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segunda-feira, 31 de março de 2014

Os novos profetas

Cresci por entre superstições, agoiros, sonhos, premonições. O piar da coruja, o uivar de cão, a árvore que floria fora de tempo. Sonhar com água, ter o mesmo sonho três noites seguidas. O que se fazia, e era pecado, o que não se fazia e pecado era. Tudo indícios que, devidamente interpretados, permitiam adivinhar o futuro, decifrar os seus enigmas, explicá-lo até a partir de relações de causalidade que hoje fazem sorrir: sete anos de azar por ter acidentalmente matado um gato, morrer por ter comido laranja à noite, cobra na barriga por ter engolido cabelo, carne estragada por causa da Lua, pão que não levedava por faltar ao fermento a oração "em nome do Anjo Bento eu te acrecento...
Hoje recordo esses vestígios de animismo com um sorriso, alguma nostalgia, muita ternura. Porque se revelavam fraco conhecimento do Mundo e das suas leis, representavam um esforço para o compreender, para reduzir o acaso nas nossas vidas. E havia neles poesia -- como seriam as tragédias sem oráculos, presságios, sinais?
Pois tudo isso quase desapareceu na actualidade. Mas deve fazer muita falta, pelo menos a jornais e "cientistas" sociais, a crer na proliferação de notícias catastróficas com que uns e outros diariamente nos enchem os ouvidos. As pragas de gafanhotos bíblicas deram lugar a catástrofe demográfica, com o país quase deserto em 2060, as vacas magras e os anos de seca a picos de calor no Verão e inundações no Inverno... Que falta de imaginação, senhores cientistas! E de cultura! Leiam a Bíblia, aprendam o que é verdadeiramente uma praga. Já não digo para estudarem História, porque, então, perderiam a fé na galinha dos ovos de ouro que vos alimenta, essa que por ovos põe catástrofes ambientais. E estudem um pouco fora dos vossos cânones. Quanto mais não seja para saberem que catástrofes de dimensões bíblicas são, infelizmente, comuns na história da Terra. Mesmo quando não havia homens a causá-las! E quando proferirem uma afirmação, por maior que seja o vosso grau de certeza, nunca esqueçam que a ciência é o terreno das dúvidas, por isso as asserções devem ser devidamente modalizadas. Por exemplo, em vez de afirmarem que vamos ter picos de calor no Verão poderão dizer que é possível que venhamos a ter situações de calor anormais para a época, tendo em conta os padrões actuais... Em vez de preverem que os oceanos vão subir não sei quantos metros, poderão dizer que é possível que os oceanos regressem a níveis superiores aos dos últimos anos.
Porque o povo não é parvo. Pode ser enganado, e é-o frequentemente, mas tarde ou cedo dá pelo logro. E ri-se de vós.
Por enquanto, somos poucos, pessoas que, como eu, que já apanharam muita chuva pelas costas, cozeram com o calor de certos estios, tremeram com o frio de alguns janeiros, viram cheias, viveram secas, aprenderam que a natureza tem ciclos que o homem desconhece -- que talvez dependam da precessão dos equinócios, ou das manchas solares, ou da actividade vulcânica: lembro-me da erupção de um vulcão nas Filipinas que terá enviado para atmosfera muito mais poluentes do que homem desde o início da revolução industrial. E obrigou os americanos ao impensável, abandonar a base militar de Clark. Mas imputar a causa dos cataclismos a fenómenos naturais não dá pão a ninguém...
Não me ralhem. Reciclo o meu lixo como certamente nenhum de vós o faz. Os restos de cozinha vão para a capoeira, daí para a estrumeira, depois voltam à terra do quintal. Protejo as minhocas, alimento os passarinhos, faço desporto de pé descalço. Só me irritam as vossas profecias, tão sem imaginação, tão sem poesia que não as consigo tolerar. E atrevo-me a fazer, eu mesmo, uma previsão verdadeiramente catastrófica. Ponderem-na, adoptem-na se quiserem, afinal já me aconteceu mais do que uma vez  ler-me em blogues alheios sem me ver citado. Aí vai.
No seu extraordinário A Universe from Nothing, Lawrence M. Krauss, procura evidenciar como o Universo pode ter surgido do nada. Porque, sustenta, com base em princípios e leis da Mecânica Quântica que eu não entendo, "o nada é instável." Pelo que assim como o Universo terá surgido do nada instantaneamente -- já estão a ver, não é? -- pode desaparecer instantaneamente, e nós nem sequer daremos por isso. Apenas, como na definição de morte de Saramago, estamos e deixaremos de estar.
Esta sim, é catástrofe digna de teses, parangonas de jornais. Agora calor no Verão, inundações no Inverno... Tenham imaginação, senhores!

quinta-feira, 27 de março de 2014

A verdade da ficção

É na ficção que ponho toda a verdade, e surpreendem-me por vezes dúvidas de leitores questionando a verosimilhança de certas situações, tão verdadeiras que lhes parecem inacreditáveis. Mas a verdade tem de ser entendida como a verdade da ficção. Veja-se, por exemplo, o excerto seguinte, extraído de Entre Cós e Alpedriz. Não há nele nada que não seja rigorosamente verdadeiro. E, no entanto, todo ele é ficção.
"Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se  e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante...
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo."

quarta-feira, 26 de março de 2014

Vossa senhoria meu alferes

À tardinha, a cidade coloria-se com o verde das fardas quando os soldados que não estavam de serviço nem castigados tinham "passaporte" para sair — só quem fez a tropa naqueles anos pode compreende a ânsia, igual talvez à do presidiário, de sair um pouco do quartel e esquecer por umas breves horas o serviço militar obrigatório.
Eu tinha uns dezasseis anos, frequentava o último ano do curso comercial e o meu companheiro, trajado à civil, contava-me orgulhoso a sua tropa, a querer impressionar-me, desejoso de conseguir a minha admiração, mostrar-me que era o senhor alferes e não o estudante tímido, discreto, educado, simpático, que terminara o liceu no ano anterior. Ao passarmos por pequeno grupo de recrutas agarrados aos apontamentos, a marrarem para não acabarem atiradores nas matas da Guiné, provoca-os:
— Estou farto destes gajos! É só feijão verde!
A injustiça sempre me repugnou.  Puxei-o pelo braço, a tentar afastá-lo, mudar de conversa. Sem sucesso. Ele insistia nas provocações.
— Muito estudam estes caralhos!
Um soldado resmunga protesto entre dentes.
E ele inchado como sapo: — O quê? Você sabe com quem está a falar? E puxava da carteira, a identificar-se como oficial da odiada Polícia Militar, para me mostrar o seu poderio, a sua capacidade de humilhar, de obrigar o pobre soldado a rebaixar-se.
Afastei-me enojado. E nunca mais lhe falei.

domingo, 23 de março de 2014

Quarenta anos

Quarenta anos, comemorados hoje, separam as duas fotos de cima da de baixo, tirada ontem. Entre ambas, o nosso casamento. Parafraseando Jacques Brel (La chanson des vieux amants), precisámos de muito talento para ser velhos sem ser adultos:
Finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes



quinta-feira, 20 de março de 2014

A má moeda

Enquanto compro o pão no café da aldeia conto à dona como, era eu pouco mais velho do que o filho, fui enganado pela primeira vez: vivíamos em Chaqueda e um cliente levou o pão sem pagar. E acrescentei, enquanto pagava com moeda de dois euros: -- De então para cá. não têm conto as vezes em que me enganaram!
Ela volta atrás, sorridente: -- Por falar em enganar, esta moeda é falsa!
Tiro os óculos para a examinar. De facto, é diferente. Pago com nota e saio perturbado. Não fabrico moeda falsa, alguém ma deu -- no Entroncamento, pois tinha acabado de chegar à aldeia. Como poucos pagamentos faço em dinheiro, depressa sei quem. Só não sei se passou de boa fé a moeda falsa, ao dar-me três euros de troco, se aproveitou a minha confiança para me enganar, livrando-se de prejuízo e da vergonha de ter sido ludibriado.
Uma coisa é certa: esse comerciante, em quem confiava, a quem dava a minha amizade, perdeu um cliente de longa data. Porque me parece pouco provável que ao arrumá-la e ao retirá-la depois da caixa registadora não tivesse desconfiado dessa moeda que até tem toque diferente -- explicou-me depois a dona do café.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Hoje falo de batatas

Conversa que a poucos interessa. E esses não lêem blogues. Aí vai.
Dez quilos de Kondor e vinte e cinco de Picasso (foto de cima, já cortadas). Que plantei ontem, e ainda semeei um quilo de feijão Catarino e mais meio quilo de grão-de-bico. Não surpreende que hoje esteja exausto. É que abri os regos com o tractor, mas tapei-os com a enxada de pontas. A terra, ainda muito molhada, colava-se à enxada, às botas, tornando esgotantes as numerosas caminhadas sobre a terra já fresada (foto de baixo). E o calor empapava-me em suor. Enfim. É o trabalho do campo, que nada tem a ver com a poesia dos regressos à terra que o presidente da república agora incentiva, ele que bem contribuiu para a destruição da nossa agricultura. Ou, se poesia tem, é a de Cesário Verde:
"Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.
A nós tudo nos rouba e dizima:(...)"
Cultivo batata de sequeiro porque é muito mais saborosa, se conserva melhor -- e não preciso de a regar. A escolha da data de plantação é um exercício complicado a que me entrego todos os anos, e envolve a observação do estado da terra, a informação meteorológica, o meu instinto.
Agora é esperar que os javalis não me destruam o trabalho, que do Céu venha o Sol e a chuva quando necessários. Para mim, ficam as sachas, as curas, a arranca, a armazenagem, numa guerra constante com a traça, a que na minha terra chamamos fia-maria.
Não me perguntem se compensa, se vale a pena. Sabem a resposta. Mas não me guio por critérios interesseiros em nada do que faço. Faço e pronto. 

terça-feira, 11 de março de 2014

11 de Março de 1975

Nesse dia os spinolistas fizeram um golpe de estado: os caças-bombardeiros Fiat G 91 atacaram o RALIS, quartel revolucionário, depois pára-quedistas recentemente chegados das colónias cercaram o quartel. Alguns mortos, um diálogo improvável e surrealista entre os respectivos comandantes, levou a melhor o barbudo Durand Clemente e logo começou contra-golpe que conduziu ao poder os militares afectos ao PC.
Eu estava a terminar a minha recruta, como já aqui contei, em texto que reponho. Bons tempos, não voltei a ter vinte anos -- os três vintes estão próximos.


No dia 11 de Março de 1975, tinha eu vinte anos e fora incorporado no exército em Janeiro desse ano. Fazia a minha recruta no Regimento de Infantaria de Leiria (RI7) como instruendo e ia começar a minha semana de campo. Na véspera, fomos informados dos planos: ao alvorecer, chegariam helicópteros, embarcaríamos e seríamos lançados numa pista de técnica de combate, em condições muito próximas do combate real nas colónias. Formámos na parada, equipamento completo (farda nº 3, arreios, cantil, carregadores vazios, G3, etc.) e ficámos horas a olhar para o céu, à espera da chegada dos hélis, um pouco assustados, que a guerra nunca é uma brincadeira, mesmo em treinos. A meio da manhã, sem esclarecimentos, mandaram-nos marchar e atravessámos a cidade ao toque de tambores, algo vaidosos, o trânsito interrompido à nossa passagem, quatro companhias, rumo aos Marrazes. Ainda de longe, ouvíamos já o estrondo grave do rebentamento das granadas, o matraquear das metralhadoras, os tiros constantes das espingardas G3, até o som amaricado de uma ou outra pistola-metralhadora Vigneron. As ordens chegavam já berradas, Tá a formar em bicha pirilau! Corram! E nós corríamos, sem saber para onde, atrás do camarada da frente, por entre o chinfrim infernal e o cheiro da pólvora. Então o da frente estaca, detenho-me também, passa camarada enlouquecido, sem que o furriel ranger que o perseguia o conseguisse deter, coxa a jorrar sangue às golfadas: tinham-lha furado com bala real. Gritam-nos para continuar, perco o medo, se já lixaram um vão ter mais cuidado com os outros. E corria por cima de troncos sobre riacho enlameado ainda com muita corrente, rastejava por debaixo do arame farpado enquanto assobiavam balas (o tiro estava regulado em altura, não devíamos levantar a cabeça, por isso a afundava na lama, já nem ligava aos tiros, era certamente munição de salva, nem às granadas de treino, azuis, que lançavam de todos os lados, inofensivas como bombas de São João, e liberto do arame farpado corria pelo leito do riacho, sempre por entre a berraria de oficiais e furriéis, ouço um gritar O pequenino é o melhor, então surge-me pela frente um tenente e lança uma granada ofensiva bem para cima de mim. Mergulho no lodaçal, estoira a granada, só quem já assistiu sabe do poder do estrondo, da violência do sopro, de resto são inofensivas, levanto-me prontamente para continuar a correr por ali abaixo, mas o braço direito, sempre segurando a G3, estava imobilizado. O tenente puxa-o, parece voltar ao sítio, continuo, só mais tarde soube que tinha uma lesão para o resto da vida. E subitamente tudo acaba para mim, camaradas do meu pelotão recebem-me risonhos, estamos felizes, sobrevivemos, não fugimos, não chorámos, abençoados palavrões, por isso nunca os desperdiço. Correm boatos: há guerra em Lisboa!  A disciplina prevalece, obedecemos às ordens, formar, marchar, começar novas e extenuantes provas, sempre debaixo de berros, tiros, explosões. À noite, para dormir, manta reles, um pano de tenda, com quatro faz-se um bivaque, o frio e a humidade são terríveis, os camaradas de "quarto" vão para uma fogueira, eu, doido com sono, morto de cansaço, durmo ali, sobre água que corre pelo chão, enregelado, a custo me despertam para o meu turno de sentinela, nevoeiro de cortar à faca, que guardo eu ali, no pinhal, sem uma única bala no carregador?
À alvorada, formamos e regressamos ao quartel, a semana de campo durou um dia, não tocam bélicos os tambores, marchamos como vencidos, envergonhados, para não atrair a atenção do povo. No quartel, contam-nos factos e boatos, ninguém sabe bem o que se passa, parece que os pára-quedistas atacaram o Ralis nos nossos helicópteros, há mortos e feridos, e olhamos constantemente para o céu, receosos de que desçam sobre nós, discutimos se os tentamos abater no ar ou os deixamos poisar primeiro, os corpos tremem, é frio, é medo. Grita fora o povo, somos fascistas e não o sabíamos, mandam-nos para a carreira de tiro interior fazer fogo com as HK21, na esperança ingénua de que o matraquear das metralhadoras afugente a multidão. À noite, mais boatos: os americanos preparam-se para desembarcar nas nossas praias, é a contra-revolução fascista do Spínola que aí vem. E um furriel, apavorado, pede-nos aguardente, vai sair com uma companhia de prontos para defender a Praia da Vieira de ataque iminente dos marines
Na manhã seguinte, 13 de Março, andamos em pequenos grupos pela parada, nenhum oficial aparece, os furriéis sabem tanto como nós, e desce um héli, não são pára-quedistas, são jovens oficiais, muito jovens, com patentes demasiado elevadas, que logo reúnem com o comandante. Acabamos por saber que foi demitido, o povo está com o MFA e tretas do género, eis que chega a época dos comícios, dos oficiais de aviário, ontem eram alferes, hoje são majores, começam os fins-de-semana cortados por prevenções rigorosas que vem aí o espectro da contra-revolução e esses valentes oficiais juram punho erguido que então morrerão com as botas calçadas a combatê-la – para se esconderem cobardemente no 25 de Novembro, mas essa é outra história, em que também estive envolvido, bem contra vontade.

domingo, 2 de março de 2014

Leituras deste Inverno -- Ana Karenine

Todos conhecem a frase de abertura, mas quantos terão prosseguido para além dela, até à última das 735 pp. (introdução incluída) de letra miudinha? Ana Karenine não é obra a devorar apressadamente, numa ânsia de saber como termina, o que, aliás, nem é difícil de prever. Pelo contrário, adapta-se a leitura lenta, por prazer, saboreada capítulo a capítulo, frase a frase. Sublinho:

  • Com personagens a propiciarem caricatura, Tolstoi evita o caminho da facilidade, e não as expõe demasiado ao ridículo. Que diferença, por exemplo, do nosso Eça, que escreve sobre o mesmo período histórico e idêntico meio social. Recordo que em Os Maias, tirando a Maria Eduarda e a mãe, nenhuma das numerosas mulheres é bonita, interessante ou inteligente; nem a Gouvarinho é, sequer, sexy... Quanto aos homens, exceptuando Afonso, também nenhum se aproveita. Os ambientes são quase sempre rascas, conformes à tese de que Portugal é uma choldra e, consequentemente, os portugueses e portuguesas são criaturas socialmente inúteis, fúteis, feias, ignorantes, mesquinhas, e de mau gosto. Lá fora, na Inglaterra que sofre com a revolução industrial, na Paris que esmaga no sangue a Commune é que é bom.
  • A fina análise psicológica das personagens, das suas contradições. Nada inferior a Dostoievski, frequentemente apontado como rival. Não apenas de Ana e do amante, o conde Vronsky, mas também do marido de Ana, de Kitty, do extraordinário Levine, talvez o verdadeiro protagonista, até de personagens secundárias como Sérgio.
  • A economia da narrativa, persistente em obra tão longa. Nela não há nada que eu cortasse. Os eventos e as falas ocorrem com naturalidade, sem truques fáceis, nem soluções do tipo Deus Ex Machina.
  • A reflexão sobre as questões pessoais, sociais e nacionais, registando direito e avesso, embora frequentemente seguindo o ponto de vista angustiado de Levine.
  • A descrição minuciosa do labor agrícola, só possível em quem muito nele transpirou.
  • A descrição fascinante do trabalho dos cães de parar na sempre difícil caça às narcejas nos pântanos.
  • A tremenda, terrível, reflexão sobre a condição humana a que procede Levine após a morte do irmão e que quase o leva ao suicídio, apesar da felicidade em que vive com o casamento e a paternidade. E a descoberta que faz, embora, infelizmente, eu a não partilhe. Como seria bom ter a fé que Levine encontra! 
Escrever, e parafraseio Roland Barthes, é resumir o porquê no Mundo num como escrever.  Fê-lo Tolstoi em Ana Karenine, fê-lo nas suas outras obras, da juventude à velhice. É esse o meu desiderato, apesar de me faltar o seu talento e a sua capacidade de trabalho. Conseguirei realizá-lo? Duvido muito. Mas só assim -- reflectindo sobre o porquê do Mundo e a condição humana, num trabalho formal doloroso, aplainando como carpinteiro cada frase, escolhendo cada palavra -- me interessa escrever. Mesmo que, fazendo-o, venha a ser o meu único leitor. 

sábado, 1 de março de 2014

Leituras de Inverno

As minhas leituras são de todo o ano. E nestes invernos longos, à antiga, já sem testes para corrigir nem aulas para preparar, ou planos inúteis a elaborar e relatórios estúpidos a escrever, tenho ficado  pela sala a ler, no aconchego do recuperador de calor, sem grande vontade de subir para o escritório, onde apenas modesto termoventilador me aquece os pés...
Leio, já aqui o disse, por duas únicas razões: o prazer e a aprendizagem. O que, na literatura, me conduz inevitavelmente aos clássicos.
Ora os clássicos, diz-me pessoa sábia, leram-se na mocidade. Hoje é tempo de ver o que escreve este ou aquela. De estar actualizado. De, também nas leituras, seguir a onda.
Mas, com tanto clássico neste Mundo, quem terá conseguido lê-los todos na juventude, até porque alguns só recentemente foram traduzidos? E, admitindo que se leram, não nos terão escapado interpretações fundamentais, por falta de experiência de vida, sabido que a leitura é recriação — são recriações — da obra? Ler, por exemplo, o Amor de Perdição aos quinze anos não é  mesmo que lê-lo aos trinta. O leitor adolescente, ofuscado pelo triângulo amoroso Simão, Teresa, Mariana poderá não ter olhos para o resto, aquilo que faz desse romance uma obra-prima: a linguagem, a economia da narrativa, o humor, o realismo das personagens secundárias, a recriação dos ambientes da época, a grandeza do ferrador João da Cruz, pai de Mariana...
Boas razões, parece-me, para ler ou reler os clássicos passada a juventude. Embora haja consequências: em confronto com essas leituras pouco do que se escreve actualmente resistirá.
Conversa de velho, daqueles que sempre dizem  "antigamente é que era bom"? Talvez. Falta de sentido de humor? Seguramente. O que é certo é que as amostras que descarrego dos livros mais badalados, na LeyaOnline, na Wook, na Amazon, raramente me motivam para comprar a obra. Matteo perdeu o emprego. Excelente título, de autor de quem muito aprecio outras obras. Pois deixei o Matteo a correr pelas rotundas em contramão, que tenho mais que ler, a vida é breve e a arte longa.
No ano passado, os cinco volumes de Os Miseráveis deram-me leitura para quase todo o Inverno. Entremeados  com A Capital, que também nunca tinha lido, A Universe From Nothing, Maria da Fonte, das releituras de As Pupilas do sr. Reitor e de A Morgadinha dos Canaviais...
E neste Inverno, oficialmente prestes a terminar, escolhi outra obra de peso, uma das poucas de Tolstoi que ainda não tinha lido: Ana Karenine. Acabei na noite passada. Dessa leitura de quase todo um Inverno, darei aqui amanhã breve e incompleto testemunho. É que não sou crítico, apenas leitor inveterado.