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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Entre Cós e Alpedriz no Andanças Medievais

A escritora Cristina Torrão, cuja amizade muito prezo, publicou no seu blogue Andanças Medievais uma simpática nota de leitura referente ao meu segundo romance, Entre Cós e Alpedriz. Aqui vai o link, depois, e excepcionalmente, comentarei o meu próprio post:
Entre Cós e Alpedriz

Eternidade, Deus, Alma, Física

Desde criança, quando a minha aldeia era o centro do Mundo e o Mundo o Universo, que penso insistentemente em questões que escapam ao humano entendimento: Deus, Eternidade, Criação, Alma, Vida, Morte, bem e Mal... Envelheci, mas nem por isso me deixei dos porquês da infância, sempre insatisfeito com a ausência de respostas convincentes -- que o correr inexorável do tempo torna mais urgentes e necessárias.
Por isso sou leitor compulsivo das obras de divulgação científica, na esperança de que a ciência me esclareça daquilo que as religiões são incapazes. E o último livro terminado, Eternity, God, Soul, New Physics, de Trevelyan,
Booké absolutamente fascinante. O autor, sem prescindir de linguagem científica rigorosa, discute estes assuntos que, em geral, andam arredados da ciência, relegados para a religião ou para a filosofia, e, tendo em conta recentes experiências intrigantes, que parecem indiciar a possibilidade de existência (ou, pelo menos, a concepção) de um espaço sem tempo (a Eternidade) e a Ciência da Informação, recupera velhas ideias, como o Idealismo e o Panteísmo.
Em termos muito sumários, faz da Informação, entidade abstracta, sem massa nem energia, mas com existência indiscutível, a chave para a resolução dos paradoxos da Mecânica Quântica, como, por exemplo, o facto de uma partícula, qualquer que seja, ter natureza corpuscular ou ondulatória -- dependendo da observação. Defende, sempre sustentado em experiências de laboratório, que não é a observação que determina a natureza corpuscular ou ondulatória das partículas (o que permitiu num passado recente a afirmação de que a Lua só lá está porque há alguém para a observar), mas a possibilidade de observação.
O Universo é assim constituído não apenas por matéria e energia, mas também, e sobretudo, por informação. Na síntese do físico J. Wheeler, "it from bit": as partículas são pacotes de bits.
Não há, na sua perspectiva, incompatibilidade entre as recentes descobertas da Ciência e a existência de Deus, Alma, Eternidade. Pelo contrário, essas descobertas parecem evidenciar, sustenta o autor, a verosimilhança dessas entidades postuladas pelas várias religiões desde tempos imemoriais.
Um livro que seguramente aborrecerá tanto os ateus convictos -- se Deus não existe, para quê perder tempo com Ele? -- como, por exemplo, os cristãos fundamentalistas, ao rejeitar a ingénua criação do Mundo por um ancião ranzinza, não raro ciumento, frequentemente colérico e vingativo -- o velho Jeová do Antigo Testamento. O Deus que nos propõe é uma recriação actualizada à luz do conhecimento científico do velho Panteísmo:
And if we have the courage to look beyond the simplistic views thundered from pulpits and the primitive conceptions of ancient prophets, to analyze reality with minds enlightened by knowledge and reason, we see God right before us. Not as a glorious king on a golden throne aloof from the travails of humanity. Not as a remote, abstract force, a ruler of mathematical laws from which Nature evolves, indifferent to our sufferings. But as a transcendent Mind, interwoven with all of reality. This is the God of science, the pantheistic God, the God who suffers with us.

sábado, 27 de setembro de 2014

Chuva civil não molha militar

O tempo convida à preguiça, a chusma de alertas laranja e amarelo que recebo do IPMA, à razão de dúzias por dia, desaconselha sair de casa, desaconselha ir para os Montes trabalhar no campo. Afinal, com os temporais previstos nada poderei fazer.
Mas lembro-me de que isto dos alertas, das previsões catastróficas, é recente. Meia dúzia de anos atrás saíamos e logo víamos se chovia, se ventava -- não havia então avisos de fenómenos extremos de vento. E os nossos antepassados foram à Índia, talvez por então não haver IPMA nem alertas. Eis-me portanto no campo, entre Terra e Céu, a fazer desparra tardia na vinha a ver se os cachos por vindimar aumentam de grau. Precavido com capa para a chuva pelo sim, pelo não. Lá pelas quatro e meia da tarde desponta sobre a colina nuvem suspeita. Como animal farejo o ar, quase sinto a electricidade: vem aí carga de água, vem aí trovoada. E eu não gosto nada de ser surpreendido por uma delas em cima do tractor. Pelas minhas previsões, a chuva vai desabar dentro de cinco minutos. Acertei em cheio e a chuva também, em cima de mim, a meio do percurso para casa. Acompanhada por granizo grosso como ervilhas e relampejar constante.
Não, não penso que teria sido melhor não ter vindo para o campo, não, não me dão saudades o conforto da casa, o sofá, um filmezito de sábado à tarde. Viver afastado da natureza não é, para mim, viver.
E os alertas? Pois até agora nada de mais: um bom aguaceiro, trovoada, nada que justifique tanto alarmismo. Compreendo que os meteorologistas precisem de se defender das acusações dos autarcas, mas se continuam a profetizar diariamente catástrofes acontecer-lhes-á como ao rapaz que para se divertir gritava "Lobo!"
FOTOS: (1) o Tex, cão a quem os alertas não assustam, sempre pronto para pular dentro da caixa do tractor e fazer-me companhia. (2) Temporal que se aproxima.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Morrer nos Montes

Colho a maçã Starking, este ano abundante, lustrosa, sempre atento à escuridão que se adensa. Vem aí temporal. Mas o vício do campo apouca os receios da molha, até o maior, o de ser apanhado por trovoada em cima do tractor.
Chega até mim o dobre a finados do sino da aldeia. Coitado, outro velho que se foi, penso, de cada vez que venho à aldeia morre alguém.
Os primeiros pingos de chuva, grossos, esparsos, fazem-me correr para o tractor, acelerar para casa. Mesmo a tempo. Tocada a vento forte, a chuva cai bruta sobre a povoação, e eu já resguardado, começo novas tarefas, desta feira a preparar adega e utensílios para a vindima.
Telefona-me um amigo distante a dar-me triste nova: ao que leu no jornal, morreu nos Montes um jovem, 23 anos, em acidente de tractor. Assim morreu o meu pai, assim morreu um vizinho, assim têm morrido tantos outros, por cá e nos arredores. Sempre me choca a morte no trabalho, mais ainda quando se trata de um jovem promissor, cheio de sonhos de agricultura biológica, produção de ervas aromáticas, a amanhar encostas soalheiras que outrora foram férteis e ficaram perdidas até que ele, e outros como ele, as começaram a desbravar, lavrando-as, plantando-as, tornado-as num regalo para os olhos.
Mas o bucolismo, a pacatez campestre são ilusão. A beleza de uma terra bem amanhada, de uma horta viçosa, de um pomar a "zombrar" com frutos reluzentes esconde, não raro, perigos corridos, sustos apanhados. E nós, mesmo sabendo-o bem, continuamos a arriscar, para desfazer um tufo de ervas sobrevivente que desfeia a lavoira, para destruir um silvado na estrema, como no acidente que vitimou o meu pai, ou reparar um velho caminho, como me constou que sucedeu neste acidente.
Não conhecia o infeliz moço. Sou quase estranho e estrangeiro na minha própria terra, de onde saí aos catorze anos. Mas lamento sinceramente que os seus sonhos agrícolas lhe tenham sido funestos. À sua família, a todos os que o amavam, as minhas sentidas condolências.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Como um rio

Seduz-me a fluidez e a plasticidade da água que corre livre de empecilhos. Assim queria a minha escrita: clara, cantante, envolvente, a fervilhar com a perpétua guerra entre vida e morte. À superfície, a tranquilidade ilusória, quebrada por um ou outro salto de peixe, ou cortada por pacato barco a remos; nos remansos e fundões, o refulgir dos cardumes, à meia-água os barbos de longos bigodes, de tocaia, nos limos ondulantes, na sombra dos salgueiros, nas ervas da margem, a enguia voraz, o achigã matador, a delicada víbora, a sanguessuga repugnante.

Este meu fascínio pela água deve ter origem semita, talvez judaica, a ver pelos apelidos de meu pai (Silva, Catarino), a que não serão alheias as origens da minha aldeia natal, povoada por cristãos-novos. Muito misturada com sangue moçárabe, resquício da longa colonização muçulmana da região, a que pôs cobro D. Afonso Henriques, ao tomar Alpedriz em 1143.

Assim sou. Uma Palestina, sempre em guerra comigo mesmo, sempre descontente com o lodo que desajeitadamente levanto do leito e turva as águas que quero claras, para nelas reflectir o Grande Rio que passa inexoravelmente e não volta jamais.