidentados e testemunhas argumentam, a um mais exaltado acalma-o aviso ameaçador -- Veja lá se quer ir à esquadra!, fita métrica na mão os polícias medem a rua, a distância às rodas, em bloco de notas esboçam croquis do sinistro, apitam novamente, ordem para dispersar, e as pessoas, obedientes, reentram nas lojas e cafés, onde prosseguirão as discussões acaloradas, mas agora pacíficas.
Outras vezes é a sirene da ambulância a soar imperiosa, exigindo passagem no caos do trânsito, ainda sem sinais nem rotundas, sobre tamborete no cruzamento sinaleiro impaciente de luvas brancas manda encostar, dar passagem, desimpedir o caminho, e o meu colega Ramalho corre à frente dos demais garotos até ao hospital, a uns centos de metros, a certificar-se de que o sinistrado não não é o pai, vendedor da Carbo Sidral sempre na estrada e amigo de carregar no acelerador.
Nas tardes amenas, após saída da escola e lanche, desço ao centro, detenho-me na contemplação das montras, dos cartazes do cinema, depois sento-me por instantes no jardim, alheado, em sonhos permanentes, saudoso da família, solitário na cidade, antes de passar pelo quiosque onde compramos e vendemos livros usados, Mandrake, Major Alvega, "cobóis" da colecção Seis Balas, Os Cinco e os Sete, policiais -- banda desenhada e literatura de cordel. Por vezes,  sentam-se homens no mesmo banco, tentam meter conversa, pedem lume ou oferecem cigarros. Sem sucesso, não fumava, não tinha fósforos, e conversas só comigo mesmo. Paneleiros, saberia mais tarde, mas naquele tempo, com a ingenuidade aldeã dos treze anos, paneleiro era apenas insulto, como ranhoso de merda, cabrão, filha da puta. Perturbado pelas interrupções,  levantava-me, prosseguia as deambulações. Peripatético, diria de mim se então conhecesse a palavra. Andar e pensar, andar e sonhar, como os heróis dos meus romances, a caminharem na ponte dos navios de trás para diante, de diante para trás, enquanto davam caça a piratas ou congeminavam planos de batalha, ou nas calmarias pensavam nas amadas distantes, imaginando-as fiéis, a prepararem o enxoval para casamento quando eles forem promovidos por bravura.
Interrompia o devaneio ao passar junto do stand da Ford, a admirar embasbacado o sonho reluzente de todos os rapazes da cidade, um Ford Capri, modelo desportivo, que me fitava com a soberba expressa nos seus grandes faróis.  Mas, novidade, acima deles há uma placa: VENDIDO. A quem, interrogava-me atónito, quem podia dispor assim de cento e vinte contos? O dono de uma fábrica de plásticos, como aquela onde eu seria operário anos depois -- outra história, já aqui contada. 
Era, aprendia,  o poder indecente do dinheiro, a roubar tudo o que nos encantava, tal como os jogadores de futebol do União nos levavam, logo do portão da escola, as beldades que amávamos platonicamente, e a nós, pobres admiradores mal vestidos, magoados com o olhar de desdém que elas nos deitavam ao entrarem para os carros último modelo dos futebolistas, só restava desabafo amargo: Putas! 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Ainda a guerra com o MEO

Lá para meados do mês, posso ficar incomunicável durante uns dias -- sem telefone, telemóvel, internet, etc.
Isto porque, cumprindo com a minha palavra, como sempre procuro fazer, cancelei agora TODOS os serviços do MEO. 
Como se lembrarão, a guerra começou por  alguém do MEO falsificar documento imputando-me um contrato de banda larga móvel a que nunca aderi e a empresa, abusando da minha confiança, ter retirado dinheiro aproveitando autorização para débito directo concedida unicamente para o serviço M4O;  com o cancelamento, o conflito aproxima-se agora do fim, embora ainda me esperem muitas irritações e dissabores, que o mais difícil de esfolar é o rabo.
Só posso lamentar que uma empresa da dimensão do MEO se tenha recusado a apurar em processo interno o sucedido, identificando e agindo contra o autor da vigarice, optando por perder irremediável e definitivamente cliente que já vinha dos tempos em que apenas havia telefone fixo.

terça-feira, 1 de março de 2016

Os meus ajudantes

Na horta, conto com a preciosa ajuda de muitos auxiliares, como este, em plena caçada matinal, aproveitando a terra mexida.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Lição de vida

Esta andorinha, impedida de trabalhar pela forte chuvada que cai, aproveita-a para tomar banho de chuveiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A pensar nas batatas

A lavrar, ontem, aproveitando um dia bonito deste Fevereiro tão incerto. Pode ter sido trabalho deitado a perder pela chuva de hoje e pela que está prevista para os próximos dias. Pode S. Pedro, o manda-chuva, obrigar-me a plantar as batatas noutra courela. Assim é a agricultura: jogo de azar. Fica o prazer de uma tarde bem passada, a fazer o que gosto, sozinho, longe de aborrecimentos

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Teoria da conspiração

Irrita-me passar um serão a validar facturas: quase duzentas minhas, outras tantas da minha mulher. Se eu não tenho dificuldade em etiquetar despesas de oficina, restaurante, cabeleireira, esteticista,  porque é que os funcionários das Finanças, pagos para fazer esse trabalho, o não conseguem?
Dizem-me que algumas empresas têm vários CAE ou diferentes actividades para um mesmo CAE. Admito que sim. Mas não cabe antes de mais às finanças e a essas empresas resolverem esse problema, em vez de obrigarem o cidadão contribuinte a ser simultaneamente contabilista? E aqueles milhões de pagantes que usam com dificuldade o computador? Sobrecarregam familiares, amigos, ou vêem-se obrigados a pagar a quem lho faca para as Finanças, que nos levam couro e cabelo nos impostos, folgarem?
E o meu amigo, que escutava estes desabafos:
-- Ah, eu não valido as facturas!
Olho-o intrigado. Isto não está para desperdícios, ninguém quer pagar ainda mais de imposto.
-- Tenho um empregado das Finanças que mas valida.
Ah, então é isso! Não se faz o trabalho para receber por fora!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sempre a aprender

Conta-se que o primeiro podador foi um burro: roeu uma videira, a qual produziu mais e melhor, pelo que o dono passou a imitar o asno, cortando também as outras.
É assim que tenho podado. Com pena por não fazer melhor, sempre a deitar olhares invejosos para as árvores podadas por quem sabe. E agora, que surgiu a oportunidade, inscrevi-me e estou a frequentar curso de podador.
Para não continuar a podar "à la burro".
Hoje era dia de trabalho de campo, tesoura na mão, pois o formador, engenheiro agrícola com doutoramento na área da fruticultura, entende que é nos pomares, a contas com as árvores, que se aprende. Mas a chuva obrigou a mudança de planos...
Eis-me em casa, outras podas, limpando textos de galhos, ramos secos, ladrões, esporões doentes, lenhos podres, atarracando verdascas, porque, como na poda das árvores, corta-se para produzir fruta e não madeira.
FOTOS: (1) Ilustração do pintor João Alfaro para a capa do meu Entre Cós e Alpedriz, que acabou por não ser utilizada; (2) na poda de pessegueiros, antes da formação.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ah, rapazes do meu tempo!

Às vezes, normalmente em funeral de familiar na aldeia, encontro colega da escola primária, daqueles que não vejo há mais de meio século. E não o reconheço. Por exemplo, o Fernando, que me conta que abandonou a escola na segunda classe, e foi trabalhar para forno de tijolo, como as crianças de Esteiros. Acrescenta com orgulho legítimo: ele, que a pobreza deixou semi-analfabeto, conseguiu dar destino diferente aos filhos: o rapaz, que me apresenta, é engenheiro e já está empregado, a filha termina Economia. 
Recordo outros colegas, uns mortos, outros desaparecidos na diáspora montense, que nos levou, a quase todos, a abandonar a aldeia natal. Sugiro um almoço para nos encontrarmos. A ideia não o entusiasma. 
Porque na minha aldeia todos andam mal com todos. Não se falam. Ódios ancestrais, conflitos de há décadas, mexericos, intrigas, questões de vizinhança. Diferenças de classe herdadas de outro mundo, em que aldeia estava dividida em "ricos", os que tinham muitas terras e empregavam servos, e "pobres", com umas leiras de seu, mas sempre dependentes dos primeiros. 
Emigração, acesso aos estudos generalizado, 25 de Abril, mudaram a aldeia, mas não as mentalidades.
Nem mesmo no funeral, nem mesmo no cemitério, quando a terra que o coveiro lança sobre o caixão devia fazer recordar a efemeridade da vida e sentir o ridículo das questiúnculas que nos dividem, se decidem a esquecer rancores velhos, para voltarmos, por minutos que sejam, àquele tempo em que éramos apenas nome próprio e alcunha de família, o Zé Chaparrinha, o Fernando Galfarro, o Zé Balias, o Zé Codicas, o Armindo Escabelado, e tantos outros, e corríamos descalços por vinhas nos jogos de "coque", tomávamos banho em pelota no açude, roubávamos fruta nos pomares, disputávamos ninhos, jogávamos à pedrada...
Éramos então poucos, somos hoje menos. Muito menos. Como mais ninguém o faz, vou eu organizar o encontro, correndo o risco de almoçar ou jantar sozinho -- porque este não vai se for aquele, ou nesse dia não pode, ou não tem interesse nenhum na companhia dos outros.
Agradeço contactos e sugestões.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um amor inventado (excerto)

[A meados dos anos sessenta do século passado, dois jovens, entusiasmados com as proezas do grande ciclista Alves Barbosa, montam nas bicicletas e partem da aldeia para darem, eles mesmos, a volta a Portugal. Na descida da Serra da Estrela, em Manteigas, um deles descobre o amor inventado...]

"Em cima, o sobrado parara de ranger e o silêncio profundo envolve novamente a pensão; em baixo, o Jorge esforça-se por se manter acordado para dizer das boas ao João quando voltar. Mas o João não pode descer, novamente preso entre as pernas da criada, que como tenazes o retêm dentro de si, ensinando-lhe que amar requer tempo e vagar; ternamente, a Berta olha-o das profundezas dos seus olhos verdes, diz-lhe meiguices como ele nunca ouviu e certamente jamais ouviria se não saísse da aldeia natal e a encontrasse tão longe, na Pensão Estrela, nos contrafortes da serra do mesmo nome, e arrulha, arrulha, mergulhando pelos olhos dele dentro à procura da alma, talvez para confirmar se se ajusta tão bem à sua como a boca dele ao seu mamilo esquerdo; a barba do companheiro pica-a e inocentemente diz que quando se casarem será melhor ele barbear-se à noite; esquece que o rapaz está completamente saciado, tão depressa não precisará de mulher e, quanto a casamento, Deus o livre enquanto puder — e quando casar não será com uma sopeira, mesmo tendo-se deitado uma noite com ela, ele, que ela terá passado sabe-se lá quantas, vá-se lá saber com quem! As pernas que o retêm, impedindo de sair de dentro dela o que restava dele, empurram-no furiosamente, a mão direita explode na cara do João com o som seco de um tiro de pistola, e é fera assanhada que grita, baixinho, para não provocar escândalo, apontando a porta — que desapareça dali. A surpresa da agressão, a violência da bofetada, dessa primeira vez em que ela lhe bateu, a indignação da moça, levam-no a não querer ser expulso como cão que entra na igreja apenas porque a porta está aberta. É ele que tenta emendar a asneira, é ela que tapa a cara com as mãos e o repele de si com os cotovelos, nua como nasceu, e tão brava está que nem o ouve, fala, fala: bem a enganou, julgou-o diferente dos outros, mas é apenas mais um porco que depois de se espojar volta para o seu masseiro e o seu curral; se já tem o que queria, ou mais do que isso até, porque não desaparece, dali, da vida dela?
Desorientado, exausto e sonolento, o João não sabe o que quer, mas sabe que não pode deixar a moça naquele estado e não acha justo depois de tudo o que ela lhe deu portar-se de forma tão ingrata, como peixe astuto que comeu a isca e escarnece do anzol. A Berta chora inconsolavelmente, enrolada no divã, os joelhos encostados ao queixo, uma das mãos cobrindo os olhos, ou para o não ver, ou para esconder dele a sua nudez, sabido que é assim que as mulheres reagem por pudor, diferentemente dos homens, que, se surpreendidos nus, se obstinam em ocultar com as mãos o que lhes pende entre as pernas; cauteloso como aranha que se aproxima da fêmea, receoso daqueles cotovelos, perigosos e cegos, batem por instinto naquilo que lhes toca, aproxima-se e diz: — Gosto de ti!, a única frase bonita e sincera que lhe ocorre naquele momento de desorientação. Não foi grande coisa, mas a Berta já sabe que não é dado à retórica; virou para ele os olhos verdes e, por entre lágrimas de desilusão e de raiva, surpreendeu-se: — O quê? 
Timidamente, o João repetiu o que antes dissera. Então ela deitou-lhe ao pescoço os braços que antes o repeliam, encharcou-o nas lágrimas que não cessavam de correr, e sem deixar que os olhos dele fugissem dos seus, repetiu-lhe, através deles, que nunca mais, mas nunca mais, lhe dissesse aquelas coisas feias; não o queria contrariado um instante que fosse junto de si; solteiro ou casado, podia deixá-la quando quisesse se não gostasse mais dela; mas sem ordinarices, entendia?
Estranha o rapaz que as lágrimas femininas aticem aquela parte do corpo que já esmorecera, suplicando por repouso... Quem diria que têm esse efeito, ao tombarem sobre os homens?"
Um amor inventado, JCC