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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A luta continua


Lembram-se da minha guerra com o MEO, motivada por um serviço de banda larga que não subscrevi? Sim, esse, de que me não facultam o contrato verbal ou telefónico -- pois se ele não existe! -- e a "prova" da entrega do equipamento é um documento com assinatura falsa, de alguém que desconheço?
Já apresentei queixa na PSP, acabo de apresentar outra na ANACOM, amanhã será na DECO... 
Vou até ao Papa, se for preciso. Por enquanto, só estou a exigir o cancelamento do contrato a que sou alheio, a devolução das verbas indevidamente retiradas da minha conta aproveitando débito directo para o M4O, entretanto cancelado, e um pedido formal, por escrito, de desculpas.
Por enquanto.
Mas a fúria que me dá esta vigarice, juntamente com o tempo perdido a tentar resolvê-la, agravada pelas respostas arrogantes e burocráticas do MEO podem, a qualquer momento, fazer-me querer ser ressarcido de incómodo, deslocações à loja MEO, tardes aí perdidas, serões como este estragados a reclamar daquilo que aparenta ser um caso de fraude, roubo de identidade, falsificação de assinatura, utilização abusiva da autorização de débito directo.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Bricolage

O que me falta em habilidade sobra-me em vontade. Assim, meti mãos à obra, desmanchei resguardo velho de polibã por se ter quebrado um dos vidros, e montei este, comprado no Aki. Não ficou nada mal. Levou três serões, que os dias são reservados para outras actividades.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Agradecimento

É duro, confesso, continuar a escrever romances na quase certeza de que nenhum editor se interessará pela respectiva publicação. Mas não é surpreendente, tendo em conta que os editores de ficção nacional se contam pelos dedos de uma mão (e sobrarão dedos) e enfrentam eles mesmos dura luta pela sobrevivência, a qual os aconselha a não arriscar em autores sem peso mediático -- e, menos ainda, no dizer do meu amigo António L. Pacheco, em plantadores de couves, de bigodinho. O que, aliás, já me tinha sido dito por um editor contactado depois do sucesso do Eu, Carolina, obra autobiográfica que se vendeu como sabonetes: "O que é que V/ quer, se não dorme com o Pinto da Costa, nem trabalhou numa casa de alterne?")
Note-se que me não me têm faltado propostas de publicação de editoras -- pagando. O que continuo a recusar, indiferente aos eufemismos que envolvem as propostas. A pagar, prefiro fazer edições de autor, que me ficam muito mais baratas, não cedo direitos, os livros são meus, faço com eles o que bem entender. E pouco me afectam os comentários escarninhos dos críticos da edição de autor, que partem da ideia implícita -- e errónea -- de que, se as obras auto-publicadas tivessem mérito, não faltariam editores interessados, esquecendo, por exemplo, Camões, Fernando Pessoa, cada um com apenas um livro publicado em vida, esquecendo aqueles que só foram publicados postumamente, ou os que recorreram sistematicamente à edição de autor, como, por exemplo, Miguel Torga...
Envergonhar-me-ia a auto-publicação se me dissessem que o aspecto gráfico dos livros é mau, que encontraram erros de ortografia ou de sintaxe, incoerências nas histórias, que as narrativas não prestavam, etc.
Porém, os numerosos leitores que ao longo dos anos me têm feito chegar o seu feedback, não raro por escrito, têm sido pródigos em encómios. Haverá, presumo, outros tantos que nada disseram, ou porque não gostaram, ou porque não leram; mas não é meu desiderato agradar a todos. E muito me apraz sentir o respeito dos pares, na certeza de que, oficiais do mesmo ofício, conhecem bem os truques, sabem onde procurar os pontos fracos como costumam fazer nas suas obras antes de as darem à luz pública, faltar-lhes-á como a mim a paciência para amadorismos.
Por isso me encho de orgulho -- tão legítimo como o do operário que terminou a contento tarefa penosa e exigente -- ao ler a recensão que Cristina Torrão, escritora radicada na Alemanha, teve a amabilidade de escrever no seu blogue e no Facebook sobre o meu romance Um amor inventado, e que pode ser encontrada AQUI.
Muito obrigado, Cristina, muito obrigado João Madeira, muito obrigado António Pacheco! Muito obrigado a todos aqueles que ao longo dos anos me têm feito chegar as suas opiniões, persuadindo-me de que vale a pena continuar a escrever! 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O 35

Era casinha modesta da CP, em bairro ferroviário, divisões minúsculas, quintalzinho dividido por curto passeio de cimento até à capoeira e barracas, pequeno alpendre encostado à casa, sob o qual, aos domingos, almoçávamos em mesa tosca de madeira, resguardados do Sol no Verão, aconchegados por ele no Inverno, quando penetrava baixo, pouco acima dos muros caiados.
Era exigência da minha sogra ter a família reunida para o almoço dominical, a que não seria alheia a consciência das necessidades que todos nós passávamos -- raro era o mês em que não precisávamos de lhe pedir pequeno empréstimo, coisa de uns centos de escudos, pago logo que recebíamos o ordenado.
O meu sogro, rijo assentador, alto, seco, de força invulgar, rabugento por natureza, conformava-se com a vontade da mulher, sacrificava-se pelas filhas -- mas os genros? Franzinos, fracotes, sem apetência para a enxada de bicos, nem jeito algum para granjeios de hortelão -- um desgosto que o deve ter perseguido até ao final da vida, aos 85 anos. Ah, como deve ter lamentado que nenhuma das filhas lhe tivesse dado genro à maneira, um desses homenzarrões de força, capazes de assentar travessas na via sob estiagens e invernias, disposto a acamaradar com ele ao despegar do emprego para uns copos na taberna do Pescador, famoso pelo peixe frito, antes de ir amanhar até à noite a horta emprestada!
Nós três, com o apetite dos vinte e poucos anos, fazíamos orelhas moucas a remoques, deliciados com a comida da nossa sogra, cozinheira exímia: caldo verde ou sopa de feijão, frango assado, ou coelho frito ou guisado com ervilhas, feijoada, empadão... Quase tudo da casa, quase tudo cozinhado no fogão a lenha alimentado com madeira de velhas travessas do caminho de ferro, rachadas pelo meu sogro com a bita do serviço.
E tanto como a boa comida, apreciava eu o convívio alegre, por vezes povoado por pequenas quezílias, que nunca deram azo a animosidades sérias e duradouras como as da minha aldeia, onde frequentemente as famílias, pais e filhos até, se não falavam, zangados em disputa por palmo de terra nas partilhas, ou por águas, ou por direitos de serventia, quase sempre por mesquinhez, invejas, má língua.

A família cresceu e multiplicou-se. A velhice roubou à minha sogra as forças necessárias para preparar os almoços de domingo, que começavam na véspera, a matar e amanhar os galos ou os coelhos, a acender alta madrugada o fogão de ferro -- e é possível que a algazarra de tanta gente junta a incomodasse já, ou os protestos do meu sogro, excelente homem, mas sempre rude e áspero, a tivessem finalmente descorçoado.
Há muito tinham deixado o 35, desde então ao abandono. Dele ficaram-nos as memórias, dele fica-nos a tristeza ao vê-lo desabitado, ao abandono, degradado – nem CP o voltou a alugar, nem ferroviário algum aceitaria nos dias de hoje viver em casinha tão modesta, tão pequena, tão sem comodidades. E ficam as saudades desse espaço e desse tempo em que, fazendo minhas as palavras da minha sobrinha, autora da foto, “eu fui tão feliz.”,

FOTOS: (1) entrada, foto da Catarina; (3) pombo observa atento a minha mulher a arranjar alface; (2) neste almoço, lombo assado, seguramente bem melhor do que aquele que servem a Jerónimo de Sousa nas campanhas eleitorais.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os grelos e eu

-- Come-me esses grelos, ladrão! 
-- Não gosto!
-- Até tos meto pelos olhos dentro!
Fui criado com mimos, de comida, de linguagem. À ceia, a que hoje chamamos jantar, os malditos grelos, em abundância, pouca batata, prontamente comida, meio ovo cozido,
-- A metade dele é maior 'ca' minha!
-- Cortei o ovo a meio, não tenho régua na faca!
-- Pois, mas a mim dá-me sempre a metade mais pequena!
-- Cala-te, lambona! São iguais, mas se fosse maior, que mal tinha? Ele é homem!
-- E o que é que isso tem? 
Não dava já para comparar metades, que a minha tinha desaparecido com as poucas batatas, no prato ainda cheio restavam, verdoengos, agoniativos, amargos como fel, os grelos com os seus talos, paus chamava-lhes eu, que se enrolavam na boca e não atravessavam a garganta. Dia bom, as galinhas tinham posto dois ovos, coisa rara no Inverno, um para o meu pai, quando vier cear, o outro para nós. Para a minha mãe, que parte e reparte, mas como mãe fica com a pior parte, os grelos mal azeitados, azedos como ela, exasperada com as nossas brigas, sobretudo com a minha recusa em engolir o pitéu, que mais nada tinha para me dar.
Por isso volta a gritar, que coma os grelos ou mos enfia pelos olhos adentro, pelas goelas abaixo, quem manda, diz, é ela, aí vão eles à força, empurrados com bofetadas, arrepelões, safanões, passam o estreito, Ah, mas nasci torcido, hei-de terá última palavra, e vomito-os triunfalmente,
-- Malandro, não comes, vás prá cama com fome! E vou, orgulhoso, triunfante.
Traumas de infância. Este tão grave que hoje não troco simples grelos cozidos por qualquer comida gourmet da moda. E sempre, enquanto me delicio com os grelos azedos, recordo  com remorsos o que fiz sofrer a minha pobre mãe, recusando comê-los naqueles tempos de penúria. 
Cá se fazem, cá se pagam.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Bricolage

Não tenho grande jeito para trabalhos manuais, mas, desde que me aposentei, não têm conto as obras de reparação que tenho feito em casa e no quintal. Para ocupar o tempo e exercitar o corpo, por economia, e porque me falta a paciência para andar atrás dos técnicos.
Por exemplo, a fachada do muro do quintal estava precisada de pintura, como as fotos (1) e (2) evidenciam. Veremos se a pintura com tinta de areia, precedida de lavagem e fixador, dura mais do que a anterior, feita por profissional. Ficou como mostra a foto (3).




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Antes que chova

Parece que o Sol nos vai deixar por uns tempos, pelo que hoje adiantei as sementeiras: meio quilo de favas, um de ervilhas, alhos e batatas, estas cobertas com feltro agrícola (manta térmica), a ver se escapam das geadas que hão-de vir.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Aprender até morrer

Estou a fazer o curso de Aplicador de Produtos Fito-Farmacêuticos. E a gostar muito. 
Inscrevi-me, como todos os outros colegas, porque sem certificado e cartão não se pode comprar e aplicar pesticidas já a partir do final do mês.
Faço pouco  uso de pesticidas, porque sou preguiçoso, porque detesto aplicá-los, porque são caros, porque sei que são nocivos para o ambiente e para os consumidores, no caso, eu, a família e os amigos.
Mas, e por muito que me apregoem a possibilidade de os dispensar, ninguém me convence de que é possível prevenir o míldio em batatal, ou na vinha o oídio, ou black rot com mezinhas. Ou de que a calda bordalesa tradicional e o enxofre, permitidos em agricultura biológica, não são também químicos, igualmente nocivos para a nossa saúde e para o ambiente.
Os colegas de curso são minifundiários como eu, da minha idade, e fazem um pouco de agricultura variada para subsistência, entretenimento, pequeno comércio. A formadora é excelente, confiante, segura, clara nas asserções, com discurso límpido, em constante interacção connosco. Não dá para adormecer, apesar de as sessões decorrerem à noite. E já aprendi muito, tendo sobretudo tomado consciência de que, também eu, sempre prudente, fui paulatinamente facilitando no manejo e aplicação desses produtos perigosos, com erros de cálculo, não raro por excesso...

Temos homem?


Hollande, que eu menosprezava, subiu ontem e muito na minha consideração, ao revelar-se nesta crise um 'condutor de homens' à altura dos chefes dos poemas homéricos. Falou e agiu, com firmeza, bateu duro onde pode doer, bombardeando os terroristas na Síria, e propondo revisão da Constituição para impedir o regresso de jiadistas com dupla nacionalidade e retirar a nacionalidade francesa aos acusados de terrorismo.
Não se deixou paralisar pela conversa melada dos bonzinhos que, cobertos com a tricolor, apenas querem debates intelectuais a apurar causas e responsabilidades, mas nada de acções precipitadas, esquecendo que há tempo para reflectir e tempo para agir. 
Temos homem. Afinal, a França ainda os gera, e as crises revelam-nos. Veremos se estará à altura de Charles Martel, Jeanne d''Arc, Napoleão, de Gaulle.

Desamiganço


Ser desamigado por alguém que apenas conhecemos do Facebook não corresponde ao clássico corte de relações, em que a pessoa continua presente no nosso universo, apenas sem interagir connosco. Não, o desamigamento faz sumir do nosso universo entidade virtual, com maior ou menor correspondência real, como personagem de jogo de computador que desaparece ao fechar o programa.
Não há volta a dar, sobretudo se nada nos pesa na consciência. Já não é só a mesma água que não passa duas vezes sob a mesma ponte; é a impossibilidade de entidades virtuais, mais vagas que os fantasmas de antanho, que num momento decidiram desligar-se, voltarem a relacionar-se connosco.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Epigrama do meu trovador

Álvaro Domingues escreveu sobretudo versos satíricos, de qualidade duvidosa, tão impróprios hoje, nestes tempos politicamente correctos, como no seu (morre em Ceuta, em 1425):
"Raramente via a meu primo, que fazia alguma vida social, convidado amiúde para ceias em casa de burgueses ricos e grandes senhores, a quem deleitava com histórias das suas andanças por essa Europa nos seus anos de expatriado, ao serviço de duques e príncipes — eram sobretudo as senhoras da casa, seduzidas pelo exotismo de reinos longínquos, sempre ansiosas por conhecer as grandes capitais europeias, por saber quais as modas, as intrigas, as paixões dos grandes senhores e senhoras. E meu primo, com os seus dons de contador de histórias, e o seu jeito nunca perdido para rimas e outras coisas de folgar e gentilezas, recriava suas narrativas, embelezava-as, pois, mais do que a verdade das histórias, importa o saber contá-las. (...)
E falava então do desprezo que sentia por estas matronas que o tentavam seduzir descaradamente, sem pensarem antes que o esborrachariam sob o seu peso. Improvisara-lhes até epigrama:
Vós, que grande dama vos julgais
Tanto mal me quereis, pois trabalhais
Para me esmagar em vossas camas
Sob vossas banhas, pança e mamas
Deleitai-vos antes com minhas histórias
Apreciai minhas memórias
Que se pouco valor dou à vida
Não a quero em tal sofrimento perdida
Guardo-me para melhor Sorte
Mais honrosa morte
Que debaixo de vós,
dama de grande porte."

Um trovador serôdio

Álvaro Domingues, personagem de ficção de romance meu inédito -- desculpem as redundâncias, mas a experiência mostrou-me que não são escusadas, já que os primeiros leitores se deixaram enganar por ilusão do real demasiado bem construída -- deixou-nos, para além das cantigas trovadorescas que ele muito admirava, mas já estavam fora de moda, versos noutros registos. Por exemplo, estes:
"O esquecimento é a morte
De nós e de nossos amados
Uns e outros levados
Pelo Tempo, pela crua Sorte"

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Novembro de 1975

Tinha sido destacado com alguns camaradas, quase todos milicianos, para dar uma recruta em Santa Margarida, campo militar em lugar ermo, com longa avenida entre numerosos quartéis, cada qual com a sua autonomia. Logo numa das primeiras noites, estava eu de sargento de dia, e chamam-me à caserna dos recrutas. Um dos “prontos”, soldados veteranos, de alcunha o Portimão, bêbedo, G3 na mão, ameaçava os moços, a extorquir-lhes dinheiro, bebidas, enchidos, chocolates. Cheguei-me às boas, a tentar levá-lo dali para fora. Recusou sair: queria beber, e, dizia, os recrutas tinham bagaço escondido nos armários.

-- Venha então daí, e peguei-lhe amigavelmente no braço, vamos ao bar, que lhe pago um copo.

Intempestivamente, libertou-se com um safanão, apontou-me a G3 à cara, a dois passos de distância, meteu bala na câmara, grunhiu: -- Sei usar esta merda!

Nem me apercebi do perigo que corria. Inútil a Walter de serviço, no coldre fechado e sem balas. Pistola e braçadeira eram meros adereços da função.

Sem pensar, avancei para ele, desviei o cano da arma, -- Oiça lá, meu sacana. É assim que me agradece por o safar das porradas quando está desenfiado do serviço, como aconteceu ainda no mês passado, você a dormir na cama e o posto de sentinela vazio?

-- Isso não é agora para aqui chamado, contrapôs, aparentemente desorientado.

-- Aí não é? Eu faço-lhe bem e você aponta-me essa merda? É assim que me agradece?

Por entre palavrões e ameaças afastou-se e refugiou-se no quarto.

Queixa apresentada na manhã seguinte, o comandante do destacamento, um major que havia chefiado a descolonização de São Tomé e Príncipe, chamou-o ao seu gabinete na minha presença. E o Portimão, que tinha cursado com distinção a escola de malandragem, desfez-se em falinhas mansas, em tom humilde, desculpou-se, tinha sido do vinho, não tornou a beber...

O major, que acreditava na bondade humana, no arrependimento e na capacidade de regeneração do ser humano, despachou-o com simples raspanete.

E o Portimão continuou connosco.

Nessa semana, os recrutas, em plenário dinamizado pelos SUV (Soldados Unidos Vencerão!), aprovaram várias medidas revolucionárias: não rastejar na pista de técnica de combate porque o chão estava lamacento, e não fazer serviços.

O bom do major, levando-me a passear abraçado pela parada sob olhares escarninhos dos recrutas, explicava-me: havia que respeitar a decisão democrática do plenário, mas era preciso garantir a segurança do quartel. Afinal, tínhamos connosco mais de duzentas armas. Sem os recrutas, teria de ser assegurada pelo oficial de dia, por mim, a quem calhava naquele fim-de-semana o serviço de sargento de dia, pelo Portimão como armeiro. O suficiente. Afinal a unidade estava dentro do campo militar, com segurança à porta de armas. Prosseguia:

-- Olhe, o Portimão pediu-me uma pistola...

Atónito, interrompi o passeio, olhei-o nos olhos: -- Meu major, ele é o armeiro, tem o quarto atravancado com G3! Até em cima dos beliches!

E o comandante, pacientemente: -- Eu sei. Mas diz ele que se lhe aparecer alguém de noite precisa de uma arma pequena. Por isso, dê-lhe a sua.

O major insistiu. E eu entreguei a pistola ao Portimão, já com balas no carregador, conseguidas com grande dificuldade depois do susto que ele me tinha pregado.

Partem todos de fim-de-semana. Na unidade deserta, desabafo com o aspirante que ficou de oficial de dia: -- Já viste a minha figura de palhaço, sargento de dia desarmado? E tive de dar a minha arma ao Portimão, que já tem duzentas...

Tranquilizou-me. Com o quartel deserto, não haveria novidades. -- Olha, a minha mulher e o meu cunhado vêm ter comigo e dormem cá, não faltam quartos livres. Vai-te embora para casa.

Sair do quartel, dormir em casa, com a minha mulher? Irrecusável. Portanto, desenfiei-me. Mas, para evitar que dessem por isso, no domingo regressei antes do restante pessoal. E o pobre aspirante contou-me a toirada da noite de sábado: o Portimão, outra vez bêbedo, e não tendo com quem brigar na nossa unidade, foi armar desacatos para o bar dos sargentos de um quartel vizinho, Engenharia. Chamado o nosso oficial de dia a repor a ordem, ameaçou matá-lo com a minha pistola... A custo conseguiu levá-lo de volta, teve várias vezes a arma apontada à cara, bala na câmara, sem se atrever a deixá-lo sozinho antes que a bebedeira passasse, temeroso pela mulher e cunhado, escondidos na ala dos oficiais...

Desta feita, o Portimão foi recambiado para a nossa unidade de origem, em Torres Novas. Dias depois, voltou a embebedar-se e infernizou o quartel, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. Os camaradas, resguardados nas esquinas, gritavam-lhe apelos à calma. Em vão.. Havia de matar o comandante, o segundo comandante, o sargento da companhia...

Por volta da meia-noite saiu do quartel. Desarmou pobre polícia, que em pânico se atirou às águas imundas e gélidas do Almonda e a nado fugiu para a outra margem. Depois, não encontrando a quem perseguir na vila deserta, reentrou na unidade sem que o frio da noite lhe tivesse arrefecido a fúria assassina.

Da capital chegaram ordens para o abater. Ninguém o queria fazer. Mas municiados com balas reais, os soldados respondiam ao fogo do camarada, evitando atirar à figura. Até que, pela madrugada, o Portimão, ao atravessar a parada para nova surtida na vila, caiu atingido por estilhaços de rajada, vários ferimentos ligeiros, um testículo a menos, Presídio Militar como destino.

FOTO: em Santa Margarida, com alguns dos camaradas destacados para dar a recruta. Estou à direita, ajoelhado, de óculos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Da tolice humana

Diz o um amigo: pior que tomarem-nos por tolos é demonstrarem-nos que somos tolos. Discordo, apesar de, à primeira vista, a sua proposição parecer inegável. É que por "demonstrar" entendo "tornar evidente através de provas concretas" e não através de recursos retóricos mais ou menos falaciosos. Um tolo -- " aquele que não tem inteligência ou juízo" -- não aprecia, porque não entende, demonstrações, que, quando muito, confunde com argumentações de retórica, como na historieta seguinte, contada à minha maneira.
Um iluminista francês, creio que Voltaire, fazia sucesso nos salões da alta aristocracia russa com os seus argumentos e provas de que Deus não existe. Ora numa dessas festas, quando deslumbrava damas com a sua oratória, falam-lhe de um matemático que tinha descoberto uma fórmula que provava a existência de Deus.
Ainda Voltaire, que pouco sabia de matemática, abria a boca de espanto, e entra homem vestido de camponês, aspecto de monge louco de filme de Eisenstein, que lhe dispara à queima-roupa intrincada fórmula matemática, culminando com imperioso -- Répondez!
Como, se não tinha entendido patavina? O filósofo saiu ridicularizado do salão, fugiu para França apressadamente, tão envergonhado que ponderou o suicídio.
Tolice e vaidade andam frequentemente de braço dado...

sábado, 17 de outubro de 2015

Uma velha foto

Encontrei esta foto, cuja existência desconhecia. Na Escola Técnica de Alcobaça, aí por 1966 ou, mais provavelmente, 1967. Nela, eu e os meus colegas de Ciclo Preparatório e 1º ano de Formação de Serralheiros. Da esquerda para a direita, eu, o João Salgueiro, com quem andei à porrada numa briga épica que me deixou os olhos negros, e hoje é, creio eu, o presidente da Câmara de Porto de Mós, o Isaac, não me recordo do nome do de camisola branca, o Aurélio, que comovia as professoras com poemas inspirados " nevava e eu rotinho, todo nu...", e o Couto, o melhor aluno da turma. Nunca mais os vi, excepto o João Salgueiro na tropa e depois nos cartazes das campanhas eleitorais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ménage à trois

Num livro da minha escola primária havia a história de um barqueiro que tinha de transportar para a outra margem do rio um lobo, um carneiro e uma couve.
Se os levasse juntos, haveria desordem a bordo; e não podia deixar em terra o lobo e o carneiro, nem o carneiro e a couve.
Se a memória me não atraiçoa, transportou primeiro o lobo e a couve, voltou atrás tranquilo, que lobo não come couve, pegou o carneiro e pôde deixar no destino todos os passageiros incólumes.
Como fará António Costa, admitindo que se mete à água e não quer meter água?

domingo, 4 de outubro de 2015

Fornada de pão

A levedar no alguidar


Já tendido

Pronto a comer

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Acta desatada

Ontem, pela hora de almoço, encontraram-se na casa da Cristina e do BartolomeuD'Asp José, aliás Frederico, sita num monte de Arruda dos Vinhos, o João J. A. Madeira e este escriba, a quem coube, por força do muito que comeu, bebeu e falou, o registo das ocorrências.
Iniciado o evento com as entradas e vinho licoroso, logo a conversa se espraiou como o olhar pelos montes ermos das redondezas, aqui e ali salpicados de vinhedos e pequenos bosques. Muito se falou, dos amigos que faltaram, o António Luiz Pacheco a mourejar em Angola, o António Breda certamente já com aulas, até de políticos, mas não de política, nas histórias do Bartolomeu, que trabalhou 24 anos na Presidência da República, onde conheceu três presidentes.
Ao almoço, paelha, vinho branco, conversa sempre entusiasmada, depois, estirados em cadeiras de lona, conhaque, o João com o seu cachimbo, a conversa prosseguiu animada, até que, já acompanhados pelo Francisco, o neto já acordado da sua sesta, breve passeio pela propriedade, visita ao sótão onde o Bartolomeu tem oficina de bricolage e biblioteca, e o neto brinca com velhas pistas eléctricas de comboios.
Eram quase oito horas, anoitecia, e ainda conversávamos entusiasmados no parque de estacionamento de hipermercado onde tinha deixado o carro. De livros, nossos e dos amigos ausentes, o Perguntem a Sarah Gross, que me está a surpreender muito agradavelmente, da Cristina Torrão, do Pedro Sande, do conto premiado da Carla Pais...
E não havendo tempo para mais, deu-se por encerrado o encontro, do qual lavrei esta espécie de acta, a qual, nem lida nem aprovada, é aqui publicada.

sábado, 26 de setembro de 2015

Não há sábado sem Sol

Em verdade, em verdade vos digo: campanha eleitoral sem paixão partidária é chatice tão grande como futebol sem paixão clubística. Para quem não torce por este ou por aquele, é descabido tanto alarido para meter uma cruz num quadradinho ou enfiar uma pequena bola numa baliza enorme.
Mas o que custa mais é ouvi-los até que a voz lhes falte a dizer ... a dizer o quê?
FOTO 1: em guerra contra o mato. Antes, tinha já gradado o Vale da Junqueira e as Sesmarias, que estavam no triste estado que a FOTO 2 mostra.
FOTO 1
FOTO 2

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Outra história que acaba bem

Como se lembrarão alguns, há duas semanas comprei e paguei 2000 quilos de lenha, mas, após pesagem em balança de casa de banho, verifiquei que faltavam 1070 quilos.
A lenha da foto foi entregue hoje, a comprovar que vale a pena reclamar com firmeza e fundamentação.
Problema resolvido, outra história que acaba bem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cor serpentis

Penso, talvez erradamente, que situações como a que aqui relatei nos últimos dias envolvendo um contrato que desconheço ter assinado com uma operadora de comunicações móveis se devem à precariedade do trabalho e aos baixos salários. Contratam o mais barato, que não é o melhor, nem em profissionalismo, nem em ética. Com a pressão para atingir quotas impossíveis, podem alguns cair na tentação de "fazer" clientes custe o que custar, mesmo que os "clientes" tenham dito redondamente que não... E não é difícil forjar angariações e aceitações de contrato. Nos EUA, os bancos contratavam gente só para falsificar assinaturas em contratos de hipoteca de casas: tinham feito o empréstimo, mas com a pressa não possuíam documentos que fizessem prova em acções de despejo. Ora com a globalização tudo de mau do capitalismo acaba por chegar até nós.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O poder do Facebook

Ontem, estive 49 minutos às turras com os serviços do MEO, conforme aqui contei, e com resultados quase nulos. Hoje, telefonam-me a informar que a tal Internet Móvel, a que não aderi, foi cancelada, a factura anulada e os pagamentos indevidamente cobrados por débito directo ser-me-ão creditados. Só ainda não vi as "provas" da minha adesão ao tal serviço pois, ao que me disseram, para tal tenho de ir a uma loja MEO fazer o pedido para ouvir a gravação. E vou fazê-lo.
Posso estar redondamente enganado, mas não tivesse eu protestado publicamente, aqui e no Facebook, e talvez não fossem tão lestos a atender a reclamação e a corrigir a anomalia.

Valha-me São Kafka!

Lembram-se da velha anedota machista e parva: quando chegares a casa, dá porrada na tua mulher.
-- Porquê?
-- Ela sabe.
Lembram-se? Pois é como essa pobre mulher que me sinto após ter perdido 49 minutos ao telefone, chamada paga, a querer saber porque é que o MEO me enviou factura de Internet Banda Larga Móvel, se eu não aderi ao serviço, não tenho sequer cartão, e não me conseguem apresentar, até ao momento, nenhuma prova de que, por escrito ou verbalmente, subscrevi esse serviço -- invariavelmente, de há anos para cá, a minha resposta é que não faço negócios por telefone e tanto teimo que perdem a cabeça, juram honestidade, e eu, velho casmurro, sempre Não, não! Mandem-me um contrato escrito para eu ler primeiro, depois logo decido.

49 minutos em que educadamente me exaltei ao saber que me têm andado a cobrar esse valor no débito directo que autorizei para o M4O (tv, telefone, 2 tm, mas nada de banda larga móvel), que não me enviaram facturas em papel por ter aderido à factura electrónica e não enviaram as facturas electrónicas por minha culpa, não percebi porquê.
49 minutos! A menina ficou de, no prazo de dois dias, me apresentarem provas de que assinei o contrato, ou o aceitei por telefone.Espero ansiosamente por elas.
Até lá, valha-me São Kafka!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Alma do Diabo, Carla Pais

Chegou ontem e li-o de um só fôlego. O diabo do conto tem alma e prendeu-me logo às primeiras linhas! Muito bem escrito, tem por base uma boa história de emigração e turistas, a sugerir-me vagamente a intriga do romance A Amante Holandesa, de Rentes de Carvalho, mas com uma linguagem, um discurso, e desenvolvimento completamente diferentes, que a Carla Pais tem voz própria, que se escuta com prazer e muito promete.      
Personagens interessantes e bem construídas, presença opressiva do sobrenatural em numerosas alusões do narrador, evitando com bom gosto os malabarismos do "realismo mágico", tensão e mistério, que a autora, revelando maestria na arte de contar, não dissipa, não desvenda, não explica, envolvendo assim o leitor na construção de possíveis significados.
Não surpreende, portanto, que A Alma do Diabo tenha vencido o concurso de contos promovido pelo município de São Vicente, local onde, aliás, decorre a maior parte da acção.
Parabéns, Carla, e força nessa escrita. Muito obrigado pela oferta, pelo prazer da leitura, e por te teres lembrado de mim!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Setembro

"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios."
Assim começa Do Lacrau e da Sua Picada, escrito quinze anos atrás. Para minha grande mágoa, tinha então razão, Setembro jamais será Abril, por muito que em dias como o de hoje se assemelhem.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um Verão trágico

Longa reportagem da SIC sobre a morte de um golfinho, de mais de cinquenta anos, comove-me quase até às lágrimas -- que só não rompem porque não cortei cebola para o almoço, em que comi salsichas de infeliz porco, com pobres batatas fritas, cortadas aos palitos... Assim decorre este Verão trágico, com um leão de mais de doze anos assassinado vilmente, a esvair-se em sofrimento idêntico ao das suas presas... Há dias, tinha um borracho morto na capoeira. Hoje, pombo doente.
Tudo culpa do governo e da degradação do Serviço Nacional de Saúde. 
Paz eterna para a alma de todos estes pobres animais, feridos cruelmente ou doentes, e das batatas e feijão verde que cortei impiedosamente...

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

À conquista de Ceuta

Foi há seiscentos anos. No meu romance inédito Gheke Pepe decorreu assim:
"Porém, nada do que se escreve é o que aconteceu: faltam as cores, os odores, os ruídos, mais do que tudo, a juventude sumida nesse rio que se aproxima da foz para se diluir no mar do olvido, águas indistintas onde tudo o que antes correu se dissolve inexoravelmente… Ou, como na balada de meu primo, cantada a bordo da nau que nos levou até Ceuta, “é no fel que tudo fenece.”

— Cantai-nos uma de vossas cantigas para nos animarmos, pediu D. Henrique, para nossa surpresa, que o infante ao saber-nos seus protectores, zangara-se arrogantemente: já não tinha, barafustava, idade para precisar de amas; menos ainda queria ser guardado por velhos.
Meu primo ainda se quisera escusar; mas o filho de nosso rei e senhor insistiu gentilmente: — Uma de vossas cantigas de amigo, trovador.
Assim instado, meu primo cantou — para galhofa geral. O que aqueles moços queriam era tão só divertirem-se às nossas custas. Não fossem eles os infantes que juráramos proteger com nossas vidas e ter-se-iam prontamente arrependido — se nossas espadas para tal lhes dessem tempo.
— Senhor, protestou meu primo, vosso vassalo sou. A vosso pai sempre bem servi e ele mesmo me incumbiu, é certo que contra vossa vontade, de zelar por vossa vida e segurança. Não é assim justo, nem de cavaleiro (como tal, em Ceuta sereis armado) escarnecer do seu fiel servidor. Compreendo e aceito que minhas cantigas vos não agradem; mas por que as pedistes então?
D. Duarte, mais velho, mais avisado, levou dali o irmão e os moços que com ele acamaradavam. E, pouco depois, em seu nome e no do pai, pediu-nos encarecidamente que desculpássemos D. Henrique: era da tenra idade, era dos mimos com que fora criado, do excesso de atenções de todos os que o rodeavam.
— Vós, senhor fidalgo que tantas provas de valor destes ao serviço de meu pai e de tantos grandes senhores por essa Europa fora, não vos podereis sentir amesquinhado por aquelas infantilidades.
— Senhor, tornou-lhe meu primo, é a majestade que fala pelos vossos beiços ainda bem tenros. Dareis, vejo-o, um grande rei, digno de vosso pai e de nosso reino. Vossa vontade é a minha vontade. Já esqueci a desfeita de vosso irmão.
— Para mostrardes que ressentimentos não haveis, cantai-nos então uma de vossas cantigas.
— Senhor, bem gostaria de o poder fazer, mas a guitarra está desafinada, a voz rouca. Dir-vos-ei porém umas cobras que fiz há tempos e vos poderão ajudar quando sobre nós reinardes:

Longe, longe, vão os sonhos
De minha mocidade
Que a maior idade
Torna medonhos
Assim nos tornamos enfadonhos
Aos ouvidos de nossos senhores
Esquecidas as mercês prometidas
Ninguém nada nos agradece
É no fel que tudo fenece…

— Senhor, vereis que, quando reinar, de vós (e abarcou-nos a ambos no mesmo olhar) me não esquecerei.
Quero crer que não nos esqueceu, apenas que na sua árdua missão de nos governar, neste reino atormentado por fomes e pestes, tem assuntos mais urgentes a que acudir. Nada pôde fazer por meu primo, caído em Ceuta na salvação do infante D. Henrique, que na sua arrogância e desejo de glória, se afoitara no ataque à cidadela e os sarracenos cercaram: a não ser mandar trasladar seus restos para a pátria, mas, morto, nada importará a meu primo o lugar onde apodrecem suas ossadas. Por mim, que com pouco me contento, nada fez, nada lhe pedi, nem ao senhor D. João. Por aqui me arrasto, do quarto até taberna onde engano a fome, da taberna até à Ribeira, invisível para os vizinhos como os velhos soem ser, olhado com desprezo pela nova fidalguia que comprou os títulos pagando a capitão da nau que a Ceuta os levou para os fazer cavaleiros, antes ainda de chegarem a terra, sem jamais entrarem em guerra ou escaramuça que fosse: Vai vilão a Ceuta, vem cavaleiro de papel passado."

terça-feira, 18 de agosto de 2015

É pró menino e prá menina!

Também eu disse e repeti vezes sem conta que é tudo uma questão de educação, de aprendizagem social. Os rapazes brincam com bolas e automóveis e as meninas com bonecas porque são esses os brinquedos que os adultos lhes dão, por os considerarem mais apropriados.
Asneira. Os anos e a observação vão-nos ensinando que tão preconceituoso é dar obrigatoriamente bolas aos meninos e bonecas às meninas, como o inverso, tentando contrariar a natureza. Porque ela existe e não se regula por lógica nem por preconceitos. Mas se dúvidas ainda tivesse, tê-las-ia visto esfumarem-se no sábado passado, primeiro aniversário da minha única neta, já habituada a disputar os carros ao irmão. Demos-lhe uma boneca, e era vê-la embevecida, a tocar-lhe nos olhos, na boca, nas orelhas, sobretudo a apertá-la ao peito em carinhosos abraços. E não a largou todo o dia! 
Dois ou três  anos atrás observei idêntica reacção quando a então única menina da família, uma sobrinha-neta, a que não faltavam brinquedos, mas não tinha nenhuma boneca, ao entrar no quarto de uma das minhas filhas deparou com uma maior do que ela: logo se lhe abraçou carinhosamente e foi contristada que deixou  a 'menina' ao sair -- dias depois oferecemos-lhe uma, a primeira, e sua companheira inseparável.
Não faltarão senhoras a afiançar que em crianças gostavam de subir às árvores e de jogar à bola com os rapazes; que, ainda hoje, se aborrecem com companhia feminina e as eternas conversas de filhos, reclamações sobre a cabeleireira, críticas à mulher a dias, troca de receitas culinárias, e preferem convívio masculino, onde as conversas são outras. Mas não confundamos as coisas: é natural que apreciem a companhia masculina, como nós, homens, apreciamos a feminina, e quanto a conversas a trivialidade é idêntica, embora, por estarem menos habituadas, lhes pareça talvez terem alguma originalidade e frescura -- excepções, como o convívio aqui relatado com António Luiz Pacheco, João J. A. Madeira, António Breda, Miguel Raimundo, as nossas mulheres, são isso mesmo: excepções. Rareiam as pessoas capazes de conversas interessantes e, como o narrador do Principezinho, quando sabemos que os nossos interlocutores são incapazes de ver elefantes dentro de jibóias, falamos de política, negócios, viagens, desses assuntos que tanto interessam às pessoas crescidas e fazem mover o Mundo.
Observem, experimentem. Analisem sem preconceitos. E tirem as vossas conclusões, certamente tão incorrectas como as minhas, que nunca faltaram nem faltarão as maria-rapaz que odeiam bonecas nem os rapazes que as adoram...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

14 de Agosto de 1385

Foi há 630 anos que a Sorte deste país se decidiu no campo das armas. Em Aljubarrota. No meu romance (inédito) Gheke Pepe foi assim.
"Como o toiro orgulhoso que investe cego por pedaço de pano que o enerva e impede de ver o gume afiado do ferro que o vai trespassar, trotam briosos os cavaleiros, lanças ao alto, depois esporeiam as montadas em carga feroz, o chão foge sob as patas dos cavalos, na vanguarda, antes que a nuvem de pó os esconda da vista, avisto o conde D. João Afonso e Gonçalo Eanes de Castelo de Vide, trigoso homem de armas que prometera ser o primeiro a ferir de lança — e pouco mais atrás, meu próprio irmão, que reconheço pelo pendão. Desperta-nos do torpor D. Nuno, com ele gritamos a plenos pulmões S. Jorge, Portugal!, e aprestamos os nossos corações para receber a nossos inimigos como o Condestável recomendara: apeados, pés bem fincados no chão, lanças em riste, passos lentos, sem temor do número nem do clamor do inimigo, havendo fé em Deus, na Virgem sua mãe, na nossa coragem e no amor à pátria.
O ímpeto da carga da cavalaria é afrouxada por uma chuva contínua de flechas e de farpões, que obriga os cavaleiros a protegerem-se sob os escudos, cavalos e homens tombam por terra, relinchos, gemidos, gritos horríveis dos feridos dão lugar à jactância anterior, acorrem os peões a socorrer a seus senhores, mas também eles se vêem empecidos pelo tombar constante de setas e virotões e não poucas vezes se mistura ali o sangue vilão com o nobre e o animal. Os archeiros ingleses, calmos como a morte, já não disparam sincronizados à voz nuvens de setas contra o céu, antes visam os alvos próximos, o cavalo de um, a perna deste, o olho daquele se acaso levanta o bacinete para encontrar caminho por entre as nossas covas de lobo. Desorientados com esta guerra viloa, tão contrária às leis da cavalaria, os inimigos partem as lanças, demasiado compridas para combater a pé, apeiam para enfrentar a nossa peonagem que, se os derruba, prontamente lhes levanta o elmo e faca no olho dá a escolher: resgate ou morte. E sempre, sempre, os frecheiros ingleses a visar alvos que logo tombam, atroa o chão a queda das pesadas armas, eis os inimigos que se aproximam, empurram os nossos, penetram no campo e julgando mais fraca a nossa ala, sobre ela carregam ferozmente. O meu jovem escudeiro, que o anterior, Antão Enes, morrera de peste em Lisboa, lança na mão, treme como varas verdes, outros jovens fidalgos fazem tenção de recuar, foi, vejo-o agora, um erro permitir que estes jovens inexperientes nos sofrimentos da guerra tivessem uma ala à sua responsabilidade, acode meu primo, sempre destemido: — A mim, portugueses! A mim! E lança-se brioso contra o próprio mestre de Santiago, com poderoso golpe de facha o derriba — para sempre, saberemos depois. A seu lado, também eu me atiro aos mais nobres do inimigo, para isto nascemos, não para enganar judeus e mouros por um prato de sardinhas. Que os nossos nos admirem, que os inimigos nos receiem. Dizia meu avô: quando a batalha degenera em corpo a corpo, sempre de sorte incerta, não interessa a técnica, não importa a vida, nossa ou dos nossos inimigos. Só há uma coisa a fazer, carregar sobre eles, bater com todas as forças do corpo e da alma, romper cotas de malha, cortar armaduras e corpos, decepar membros, perfurar olhos, pisar a vilanagem que os protege, matar, matar, cavalos, cavaleiros, peões — até que o estandarte inimigo tombe também ele por terra. 
Mas por cada um que derribávamos dez ou vinte caíam sobre nós e nos cercavam. Contra o número não abasta a coragem e empurraram-nos para o centro do quadrado, rota a nossa ala, tantos, tão fortes, tão valentes eram os castelhanos e tão esforçados os fidalgos portugueses que a seu lado se batiam galhardamente, contra a própria terra embora. 
Então, vendo o desespero de tão poucos esmagados por tantos, acudiu-nos o próprio Rei, que galopou em nosso socorro: — A mim, irmãos, cá sou el-rei, bradava, para que o seguíssemos. E na confusão de corpos vivos, mortos, de homens e de bestas, lançou fora a lança, que de pouco préstimo era naquele caos, e começou a ferir de facha, derribando inimigos como se fora simples cavaleiro desejoso de cobrar glória. E a batalha recrudesceu renhida, cruel, entre relinchos de cavalos, gritos de cavaleiros, gemidos de feridos, pedidos de misericórdia agora inúteis, que não se faziam já prisioneiros pelo resgate, e a terra empapou-se de sangue nosso, dos nossos mercenários, dos nossos inimigos, todos feitos irmãos na mesma morte. E quando caía já o Sol atrás do outeiro vizinho, tombou por terra, não sei como, o estandarte castelhano e o meu escudeiro, ardido guerreiro passado o pavor inicial, deu em gritar: — Já fogem! Já fogem!
E os castelhanos, desorientados, não compreendendo o que se passava, sem se aperceberem de que estavam a ganhar, deram em fugir e nós, antes que reorganizassem, demos em cima deles, acossando-os sem piedade. Depois foi a matança ignóbil, aquele momento de todas as batalhas em que os cobardes chacinam os valentes que se rendem, nem os feridos que agonizam por terra poupam, para os roubar, para vingar a sua própria cobardia. E na noite que se seguiu, até mulheres, soube-se mais tarde, mataram a espanhóis com quem se haveriam deitado alegremente houvessem sido eles os vencedores… 
Vae victis!"

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Amigos, livros e almoço

HNão  viemos dos quatro cantos do mundo -- afinal, ele é, dizem, redondo e nós somos pessoas modestas. Mas da Mealhada veio o António Breda e a família, de Óbidos o João Madeira, eu e a minha mulher do Entroncamento, de Santarém jovem poeta e historiador, e todos nos encontrámos na casa do António Luiz Pacheco, onde ele e a Fernanda nos receberam com elegância aristocrática à altura da casa da quinta, antiga residência eclesiástica do séc. XVIII.
Excelentes entradas -- salada de polvo, ovas com tomate, camarão, queijos --, vinhos da região, deliciosa garoupa assada, melão, doces cortados com medronheira...
Despretensiosamente, sem máscaras, primeiro ao almoço, depois pela tarde fora, falámos das nossas leituras, discutimos os nossos livros, apontámos pontos fracos, trocámos experiências  concernentes à edição, à distribuição e à comercialização, cortámos amigavelmente na casaca de amigos ausentes com a mesma lisura com que o faríamos se estivessem presentes, contámos histórias e episódios das nossas vidas, partilhámos expectativas, projectos, sonhos.
Despedimo-nos já bem tarde, agradecendo aos anfitriões a excelente tarde e a pensar já no próximo encontro.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

"Antes quero asno que me leve que cavalo que me derrube"

Gosto de burros, sejam eles de raça, como os mirandeses, ou rafeiros como a burrinha que tive na minha mocidade. E não gosto dos espertalhões que, com ideias de jerico, me querem fazer de burro. Como aquele que não sai da televisão, a explicar como é que os burros mirandeses podem prevenir os incêndios. 
(Talvez por a estratégia preventiva estar entregue a asnos a floresta arda inevitavelmente em cada Verão. Adiante.)
Uns anos atrás, outro propunha rebanhos de cabras. Cada qual puxa a brasa à sua sardinha, que é como quem diz aos financiamentos que espera vir a alcançar com as suas ideias asininas. 
Para estes doutores tudo é fácil e só por burrice não é implementado: cabras, ou burros, ou para o ano porcos, vão por esses montes fora, comem não a erva tenra, mas os silvados que tudo invadiram, o tojo e a urze dos pinhais, e o fogo, chegando a vales limpos, pára, menino bem comportado. 
(Ora eu, que já vi as chamas a passarem de monte para monte, deixando quase incólumes os vales... Que vi, na televisão, devo confessá-lo, oliveiras inflamarem-se sem chamas à  vista...)
Eu, que nada sei, sorrio: sempre me lembro de incêndios. Só que antigamente não eram notícia, salvo quando matavam umas dezenas de militares, e nesse tempo incendiário apanhava a pena máxima, salvo erro 28 anos de prisão, que não raro se convertiam em prisão perpétua. Nesse tempo, matas e pinhais eram limpos por mulheres à lenha, que não tinham outro combustível, os matos eram rapados para a cama do gado e para chamuscar os porcos nas matanças.
Nesse tempo, poucos bombeiros havia. Tocava o sino a rebate e todo o povo acorria, homens com enxadas, mulheres com canecos e baldes, garotos com a coragem da inconsciência. 
Depois veio a emigração, para a França e para as cidades, os campos foram abandonados, o mato cresceu livremente. Veio o 25 de Abril, os incendiários foram desculpabilizados, as penas muito aligeiradas, o povo tornou-se espectador e comentador televisivo, o combate aos fogos foi delegado nos profissionais: -- Deixa arder, que o meu pai é bombeiro! Deixa arder, que isto vai para os comunistas...  
Veio a indústria da celulose, os grandes negócios com os incêndios e com o combate aos incêndios...
Fizeram-se leis que não são cumpridas. Não raro, nem se sabe quem é o dono da floresta. O Estado é o pior proprietário, o mais desleixado, o menos cumpridor
Agora os burros são a solução. Bom, se os ensinarem a seguir os incendiários e a mijar nas fogueiras que ateiam, por que não? 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O poeta maldito e outros lugares-comuns

O mal dos lugares-comuns é que resultam de uma observação parcial, não raro superficial. O 'topos' do poeta-maldito, por exemplo, criado pelo romantismo, elege como expoente Camões, poeta amargurado, incompreendido pelos contemporâneos, sempre envolvido em paixões ardentes, as quais levam à sua perseguição e, por vezes, à prisão. Na falta de biografia, que da vida de Camões quase nada se sabe ao certo, servem-se da sua poesia para a respectiva construção: por exemplo, no soneto "o dia em que eu nasci moura e pereça" por ter deitado ao Mundo "a vida mais desgraçada que jamais se viu" lêem o desabafo amargurado de Camões --  e o poema é, antes de mais, a versificação do Lamento de Job bíblico: no soneto "Alma minha, gentil, que te partiste" encontram o choro pela morte em naufrágio da Dinamene, "moça china com quem andava de amores na Índia" e não a imitação, ou o plágio, de soneto de Petraca -- aliás, muitos estudiosos nem sequer aceitam que esse soneto seja da autoria de Camões.
Com Bocage, este sim, de vida dissoluta, poeta medíocre, muito apreciado exactamente por isso, e pelas tiradas declamatórias tão ao gosto romântico, obcecado com o paralelismo entre a sua vida e a de Camões, e Forbela Espanca, autora de sonetos interessantes, têm corpus suficiente para estabelecer regra: o grande poeta, o bom escritor, é ser amaldiçoado pelo seu talento, ostracizado pela sociedade a que se julga superior, com direitos especiais, porque vê o que os outros não vêem, vai onde os outros não ousam ir. Pode ser desonesto, vigarista, caloteiro, pedófilo, bígamo, péssimo pai, autor irrelevante -- tudo se lhe perdoa.
E há os outros autores. Aqueles que que sabem que "o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" e por isso mesmo se não confundem com as suas máscaras, heterónimos, personagens. Nem sequer são dos piores, ou dos irrelevantes: D. Dinis, um dos melhores poetas da nossa literatura; Fernão Lopes, mestre da arte da prosa e historiador avant la lettre; Sá de Miranda, imerecidamente esquecido e tão imitado por Camões; Bernardim Ribeiro, génio entre os génios; Gil Vicente, até hoje cometa resplandecente do teatro português; Rodrigues Lobo e as suas belíssimas églogas; o Padre Vieira, mestre dos mestres; Herculano, Camilo até, Cesário Verde, Eça, Raúl Brandão, Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Saramago, Mário de Carvalho... E tantos outros, que me desculpem a omissão...
Postos nos pratos da balança, num os "malditos", noutro os que distinguem realidade de ficção e autor de obra -- afinal, aqueles que não confundem o cu com as calças! -- o desequilíbrio é por demais evidente. 
Cada qual tem o direito de viver a sua vida como puder ou quiser; mas que não haja ilusões: a qualidade da obra produzida não depende necessariamente da vida, equilibrada ou dissoluta, do autor. Como salienta O. Wilde, no Retrato de Dorian Gray,
"Os bons artistas existem unicamente naquilo que fazem, pelo que são completamente desinteressantes como pessoas. Um grande poeta, um poeta maior, é uma criatura absolutamente destituída de poesia. Mas os poetas menores são perfeitamente fascinantes. Quanto piores são as suas rimas mais pitorescos parecem. O simples facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda categoria torna um homem bastante irresistível. Vive a poesia que não consegue escrever. Os outros vivem a poesia que não se atrevem a realizar."

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um balão de dez tostões

-- Ó rapaz, deita-me já essa porcaria fora!
O garoto protesta. Não senhora, era o que faltava! E não é porcaria nenhuma, é um balão do grandes, dos de dez tostões, que só se vendem em Alcobaça.
A mãe ralha, ameaça, chama-o para lhe tirar aquela porcaria, achada na sarjeta, que ele insiste em meter na boca, em soprar a ver se enche como balão dos grandes, dos de dez tostões, só vendidos em Alcobaça.
O garoto foge, recusa deitar fora o preservativo usado, sempre assim foi, os jovens sabem sempre tudo, deles é o mundo das certezas, e a mãe tem vergonha de lhe dizer o que é aquilo, para que serve ou serviu, por isso insiste nas ordens gritadas, mas não obedecidas.
Volta-se para mim, uns anitos mais velho, na esperança de que corra atrás do filho, o faça largar aquela imundície. E lá vou eu.
Em vão. 
-- Isso querias tu, que eu deitasse fora o balão que achei para ficares com ele! E foge à minha frente, ligeiro, sempre a tentar enchê-lo...
-- Isso é uma camisa-de-vénus!
-- É o quê! Pensas que me enganas?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Avalor e Arima

O episódio do triste Avalor, que parte em demanda da sua Arima (in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro) motivou este excerto de Um amor inventado.
"Mas de nenhuma parte chegavam notícias. O João procurou nas grandes cidades, nas pequenas, nas vilas e aldeias deste país, por lugarejos e casais. Telefonou para todas as terras onde tinha conhecidos, muitos deles da tropa, perguntando se por lá tinham visto mulher e criança com tais e tais características. Pediu os endereços e escreveu a emigrantes, em França, na Suíça, na Holanda, na Suécia, no Canadá, no Brasil, nos Estados Unidos. Em vão. Ninguém tinha visto a Berta, nenhum indício dela. Logo que teve uma pequena licença, passou dias e dias em embaixadas e consulados, dormindo no meu quarto de estudante, arrastando-me consigo na demanda, para o ajudar com os meus fracos conhecimentos de francês e de inglês. Nada. A Berta desaparecera deste mundo, como ameaçara fazer. 
Dia após dia, noite após noite, pensou em partir também ele, sem rumo, sem destino, numa busca incessante, qual Avalor procurando em barca à deriva a sua Arima — mas o Mundo é tão grande e o homem bicho da terra tão pequeno — e uma réstia daquela razão que nos despoja da grandeza dos homens de antanho impediu-o de se perder por esses caminhos fora, numa peregrinação incomparavelmente mais louca que a volta a Portugal em que a conhecera..."

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Pêssegos

Comigo, tudo tem história. E histórias. Estes pêssegos, por exemplo. Semeio os caroços, transplanto as arvorezinhas que nascem para vasos que ofereço aos amigos,
-- Não quero! É árvore melindrosa, exige muitos tratamentos, ocupa terra, exige cuidados durante todo um ano para produzir durante quinze dias! Mais vale comprar na frutaria! 
Mitos. Há lá fruta melhor que a caseira, vinda na sua época?
E a minha mulher:
-- Planta-os no Casal, o teu tio Zé tinha lá pêssegos fantásticos!
Assim dividimos tarefas. Ela a pensar, eu a fazer.
No ano seguinte: -- Devias enxertá-los!
Sim. Mas a vista é má, as mãos tremem. Vamos (moramos a sessenta quilómetros do Casal) os dois. Eu digo como é, tu fazes.
Ei-la promovida a oficial enxertador. A saber mais do que o mestre, logo à primeira enxertia. Deita os olhos para o belo pomar industrial do vizinho, de frutos lindos, a dobrarem as ramagens com o seu peso.
-- Vai ali ao teu vizinho tirar umas borbulhas.
-- Não vou sem autorização.
-- Que mal tem tirar uns raminhos?
Aqui o povo dá tudo, basta pedir. Mas ai de quem se apropriar de uma simples palha alheia!
Por sorte, chega o dono. Sorte porque lhe posso pedir, sorte porque me não apanhou a roubar-lhe umas vergônteas: -- Joaquim, dás-me meia dúzia de borbulhas? 
Que levasse as que quisesse. E ele mesmo me indica as melhores qualidades para um amador, daquelas que os mercados não apreciam, ou pelo calibre, ou por não aguentarem o transporte e a conservação. Assim se têm perdido algumas das melhores variedades, como o "Jota Galo" (J. Halle) da minha infância, os pêssegos mais saborosos que alguma vez comi.
Diz-se que pegam melhor enxertos e estacas roubadas. Outro mito. Aqueles já produzem. Por enquanto, o suficiente para as provas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Falando de Karaté a propósito da Grécia

As palavras são fonte de ambiguidade. Por isso, nada como precisar o sentido que lhes atribuímos. Quando digo Karaté não me refiro a quimonos brancos, desconfortáveis e sem braguilha,a gritarias mecanizadas, as rituais, a formaturas e ordem unida. Tudo isso faz parte do Karaté, como hoje fazem as competições, mas não é o Karaté. São aspectos do Karaté, importantes, sem dúvida, mas que podem fazer esquecer, e fazem-no frequentemente, aquilo que realmente ele deveria ser: uma Arte de Vida. E de sobrevivência. Só assim se pode compreender, por exemplo, o 12 dos Niju Karaté Jutsu Kyokun, algo como Os Vinte Mandamentos da Lei da Mão da China, posteriormente mudada para Mão Vazia:
12. Não pensar ganhar, pensar em não perder.
Dir-me-ão: ideias do passado. Sem sentido nestes tempos de jogos olímpicos, de futebol, de competitividade exacerbada, em que os atletas e os não atletas são treinados para almejarem exclusivamente a vitória, mesmo que para tal destruam ou danifiquem irremediavelmente os seus corpos. Tempos em que as massas apenas se regozijam com taças, ao ponto de quase toda a glória ir para o vencedor, ao ponto de os segundos classificados chorarem de humilhação. Em que aquele que não enriquece seja lá como for é um pobre diabo, não raro um falhado, em que se mede a qualidade nas artes pelo valor das vendas...
Pois. O antigo Karaté, a fazer fé nas obras dos mestres da geração de Funakoshi, todos naturais da ilha de Okinawa, então relativamente isolada do Japão e da sua cultura, é unânime: 
Travar 100 combates e ganhá-los todos não é prova de grande perícia. Esta estará antes na capacidade de vencer 100 vezes sem ter de lutar uma única. 
Difícil, quase impossível. Porque pressupõe antes de mais o aniquilamento da vaidade, do orgulho, dos preconceitos ideológicos, para pensar unicamente no objectivo a atingir. No caso dos governantes, deveria ser no bem do povo, especialmente no mais pobre, no mais desfavorecido. Mas, como certamente nunca leram A Arte da Guerra, e se o fizeram nada entenderam, preferem a chantagem: arruinamos o nosso país, levamos connosco ao fundo outros mais vulneráveis, causamos prejuízos terríveis à Europa e ao Mundo! E os adversários, burocratas da Troika: se não cortam salários e pensões não levam nem mais um euro!
Qualquer que seja o desfecho, estoirem os gregos com tudo, ou alcancem vitória de Pirro para a propaganda doméstica e dos círculos ideológicos próximos, o povo miúdo vai sofrer muito. Que importa, dirão certos intelectuais privilegiados, para os quais sempre haverá pão à mesa, pianos e piscinas, e por isso são incapazes de perceber que faz mais falta um euro ao pobre do que um milhão ao capitalista que querem punir? Dos intelectuais do Facebook, que, certamente ofuscados pelo valor simbólico dos mitos, ou então por desonestidade intelectual, não hesitam em evocar a despropósito da crise grega a Retirada dos Dez Mil, em que Xenofonte relata como trouxe até à pátria os seus mercenários acossados por territórios estrangeiros e hostis, ou a Resistência aos nazis, em que se destacaram também países que agora se não solidarizam com a Grécia? Só ainda não compararam a situação actual com as Termópilas, talvez porque aí morreram espartanos, gregos mas não democratas, e porque a cabeça decepada do rei Leónidas foi passeada por entre as tropas persas espetada num pau, o que não seria animador para Tsypras e Varoufakis caso venham a perder a batalha...
Les jeux sont faits. Ou, fica melhor em Latim, Alea jacta est, de outro brilhante cabo de guerra da Antiguidade, o do genocídio dos Gauleses. 
Eu, na linha de pensamento dos velhos mestres de Karaté  preferia outro aforismo: Ganhar, perdendo. Coisa que não passa pelas cabeças brilhantes que de um lado e de outro jogam com as nossas vidas à mesa do póquer europeu, todas cegas pelos fundamentalismos ideológicos, de um lado os da esquerda caviar deslumbrada com o poder, do outro os sátrapas do capitalismo financeiro -- Ou vai ou racha! 
Uns e outros safar-se-ão, não lhes faltarão depois palavras e argumentos para justificarem o que aí vem, encontrarem culpas, apontarem dedos acusadores. 
Pobre mexilhão português, grego, cipriota, ou desses países para cujos habitantes ainda não conhecemos os nomes -- já sabemos o que nos espera quando o mar bate na rocha.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Meditações encaloradas

Et je ne suis pas bien sûr
Comme chante un certain
Qu'elles soient l'avenir de l'homme
(Jacques Brel, La ville s'endormait)
Imagino um extraterrestre, suficientemente perto para captar os nossos programas de televisão, digamos, num raio de uns setenta anos-luz. De nós só pode querer distância. E que não saibamos da sua existência, a medo de que lhe façamos como à cabra do Gerês - para quem se não recorda, no início do século passado foi avistada uma, a última sobrevivente da espécie, e o Diário de Notícias organizou uma expedição para a caçar. Dias e dias, sem olhar a despesas nem a esforços, a perseguiram por alcantis e penedias e não sossegaram até poderem exibir o seu cadáver como troféu!
Nessa época, a protecção das espécies não estava na moda e dois terços dos portugueses eram analfabetos, ou, quando muito, soletravam e sabiam assinar. De então para cá o analfabetismo foi quase erradicado, mas, ao contrário do que então se supunha, a instrução não tornou o homem melhor. As Luzes iluminam as ruas, decoram as cidades pelo Natal, divertem os cidadãos em artísticos fogos de artifício, mas não logram limpar-nos nos espíritos as trevas ancestrais da animalidade e da ignorância.
Se dúvidas houvesse, as notícias que preenchem os telejornais dissipá-las-iam. Ou a leitura dos comentários acintosos no Facebook, assumindo, talvez incorrectamente, que são representativos da mentalidade das gentes mais ou menos cultas, ou, pelo menos, letradas. Um manancial para psicólogos, psiquiatras e outros estudiosos da mente humana, um filão para escritores, mas quase um vómito a dar vontade de imitar o poeta Alencar de Os Maias e como ele, embora por razões diferentes, levantar as calças e deixar passar o enxurro.
Que gentes estas, com tanto ressentimento, tanta raiva, tanto azedume, tanta maldade, mergulhadas em tamanha pobreza de espírito! Que tristes devem ser as vidas dessas pessoas!
Consequência da crise, culpa do governo -- argumentarão talvez os que tiveram paciência para ler até aqui. Não nego. Casa onde não há pão... Mas pressinto que pode haver outras explicações. Por exemplo, o envelhecimento da população. Como cantava o grande Brel, "Plus ça devient vieux, plus ça devient con" (Les Bourgeois). E imagino o sofrimento de quem envelhece a sós nas grandes cidades, entre "le lit et le fauteil", outra vez Brel (Les Vieux)! Uns com reformas de miséria, ou a viver de magros subsídios, de ajudas de pais e avós, outros que puderam mas não acautelaram minimamente o dia de amanhã, e ele chegou ontem, talvez desligados dos filhos que enjeitaram ou não quiseram ter para gozarem das delícias do cavaquismo -- jipes, gadgets, férias nas repúblicas dominicanas e brasis... Porque então, como já tinha sucedido com a pimenta da Índia, com o ouro do Brasil, com o volfrâmio na segunda guerra mundial, a prosperidade seria eterna. 
Mas não sou o tal extra-terrestre, a conhecer o Mundo e o Homem apenas pelas suas emissões de ondas rádio-eléctricas. Desvio o olhar do ecrã e vejo um ser imperfeito, mas capaz de melhorar, um país onde dá gosto viver, uma sociedade que, apesar de tudo, é hoje menos injusta, menos cruel, menos ignorante do que no passado. Sim, bem sei,  nós, seres humanos, somos reles, as sociedades que construímos violentas, na maior parte do planeta a vida é um inferno. Mas, quero acreditar, as excepções permitem esperança ténue no futuro da Humanidade. Se o tiver. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Correr a foguetes

Muito corri eu atrás de foguetes. Pelas canas. Desempenadas, com a grossura certa, davam óptimas flechas, para o que bastava cortá-las e fazer entalhe na extremidade mais grossa. O arco era de varetas de guarda-chuva velho, ou de vara de vergueiro -- o castanho seria melhor, mas eu era demasiado franzino para o armar.
Em dia de festa, logo ao ribombar dos morteiros da alvorada, sem ligar à roupa "melhor" que a minha mãe me obrigava a vestir, sem amor aos sapatos domingueiros que esfolava pelas vinhas, eu, os outros garotos da aldeia, lançávamo-nos pelas encostas  afora, saltávamos ribanceiras, tombávamos em barrancos para logo nos erguermos, atravessávamos moitas de tojo e silvados, na sofreguidão de nos apoderarmos do troféu que descia oblíquo, ainda fumegante, a cheirar a pólvora, -- É meu! É meu, que o vi primeiro! É meu, que eu é que o agarrei! Outro estoiro, outra cana a dardejar oblíqua interrompia a briga, lá corríamos, cada qual a querer juntar maior braçada, -- Para que queres tu isso, moço?, perguntava desdenhosa mulher incomodada com as nossas correrias, tropelias, gritarias, farta de nos ver guerrear, rebolando pelo chão de ervas secas e carraças por uma porcaria de uma cana -- não sabia ela, na sua ignorância analfabeta, que a riqueza é subjectiva, tem o valor que a imaginação de cada um lhe dá.    
Garotos, éramos. Os meninos da aldeia não corriam pelos campos, e sorriam com soberba da fortuna que exibíamos às molhadas, eles que não sujavam a roupa de ver a Deus, não esfolavam sapatos, não lhes rompiam sequer as meias-solas -- e não eram acolhidos, quando ao anoitecer chegavam a casa esbaforidos, esbarrigados, por tareia furiosa, de tamanco ou verdasca, que com a mão dói também a quem bate.
Então, naquele tédio de Julho, lembrou-se o meu primo de formarmos quadrilha como a do Robim dos Bosques -- afinal, também nós éramos bons ladrões, de pêssegos e ameixas, também nos fugíamos do Sherife de Nottingham, encarnado no dono enraivecido que nos perseguia tanto quanto os anos lho permitiam e depois se queixavam à guarda, -- Era ele e um mais pequenico que não conheci..., obrigando a mãe a pagar o estrago.
Desfila a nossa tropa pé descalço pelo adro da igreja, arcos, aljavas repletas de flechas, logo outros de melhor condição nos ridicularizam primeiro, depois, invejosos, formam bando rival. E nos dias seguintes entrámos em guerra, com batalhas famosas injustamente esquecidas pela História, como a do Forte Rolher, que decidiu a contenda e será oportunamente relatada para a salvar do imerecido esquecimento.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Volta a Portugal em Vespa

“Sem a loucura que é o homem / Mais que a besta sadia / Cadáver adiado que procria” pergunta Fernando Pessoa, que conheceu tempos tão medíocres como aqueles em que vivemos, marcados por discussões apaixonadas sobre assuntos de magna importância, como a transferência de um treinador para o clube rival, ou episódios emocionantes da campanha eleitoral. Não há pachorra.
E recordo-me de que trinta e três anos atrás subi com o Vergílio o Zêzere a remos, de Castelo do Bode acima, guiados por mapa rudimentar em papel vegetal. Durante cinco dias, quatro noites, remámos numa pequena chata construída por nós e por mais dois amigos, quase sempre sem ver vivalma, a comer rações de combate quando não pescávamos, a beber a água do rio e acampando nas margens e ilhotas. 
Pois agora, que lá diz provérbio africano “cabeça feita para partir cocos não pára quieta”, acabo de lhe telefonar a propor novo desafio: a volta a Portugal nas nossas velhas Vespas – a minha é de 1982. E ele aceitou imediatamente!
Esperemos por  Setembro ou Outubro, quando passar a época de incêndios e o tempo refrescar…
FOTO:  na subida do Zêzere, resguardado da chuva, ao lado do barco em que navegámos durante quatro dias.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Leiria, finais dos anos sessenta

A cidade cabia toda no olhar se a observássemos de um dos pontos mais altos, como o Castelo ou a Senhora da Encarnação. Ia-se a pé a todo o lado, esquivando nas ruas antigas os carros impacientes, de buzina fácil, novos senhores da cidade frequentemente envolvidos em toques e choques. Logo acorriam mirones das lojas e cafés, formava-se ajuntamento, todos conhecedores do código da estrada, estalavam discussões gritadas, por vezes violentas,
-- Este senhor é que tinha prioridade porque vinha da direita!
-- Qual prioridade, qual quê, o senhor não parou porque não quis, já eu tinha passado o eixo da via quando me bateu!
-- Quem bate por trás é sempre culpado, sentenciava camponês que viera feirar ao mercado.
-- Oiça lá,  sem matarruano, o que é que você percebe de leis?
Rolam já embrulhados pela calçada, ora o citadino por cima, ora o campónio -- e quando um logra montar a cavalo o outro, chega-lhe uns sopapos pouco convencidos.
-- Ninguém os aparta?, pergunta mulher, com vontade de estragar o divertimento da turba.
-- Ora, não se matam. e quem se mete de permeio apanha também.
É o que acaba de acontecer, homenzarrão fiado talvez na corpulência tenta separá-los, ei-lo que rebola também, camisa rasgada na bulha com o citadino, enquanto o campónio, livre do ataque, mete a fralda da camisa nas calças, apanha do chão a boina, incentiva o grandalhão, feliz com a desforra por interposto paladino.
Apita a polícia, separam-se os brigões, ninguém quer questões com a autoridade, não há vencedor nem vencido, ambos se ameaçam ainda, fingem querer atirar-se um ao outro, confiantes em que os braços que os seguram os não largarão e a polícia não permitirá mais desacatos. 
E é junto dos agentes que condutores acidentados e testemunhas argumentam, a um mais exaltado acalma-o aviso ameaçador -- Veja lá se quer ir à esquadra!, fita métrica na mão os polícias medem a rua, a distância às rodas, em bloco de notas esboçam croquis do sinistro, apitam novamente, ordem para dispersar, e as pessoas, obedientes, reentra, nas lojas e cafés, onde prosseguirão as discussões acaloradas, mas agora pacíficas.
Outras vezes é a sirene da ambulância a soar imperiosa, exigindo passagem no caos do trânsito, ainda sem sinais nem rotundas, sobre tamborete no cruzamento sinaleiro impaciente de luvas brancas manda encostar, dar passagem, desimpedir o caminho, e o meu colega Ramalho corre à frente dos demais garotos até ao hospital, a uns centos de metros, a certificar-se de que o sinistrado não não é o pai, vendedor da Carbo Sidral sempre na estrada e amigo de carregar no acelerador.
Nas tardes amenas, após saída da escola e lanche, desço ao centro, detenho-me na contemplação das montras, dos cartazes do cinema, depois sento-me por instantes no jardim, alheado, em sonhos permanentes, saudoso da família, solitário na cidade, antes de passar pelo quiosque onde compramos e vendemos livros usados, Mandrake, Major Alvega, combóis, Os Cinco e os Sete, policiais -- banda desenhada e literatura de cordel. Por vezes,  sentam-se homens no mesmo banco, tentam meter conversa conversa, pedem lume ou oferecem cigarros. Sem sucesso, não fumava, não tinha fósforos, e conversas só comigo mesmo. Papeleiros, saberia mais tarde, mas naquele tempo, com a ingenuidade aldeã dos treze anos, paneleiro era apenas insulto, como ranhoso de merda, cabrão, filha da puta. Perturbado pelas interrupções,  levantava-me, prosseguia as deambulações. Peripatético, diria de mim se então conhecesse a palavra. Andar e pensar, andar e sonhar, como os heróis dos meus romances, a caminharem na ponte dos navios de trás para diante, de diante para trás, enquanto davam caça a piratas ou congeminavam planos de batalha, ou nas calmarias pensavam nas amadas distantes, imaginando-as fiéis, a prepararem o enxoval para casamento quando eles forem promovidos por bravura.
Interrompia o devaneio ao passar junto do stand da Ford, a admirar embasbacado o sonho reluzente de todos os rapazes da cidade, um Ford Capri, modelo desportivo, que me fitava com a soberba expressa nos seus grandes faróis.  Mas, novidade, acima deles há uma placa: VENDIDO. A quem, interrogava-me atónito, quem podia dispor assim de cento e vinte contos? O dono de uma fábrica de plásticos, como aquela onde eu seria operário anos depois -- outra história, já aqui contada. 
Era, aprendia,  o poder indecente do dinheiro, a roubar tudo o que nos encantava, tal como os jogadores de futebol do União nos levavam, logo do portão da escola, as beldades que amávamos platonicamente, e a nós, pobres admiradores mal vestidos, magoados com o olhar de desdém que elas nos deitavam ao entrarem para os carros último modelo dos futebolistas, só restava desabafo amargo: Putas! 

terça-feira, 26 de maio de 2015

Incendiários



Como se não soubessem o que mais fazer na vida: é chegar o calor e eles a queimar. Talvez lhes dê mais gozo por saberem que é proibido; talvez se divirtam a fazer-se de sonsos quando advertidos pela polícia. A roupa no estendal tem frequentemente de voltar a ser lavada; não dá para refrescar as casas com a brisa do entardecer, porque eles adoptaram tácticas terroristas para ludibriar as autoridades: queimam um pouco de cada vez, após o pôr-do-sol, quando os helicópteros já não voam. E se bombeiros ou polícia surgirem, já ardeu a fogueira do dia, –  Sr. guarda, estava a assar sardinhas… Não sei se se armam em parvos, se tentam fazer passar por parvos os GNR – mas já lhes ouvi esta desculpa.
A este, que pelo fogo e a partir de finais de Maio limpa o terreno onde deixa crescer alto o mato durante o resto do ano, correu-lhe hoje mal a brincadeira, como a foto evidencia. Veio a polícia, vieram os bombeiros, que as chamas já lhe roçavam a casa. E veio a desculpa costumeira: estava a fazer um grelhado. Veremos se também desta vez pega, como as chamas pegaram no mato.