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segunda-feira, 30 de junho de 2014

Julho é ladrão...

[Dois anos atrás sofri a agonia da minha mãe. O texto que se segue é um dos registos da época, amputado de fragmentos demasiado pessoais.]


Telefonam-me do lar: a minha mãe vai a caminho do hospital. Precipito-me, chego ainda antes dos bombeiros. Fazemos o check in, passamos à triagem. O enfermeiro, moço, preenche formulário, desinteressado das respostas, coloca-o em placard junto à porta de um dos dois gabinetes médicos de triagem, e começa a espera. Ninguém parece ter pressa, nem as enfermeiras, seguras e empertigadas que andam para trás e para a frente como se estivessem atarefadas, nem as auxiliares que se juntam em grupo, galhofeiras, nem os raros médicos, aparentemente desocupados, todos indiferentes ao sofrimento das pessoas que agonizam no corredor degradado, na acanhada sala de espera tão apinhada de macas que ao movimentá-las chocam entre si e provocam gritos de dor a jovem acidentado, cabeça envolta em ligadura ensanguentada, há horas ali, esquecido por todos excepto por senhora discreta, elegante Olha a tua professora de Inglês, diz mãe para miúdo que passava sem a ver, ou porque, como os outros miúdos, há muito deixou de conhecer as professoras, ou porque a febre lhe embotou o discernimento.
Passam sonolentas as horas, chegámos pelas quatro da tarde, são quase duas da manhã, cabeceio com sono, imagino-me a mim mesmo estendido numa daquelas macas, agonizante talvez, esquecido por todos de que estamos nas Urgências, quem o diria com tamanha demora, com tanta calma dos profissionais. Em que pensarão os doentes, a sofrer silenciosamente, apenas o ferido na cabeça chora baixinho? Talvez, mais do que viver ou morrer, desejem que aquele purgatório acabe depressa, arrependidos de terem vindo ao hospital, melhor morrer em casa, a sós que seja, que naquela sala de espera, de solidão e indiferença atrozes.
A minha mãe chama-me, contorno as macas, desvio o olhar dos rostos marcados pela fealdade da doença e da velhice, assim serei eu, assim seremos todos um dia, uns de olhos fechados, outros de olhar vazio fitando o branco sujo da parede, Como está agora? Abana a cabeça com indiferença, sussurra, a voz minada pela fraqueza e quase inaudível devido à traqueostomia: — É tarde para ti, vai-te embora! É tarde, sim, amanhã tenho aulas às oito, e para além delas, que são o meu trabalho, as inevitáveis aulas de substituição dos jovens professores que incapazes de aguentar as suas turmas se baldam, deixando aos velhotes como eu o inferno de aguentar na sala os seus alunos, sem plano de aula, sem perceber nada das respectivas disciplinas.
Não a abandono, há um ano e meio que andamos os dois nesta vida, peregrinando de hospital em hospital, de urgência em urgência. Eis que finalmente nos chamam, primeiro para a triagem, depois para a consulta, é ainda preciso aguardar pelo resultado dos exames, das análises, que finalmente chegam.
Está tudo bem.
Mas, doutor, e recordo o historial clínico da minha mãe, Veja o estado em que está!
Como se sente, dona Isabel?
Mal, sussurra, e eu falo novamente da traqueostomia, dos meses entre a vida e a morte nos cuidados intensivos de Santa Maria após cirurgia de quatro horas, uma das quais com o coração de fora, no gelo, a derrame da aorta pleural, a infecção por bactérias resistentes aos antibióticos...
A sua mãe tem oitenta anos...
E o Manuel de Oliveira mais de cem...
As pessoas não são iguais.
E termina a consulta com a recomendação de que beba muita água. Tanto sofrimento, da minha mãe e algum meu, tantas horas de hospital, para receitar mais água?
Quantas urgências, quantos hospitais conheci já? Em quantas não passámos horas infindas, de espera insuportável? Leiria, em pavilhão pré-fabricado, apesar de o hospital ser novo. Ampla sala de espera, pistas de cor, amarela, vermelha, azul, consoante a gravidade diagnosticada na triagem, feita por jovem enfermeira na galhofa com os maqueiros, sem prestar atenção às respostas que eu lhe dava; Alcobaça, pequeno hospital da Misericórdia, tão pouco misericordioso como os outros, a mesma espera, as mesmas macas amontoadas em qualquer espaço livre, as enfermeiras divertidas a verem no computador as fotos das férias de uma delas; Santa Maria, sentado no chão do corredor por falta de cadeiras, com a Ana e a Sofia, na penumbra, à espera que por ali passasse o cirurgião com informações da operação ao aneurisma da aorta, depois meses à porta dos cuidados intensivos, de cheiro agoniativo, entontecedor, na esperança de fugazmente poder ver a minha mãe ligada à maquina, ciente de que podia ser a última, a piorar de dia para dia, – Mãe, sou o Zé, conhece-me? Vago gesto afirmativo, talvez apenas com o olhar, e eu falo, falo, sempre as mesmas conversas, invento, minto, mesmo que pareça ter adormecido, fico até ter de sair a mando da enfermeira ou porque se esgotaram os breves minutos da visita, ou porque soa o alarme de uma das máquinas, ou porque a minha mãe está novamente engasgada com muco, a precisar de ser aspirada...
Horas de viagem, horas de espera, para trazer algum alento: Mãe, não se deixe morrer, precisamos de si! E por resposta, aceno de mão a revelar desinteresse por tudo, vida e morte...
Tubo no nariz, tubo na garganta trasqueotomizada, máscara de oxigénio, mostradores a indicarem perigosa falta de oxigénio no sangue, ou ritmo cardíaco, ou tensão arterial elevada, ou sei lá que mais, naqueles aparelhos que tento decifrar, como tento decifrar a conversa enigmática das enfermeiras, talvez não saibam, apenas cumpram as indicações dos médicos, e estes também nada sabem, há que esperar...

Telefona-me a dona do lar com rodeios. Interrompo-a: a minha mãe morreu? Confirma.
Acrescenta pormenores. Estava de pé, agarrada ao lavatório. Caiu, deitaram-na na cama, vomitou. Terá sido como conta, suponho. Nenhum de nós lá estava. E o médico está de férias, virá à noite para passar a certidão de óbito.

() Caminhamos silenciosos atrás do carro funerário, quase um quilómetro e a subir, o calor aperta, lembro-me de que no funeral do meu pai, dezanove anos antes, o padre rezava altas vozes o padre-nosso. No cemitério a emoção vai e vem, só quero que tudo acabe depressa, sofri a agonia durante ano e meio, sofro a sua morte há já três dias, anseio por alívio, esquecimento. Censuro o meu egoísmo, recordo que de cada vez que peregrinei para as Urgências quase recriminava mentalmente a minha mãe por me fazer sofrer, por perturbar a minha rotina com as suas doenças que os médicos não diagnosticavam, ou diagnosticavam erradamente, minimizando-as, e eu então quase lhes pedia desculpa pelo incómodo, e agradecia veementemente, em vez de censurar a ignorância ou o desleixo com que a observavam... Acreditava neles porque era o que queria, o que me convinha, para que tudo continuasse na mesma... Afinal, quem tinha razão era a minha mãe: Está tudo a acabar! É o fim... E repetia com a certeza de que Julho é fatal para a nossa família: Julho é ladrão...Em Julho acaba tudo!

FOTOS: no lar, com a Sofia e eu, a 16 de Junho. Morreu a 22 do mês seguinte.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Causas próximas do desconcerto em que vivemos

[A cena que se segue, pouco anterior à entrada do nosso país no Euro, faz parte de um longo conto meu, distinguido em concurso no ano passado. Leiam-na como e se vos aprouver, mas sugiro que, como num jogo, estejam atentos a causas do nosso desconcerto actual.]
"Já o Pedro e a Soraia nos esperam na esplanada, cerveja e tremoços amenizam o final da tarde, indolente como o teleférico ao fundo, como o Tejo que mansamente, imperceptivelmente, segue o seu destino, como as gaivotas que planam sem esforço, esganiçando-se estridentemente, imitadas, na mesa do lado, por umas donas da província, gente que aproveita o comboio para vir passear à capital e comprar vestuário da moda para os rebentos — esses índios que brincam à apanhada por entre as mesas, aperaltados em roupa de marca, Zara e afins.
“Imperiais também para nós, faz favor!”
A minha mulher cumprimenta lisonjeira a Soraia: “Que elegância!”
“É um Valentino, e pavoneia o vestido. Colecção deste ano.”
“Caro?”
“Um pouco. Mas o que importa é o gosto que proporciona.” — responde ufano o Pedro. Pega nas mãos da companheira como se estivesse em baile e a convidasse para dançar, roda-a de pé, para que apreciemos mulher e vestido no seu esplendor. Reconheço: num corpo daqueles qualquer trapo resplandece; e o Pedro sorri orgulhoso da sua mulher — boa, bem vestida, tudo a preceito, tudo conforme a moda da estação.
O Rodrigo e a Leonor chegam e interrompem sorridentes a exibição, ele com assobio galante, ela batendo as palmas entusiasmada: “Lindo. E fica-te a matar!” E procura com o olhar os outros amigos: “A Soraia e o cujo?”
“Ah, não podem vir, ele tem uma reunião hoje à noite, conselho de turma ou lá o que é...”
“Coitados dos profs, trabalham tanto!”, troça a Leonor. E nem ouve a resposta, deslumbrada com a beleza do vestido da Soraia, que tão bem realça a elegância da proprietária. Também ela e o Rodrigo vestem caro, vivem ricamente, viajam frequentemente. É o boom bolsista, volfrâmio dos nossos dias na forma de fundos comunitários a entrar diariamente a rodos no país, que permite este esbanjamento, esta ostentação, escandalosa aos olhos dos nossos pais: férias frequentes em países de sonho, palmares e praias de águas quentes, mergulho por entre corais, raias e tubarões, festas onde há sempre personalidades do jet set, massagens relaxantes, vestuário de autor, telemóveis e óculos de sol a centenas de contos, gadgets, carros e jipes topo de gama — um povo obcecado em fazer desaparecer vestígios da miséria ancestral, em trocar os tamancos paternos por sapatos Prada, disfarçar o fedor ancestral a estrume com perfumes franceses, olvidar o caldo e a broa dos avós na degustação de pratos artísticos nos restaurantes mais badalados pelas revistas do jet-set e estrelados pelo guia Michelin...

“Vamos ao Brasil nas próximas férias”, conta o Rodrigo. “Para o Nordeste.” E alarga-se já por essas infinidades de dunas e praias de águas azuis, boa comida, aventuras de Jipe pelos pantanais das telenovelas.
Ouvia-os, divertia-me com as suas histórias, o exotismo e a excentricidade seduziam-me também — como à minha mulher, sempre a sonhar com águas quentes e cristalinas, areais a perder de vista, hotéis requintados, mas o nosso rendimento familiar, embora bem acima da média, nem sempre nos permitia acompanhá-los.
O Pedro admirava-se da minha relutância em jogar na bolsa: “Não sabes o que perdes.”
“Também tenho umas acções”, justificava-me.
“Não, ter umas acções”, e imitava o meu tom de voz, “é como fazer um depósito a prazo: seguro, sem dúvida, que mais facilmente cai a serra da Estrela do que irão à falência estes bancos que por aí brotam, BPN, BPI...”
“Criados por políticos…”, acrescenta a minha mulher, e ele continua como se não tivesse sido interrompido: “Com as acções, o importante é comprar e vender. Depressa, em vez de as guardar.”
E discutimos esta promiscuidade entre política, banca, negócios, que assegura a rápida prosperidade de alguns, mas me parece pouco ética. Nasci em família remediada, com princípios morais, trabalho e honestidade, o que explica os meus excessos de prudência, a relutância em jogar na bolsa: “Vender produtos seguros para comprar outros, de valor incerto, não me entusiasma. É absurdo os títulos de uma empresa caírem quando tem lucros e os de outras, que nunca os tiveram, valorizarem constantemente…”
Conversa de comunista. Se queria endireitar sozinho o Mundo em vez de dele fruir, criticava a Soraia, secretária bem paga de uma multinacional: “As acções sobem e descem ao ritmo da oferta e da procura. São as leis do mercado. E toda a gente joga na bolsa se tiver com quê.”
“E precisa? Os bancos estão desejosos de emprestar dinheiro a quem quiser arriscar. Ganham eles, que capital parado não rende, ganham os clientes com as mais-valias, ganham os gerentes, que assim podem atingir os objectivos fixados.”
Eu, como sempre acontece nestas discussões, vacilava. Não eram tanto as frequentes viagens de sonho, as roupas de marca, os gadgets topo de gama que me deslumbravam. Mas há tanta coisa que me seduz e está fora do meu alcance: um jipe para a mulher, que os adora e deixaria de depender de mim para os transportes, um apartamento maior e melhor, se possível com vista para o rio, umas obras em casa dos velhos... Ela, no regresso a casa, invariavelmente insistia comigo: “Tens de investir em acções.”
“Em quais?”
“Sei lá. São assuntos de gajos, como o futebol e a política. Pergunta aos teus amigos o que deves comprar.""

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Os segredos de Jacinta, Cristina Torrão

Cristina Torrão teve a amabilidade de me convidar para apresentar amanhã na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa, o seu último romance, Os segredos de Jacinta. Aqui fica o convite. Em breve coloco aqui uma nota de leitura sobre esta obra apaixonante, que se lê, como eu a li, de um fôlego.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Podia ser uma parábola

Por vezes, raramente, o meu pai contava-me algumas das terríveis provações e privações dos seus primeiros tempos de emigração, no final da década de sessenta, a labutar nessa Holanda gelada, de língua incompreensível, costumes e alimentos estranhos, apinhado com dez companheiros no quarto, a forrar cada florim, cada cêntimo e a despachá-los para Portugal para sustento da família, pagamento de dívidas, os meus estudos, o começo de uma poupança.
Um dos colegas, lisboeta, queixava-se das cartas da mulher, sempre com exigências impossíveis, como se ele nadasse em dinheiro e, em vez de dezasseis horas diárias em dois empregos, passasse a vida na farra. Afinal, onde, como, é que ela gastava tão depressa o que lhe enviava -- praticamente tudo o que ganhava? E estranhava que os colegas não se queixassem de mal idêntico: -- Não sei o que é que ela faz ao dinheiro, aquilo é chapa recebida, chapa gasta!
Veio de férias. No regresso, desiludido, lamentava-se do desafecto, do desamor, do desprezo dos filhos, crianças de tenra idade, que o mimavam constantemente com insultos raivosos. Do dinheiro enviado à custa de tanta privação, de tanto trabalho, nada. Evaporara. Mais: evaporava tão depressa que nunca chegava até ao final do mês. E soube: quando acabava e mais não havia até à próxima remessa ainda distante, a mulher reunia os filhos esfomeados em frente à fotografia do marido e ensinava-os:
-- Ladrão! Gatuno! Tu aí a esturrar tudo com as putas e nós cá a passar fome! Chulo! 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Agradecimento

A Cristina Delgado, que publicou no blogue O tempo entre os meus livros o meu texto "Do vento e do barro" e uma foto da capa do romance Entre Cós e Alpedriz.
Muito obrigado!

domingo, 15 de junho de 2014

Primeiro dia de praia

Encontro a praia como gosto: envolta em nevoeiro, mar bravo, bandeira vermelha. Começo com passeio pela beira-mar, seguindo o conselho do meu amigo Maurício para o menisco: caminhar em
terreno mole. Está calor, apesar de não se ver o Sol. Quando me afasto o suficiente, ocultado pela neblina, começo o meu ritual: sorvo a maresia, sinto no trovejar da rebentação das ondas
desencontradas a potência do Atlântico, fosse eu dado a tretas eruditas e falaria do rugir de Posídon, o Sacudidor da Terra homérico, mas o que me interessa é puxar até mim a sua força, concentrá-la no meu centro, o hara em japonês, e a salvo de olhares indiscretos começo a minha oração, a minha tokui-gata, Hangetsu, kata respiratória, caracterizada por movimentos lentos e em força na primeira parte, explosivos na segunda. Com a tensão que crio na parte inferior do corpo os pés afundam na areia, óptimo, que eu seja por instantes um com o areal, com o mar, com o nevoeiro, com a maresia, que todos os meus sentidos participem na execução da kata, que o meu pensamento se esvazie, que os meus movimentos tenham a firmeza da terra, a força do mar.
Ah, tudo o que é bom acaba depressa, nem pensar em repetir, aproximam-se banhistas em corrida, levantou-se uma brisa que dispersa a cerração, e eu, feito pessoa normal, daquelas que têm os cinco alqueires bem medidos, pois eu caminho de regresso à toalha, onde o sossego é difícil por entre o bater constante de bolas dos desportistas de fim-de-semana.

sábado, 14 de junho de 2014

Entre Cós e Alpedriz

António Severino publicou no seu blogue Kontestu uma nota de leitura sobre o meu romance Entre Cós e Alpedriz.

Muito obrigado!

domingo, 8 de junho de 2014

Ciclo Preparatório

Certificado de conclusão do ciclo preparatório do ensino técnico profissional. Tinha 12 anos, terminei com belas notas, raras na época, a Língua Portuguesa e a Ciências, mas insuficientes para manter uma das bolsas de estudo, perdida, segundo anotação ao alto, logo no primeiro ano. Era preciso ter média de 14 e então os professores não davam notas para ajudar o aluno, como o 10 a Desenho evidencia...
Aliás, recordo-me, a média subiu e muito com o exame, em que dei espectáculo na prova oral, enchendo de orgulho o meu pai, que estava na assistência. Eu, de pé no estrado, cinco reis mal medidos de gente, respondi com segurança a tudo. A questão final foi algo como: "Quais são as marés que conhece?"
"Preia-mar e baixa-mar."

E o professor Eurico, por nós alcunhado Eurico Burrico, que tinha entrado com pauta para o júri assinar, quebrou a solenidade do exame e pôs a assistência:às gargalhadas ao responder-me:"Bai xamar pai a outro!"

terça-feira, 3 de junho de 2014

Quarta classe

Há momentos marcantes na nossa vida. Para as pessoas da minha geração, a conclusão da quarta classe é um deles, e marcava também o fim da infância. No meu caso, fui um privilegiado: com duas bolsas de estudo, uma que a professora primária arranjou, outra que o meu pai conseguiu, da Caixa de Previdência, pude ir estudar, o que implicou sair de madrugada, voltar ao cair do dia nas velhas camionetas de carreira, mais tarde hospedagem em Leiria, vindo a casa uma ou duas vezes por mês. Destino pior, muito pior tiveram os colegas cujos pais não tinham possibilidade de os "pôr a estudar", os rapazes a aprender ofício ou a agarrar a enxada de pontas, as raparigas a serem as criadas das casas maternas, até que, por casamento, tivessem o seu próprio lar.
Fomos com a professora na camioneta, eu, o Zé “Chaparrinha”, o Fernando “Balias” “Escabelado”, o Ildefonso “Mitadá”, o Zé “Cristo”, outros que por serem já ricos não tinham direito a alcunhas. Dias depois a professora ficou uma fera por lhe ter constado que um dos que andava na Admissão, espécie de explicações para preparar o exame de admissão às escolas técnicas e aos liceus, tinha errado um problema. Éramos apenas dois, eu e o meu primo Zé, e ele pagou as favas, com tareia de caixão à cova. Quando a professora soube que afinal eu é que tinha errado o problema, bom já tinha feito justiça, aliviado a fúria, e mais uma vez escapei incólume, graças à minha Sorte, que, reconheço, me tem acompanhado vida fora e espero me não abandone tão depressa.