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terça-feira, 26 de maio de 2015

Incendiários



Como se não soubessem o que mais fazer na vida: é chegar o calor e eles a queimar. Talvez lhes dê mais gozo por saberem que é proibido; talvez se divirtam a fazer-se de sonsos quando advertidos pela polícia. A roupa no estendal tem frequentemente de voltar a ser lavada; não dá para refrescar as casas com a brisa do entardecer, porque eles adoptaram tácticas terroristas para ludibriar as autoridades: queimam um pouco de cada vez, após o pôr-do-sol, quando os helicópteros já não voam. E se bombeiros ou polícia surgirem, já ardeu a fogueira do dia, –  Sr. guarda, estava a assar sardinhas… Não sei se se armam em parvos, se tentam fazer passar por parvos os GNR – mas já lhes ouvi esta desculpa.
A este, que pelo fogo e a partir de finais de Maio limpa o terreno onde deixa crescer alto o mato durante o resto do ano, correu-lhe hoje mal a brincadeira, como a foto evidencia. Veio a polícia, vieram os bombeiros, que as chamas já lhe roçavam a casa. E veio a desculpa costumeira: estava a fazer um grelhado. Veremos se também desta vez pega, como as chamas pegaram no mato.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Memórias do seminário

-- Vamos pôr o pai ao Seminário, repetia a minha filha mais velha, a Ana, então na adolescência, encantada com o trocadilho. E foi no Seminário do Verbo Divino, em Fátima, que ela e a mãe me deixaram -- para uma semana de treino de karaté, ou algo afim, em regime de internato, sete horas por dia.
No seminário levávamos vida espartana, com hora de recolher, nele comíamos, passávamos como sombras brancas pelos corredores para não ofender com a vista dos quimonos as religiosas que chegavam em revoadas, às centenas, trazidas em camionetas de excursão, cada uma mais feia do que as outras: -- Freiras giras só nos filmes, resumia o meu companheiro de quarto, o Benjamim.
Pois à chegada, logo que deixámos a escassa bagagem nos quartos, saímos em grupo com o mestre, Kenji Tokitsu, então ainda não  completamente tomado pela arrogância e brutidade de modos que me levou a abandoná-lo anos depois. No Santuário, conversávamos baixo, procurando não incomodar os fiéis, que mesmo assim nos repreenderam malcriadamente: Chiu! Caluda! E nós retirámo-nos dali, sem mais aquela.
Pois na manhã seguinte tínhamos treino ao ar livre, logo às sete da manhã. O pinhal estava imundo, por todo o lado sacos de plástico, papel higiénico e cagadas, pensos higiénicos até.
Desabafa o japonês: -- Povo estranho. adora a Deus, mas suja a sua obra!
Fotos: o grupo da Escola Tradicional de Karatédo, quando éramos meninos e moços, nas escadarias do Seminário do Verbo Divino e no refeitório

A inspiração vem de Fátima

Passo em frente à televisão onde a minha sogra segue atentamente as cerimónias de Fátima. Ainda ouço ao padre pregador, dito sem se desmanchar a rir: "...a minha alma resolvida no meu Deus..." Deve ser isto a Fé: acreditar sem compreender, acreditar por não compreender, deixar-se levar pela melopeia encantatória, esquecer os porquês, jamais perguntar o que quer isso dizer, que entende por alma, em que acepção emprega o verbo resolver, qual a importância dos possessivos, se acaso estará a insinuar que há outros deuses para além do "meu", sem falar no mistério insolúvel da transformação feminina de uma religião que era masculina do Génesis ao Apocalipse...
Sustenta Alexandre Herculano em obra de cujo título me não recordo e não posso agora procurar porque escrevo no café, longe das cantorias religiosas e procissões, que esta ingenuidade nacional, recheada de santinhos, água-benta e devoções torna o nosso povo muito mais feliz, apesar da sua pobreza, do que os povos protestantes: enquanto o povo português se diverte em romarias e festas, apaga as agruras da vida nas orações que ocupam a cabeça sem a deixar deprimir, enfrenta as catástrofes com resignação católica, tenta mudar o destino pelo negócio das promessas, aos proletários protestantes a sua religião árida, despojada de santinhos, de ícones palpáveis, de ritos encantatórios só lhes deixa como escapatória as bebedeiras brutais após o trabalho, a violência contra os seus, contra as empresas que os sugam até ao tutano, contra a sociedade injusta e desigual que os condena a breves vidas em bairros sórdidos, a sofrer desde a tenra infância horários de trabalho hoje impensáveis, acima das dezasseis horas diárias, isto quando tinham horários de trabalho...
Não é difícil rebater Herculano, apontando situações similares entre nós. Em matérias como o sofrimento humano, o trabalho infantil, a miséria, a ignorância, a violência brutal contra os mais fracos, o alcoolismo, não temos lições a receber dos ingleses. Mas não duvido de que, no fundo, tenha alguma razão. À minha sogra, com 85 anos, ver as cerimónias de Fátima é das poucas coisas que ainda lhe interessam nesta vida; e basta ver a alegria dos peregrinos que por todo o país acorrem ao Santuário para pensar que este ópio do povo é, afinal, bem mais barato e muito mais inofensivo do que muitos outros. E inspirador. O excerto que se segue é do meu Um amor inventado, e passa-se nos anos sessenta do século passado. As rimas e assonâncias são propositadas.
"Chega o patrão, surpreende-se ao ver ali o ciclista do Verão, em pé, especado, expressão de gato que entornou o leite, cumprimenta-o, mas não se alonga em perguntas parvas, do género “O que é que o traz por cá?” — é óbvio que desta vez não faz cicloturismo; quem tem criada moça e atraente como é a sua não precisa de grande imaginação para adivinhar... 
— Canalizador, não é? recordou, estendendo-lhe a mão. É isso. E dos bons, o lava-loiça não voltou a entornar depois que você mo arranjou. Vamos até à sala de jantar, comprei uma televisão, está na hora do Telejornal. 
Cumprimenta clientes que jantam, conhecidos que seroam, toda a gente com os olhos pregados no televisor, TV, dizem os entendidos, ouvidos atentos às conversas, lábios comentando e descomentando, com futebol, fado e Fátima vamo-nos anestesiando e passando o tempo, no ecrã pagadores de promessas rasgam os joelhos entre rezas mastigadas mecanicamente — prometeram, obtiveram a graça, é a altura de a pagar para que no dia do Juízo Final nada conste em seu desfavor no razão divino.
— Venha cá, chama imperiosa a dona da pensão, e o rapaz tem um sobressalto, sabe que vai ser interpelado, admoestado, julgado, receia não passar no exame. É isso mesmo: tem de ouvir das boas, não que dona Noémia se tenha esquecido de que também foi na sua juventude criada de servir, também ela engravidou de moço fogoso, quem o imaginaria ao ver o seu discreto marido entretido a criticar o sacrifício dos peregrinos, contrapondo à fé dos ignorantes as novas ideias da igreja, agora mais avessa a sangue derramado, mais arredada de ritos pagãos."

domingo, 10 de maio de 2015

Chapa ganha, chapa gasta

Mentia  se dissesse que poupo avaramente o pouco que, por vezes, ganho penosamente com a escrita. Vai tudo para a esturra. Assim voltou a acontecer com este prémio de Manteigas, que, ainda não depositado, já está gasto. E com saldo final negativo: ida à serra para dois, almoço no restaurante Serra d'Alto, em Manteigas, dormida e jantar no Hotel Camelo, em Seia, hoje almoço no Museu do Pão, longos passeios pela serra, por algumas das aldeias históricas, regresso, portagens... 
Se ganhasse com  a escrita como o Eça, gastava como ele, em perdizes, champanhe, soirées, jantaradas e afins. Talvez por isso o Destino, sempre avisado, me poupe a esses excessos, embora me vá dando, de tempos a tempos, pequenas ilusões a fazer-me crer que, afinal, escrever tem pequenas compensações...



sábado, 9 de maio de 2015

Entrega do Prémio Literário Dr. João Isabel

Hoje, em Manteigas. Primeira foto, o amigo António Breda, vencedor do concurso em que o meu conto "Tu Quoque" foi distinguido com o segundo prémio (segunda foto).

quarta-feira, 6 de maio de 2015

2º Prémio no Concurso Literário Dr. João Isabel 2015

Amigos, alegrem-se comigo: o meu conto "Tu Quoque" foi distinguido com o 2º prémio no Concurso Literário Dr. João Isabel, de Manteigas. E acabo de saber via Facebook que o 1 prémio foi atribuído ao amigo António Breda, que aqui felicito. Espero que no próximo sábado nos conheçamos pessoalmente.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Do desconcerto do Mundo

Um juiz, irritado com funcionária do tribunal que se "esqueceu" de convocar as testemunhas para um julgamento, exaltou-se, chamou-lhe incompetente, "mais burra que os burros". A funcionária, oportunamente, desmaiou, depois apresentou queixa, finalmente fez-se justiça: o juiz foi castigado e afastado daquele tribunal.
Ainda há esperança para este país, ainda há quem desminta Camões e o seu desconcerto do Mundo:
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos....
(Imagem: João Alfaro)

Sei de um ninho

Entardece. No sossego que se instalou após a saída dos meus netos, sento-me
fora, a beber gota de uísque no meu cálice favorito, um de balão, há muito sem pé. De súbito, a proprietária deste ninho solta grito de alarme e levanta voo assustada. Retiro-me para dentro, imediatamente. Mélroa, procede como se estivesses em tua casa.

domingo, 3 de maio de 2015

Quando o 1 de Maio era vermelho (2/3)

"Fechava os olhos e apenas via moças lindas esvoaçando nos braços dos galãs (de onde tinham saído tantos? e tanta brilhantina?) ao ritmo de uma valsa ou de um tango, ora dengosas, olhando-os como actrizes de cinema, ora saltitando freneticamente ao ritmo do Rockn'Roll, Have you ever seen the rain? ... Onde estavam as feministas, as maria-rapaz ou até mesmo as sisudas, aquelas que nem respondiam a um cumprimento de colegas, se no baile apenas vira ninfas da noite?
Na segunda-feira encontrá-las-ia:
— Gostaste do baile? Que foi feito de ti, que não te voltei a ver? Procurei-te em vão... , mentiriam simpaticamente.
Sob a crua luz do dia, seriam novamente gatas-borralheiras: nos intervalos, troçariam dos professores, discutiriam com os colegas livros e discos, o feminismo emergente, a moda dos hot pants, por vezes até mesmo política, sempre à socapa, em tom conspiratório, todos sabemos que a Pide está em todo o lado, não lhe faltam informadores, de onde menos se espera é que eles saem.
Avizinhavam-se eleições, alunos do 7º ano distribuíam panfletos bem às escondidas nos cafés, talvez nem tanto por receio das consequências, mas porque em segredo tem muito mais classe. Entretanto, corriam boatos de prisões, a Pide mudara de nome, chamava-se agora DGS, mas não mudara de ramo de actividade.
Tal como hoje sucede com o futebol, os resultados eram discutidos e os prognósticos tendenciosos. Quem ganhará, o Marcelo Caetano, que só não faz mais porque o não deixam, ou os oposicionistas, há tanto tempo à espera da sua oportunidade? (E de tacho, diziam os camponeses, para quem só há dois tipos de políticos: a dos que estão cheios e a dos que se querem encher... )
O António alinhava abertamente na defesa das novas ideias, acreditando ingenuamente na Primavera Marcelista e na vontade regeneradora do velho regime. Houve um comício no Hotel Euro-Sol, o mais chique da cidade. Vasco da Gama Fernandes, líder carismático da CDE, a oposição da época, lamentava-se: ''Também nós gostaríamos de conservar os vastos territórios das províncias ultramarinas... '' Afinal, a mensagem dos velhos republicanos não era assim tão diferente da do governo, mas ainda não se sabia que os políticos só defendem aquilo que lhes pode trazer dividendos. Por agora, contava o ar fresco da juventude que os seguia, entusiástica, cantando de pé o Hino Nacional, ah, somos todos cidadãos da mesma pátria, do Minho a Timor, só faz falta trocar os salazaristas bafientos por esta gente honesta!
Argumentava e contra-argumentava, era ouvido, agora não contavam fatos, vestidos de gala, laçarotes, brilhantina, dotes de bailarino. Sem que se tivesse apercebido, o seu futuro próximo estava traçado, mas não o levaria a compreender as mulheres — apenas a Caxias, onde deu entrada no 1º de Maio de 1973."
Do lacrau e da sua picada

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Quando o 1 de Maio era vermelho

"Era um tempo louco. A revolução pegou-o logo à chegada a Lisboa, fazendo-o esquecer depressa as ideias moderadas que tão radicais lhe tinham parecido em Leiria. Agora tudo o que não fosse José Estaline, o glorioso filho da revolução soviética, ou Mao, o grande timoneiro e ilustre continuador da obra de Estaline, que, no entanto, o não tinha compreendido nem à especificidade da revolução chinesa, era revisionismo e ideias pequeno-burguesas. Foi o tempo em que leu o Anti-Dühring, a Crítica da Economia Política, Os Princípios Elementares de Filosofia, até tentou O Capital, mas depressa desistiu, desculpando-se com a impreparação política e técnica. Viu a Luz no Materialismo Dialético, não aceitando que alguém, de boa-fé, pudesse rejeitar tanta clareza. Mas a verdade, a verdade suprema, estava no Luta Popular, que passava a alguns dos colegas, e meses mais tarde distribuía à noite nos bairros populares, Madragoa, Chelas, mesmo Alvalade, quando o seu controleiro decidiu que havia populares nesse bairro, até então considerado pequeno-burguês.
De dia, agarrado à maquineta, o copiador artesanal que fabricara seguindo um modelo que remontava, pelo menos, ao tempo dos bolcheviques — uma moldura de madeira com rede fina de cortinado pregada para prender o estêncil com pioneses, um rolo de pintura e tinta para duplicador, sempre comprada a medo — reproduzia panfletos; à noite, com um dos camaradas da sua célula, distribuía-os pelas caixas de correio dos prédios, deixava-os em pequenos montes, por aqui e por ali, debaixo de carros, com uma pedrinha em cima para que o vento os não levantasse enquanto estivessem por perto; por onde passavam, deixavam 'selos', etiquetas autocolantes com slogans, nos postes das paragens dos autocarros e, mais pela calada da noite, pintavam paredes. Por vezes, ouvindo-os entrar sorrateiramente no hall dos prédios, os roncos paravam e ouvia-se uma voz desconfiada e ameaçadora: — Quem está aí? Sossegavam o 'popular': — Guarda-Nocturno! Uma vez ou outra foram encurralados pela polícia. Então, embora quase morrendo de medo, dirigiam-se-lhes afoitos e pediam uma informação qualquer que fizesse sentido: onde parava o 9, qual o caminho para... Os guardas, habituados a ver fugir os meliantes e vendo o aspecto normal dos rapazes, ajudavam-nos, solícitos, aproveitando para perguntar se tinham visto algo de suspeito. — Sim, sr. guarda, uns cabeludos ali mais atrás, que fugiram quando nos avistaram...
Lisboa amanhecia colorida pelos sinais da Revolução, nas paragens dos autocarros e dos eléctricos, nas escolas e faculdades, nas paredes das fábricas, até nas sanitárias públicas. Nos autocarros da madrugada, quando regressavam do 'trabalho', ouviam os desabafos de polícias desesperados, após outra noite de vigilância e de perseguições fracassadas: — Esses filhas da puta dos pinta-paredes dão-me mais trabalho que os meus filhos. Trocavam olhares cúmplices: sem que o suspeitasse, talvez o seu filho fosse também um dos tais."
Do lacrau e da sua picada