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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Em torno da poesia (1 de vários)

A poesia tem sido presença constante e marcante na minha vida. Porém, como contarei em várias mensagens, nem sempre assim foi, e aquilo a que chamo poesia pouco terá a ver com muito do que hoje se abriga debaixo do seu guarda-chuva -- ou guarda-sol, que vem aí o calor.
Não escrevo poesia. Tal como não escrevo música, nem pinto. Cada qual é para o que nasce. Ou tem talento para essas artes, ou não tem. Eu não tenho, e descobri-o bem cedo.

Na adolescência escrevia umas quadras anti-fascistas piegas, coisas do género:
O pão que o diabo amassou
Será comido por ele só
Chorará então como chorou
Aquele de quem não teve dó!

Depressa evolui para formas mais livres, vazando a inspiração em textos atafulhados de imagens, tentando imitar  poetas como Daniel Faria (ainda hoje me encanta A Invenção do Amor, que motivou o meu terceiro romance), José Gomes Ferreira, José Régio...
Então conheci Federico Garcia Lorca, em carta do meu primo António, com poemas que dactilografara, tomado de admiração por esse poeta que descobrira recentemente. Aquela música entrou-me logo nos ouvidos, Verde que te quero verde, Ai, Antoñito el camborio! A morte sai e entra, a morte entra e sai... Que bela fogueira deram os meus "poemas"!
O golpe fatal nas minhas ambições poéticas, porém, foi dado quando li Pessoa, e por via dele, Whitman, Klebnikov, Maiakovski. Prévert mais tarde. Vi claramente visto o que é arte. Dei-me conta das  minhas limitações insuperáveis. Porque, ao contrário do que por aí se diz, o querer não é tudo. Não chega desejar ser águia para ter as asas, as garras, a bravura - arriscamo-nos a não passar de cacarejadores de metáforas.
Pior: não consigo impedir-me de aplicar esse filtro a tudo o que leio. Pouco escapa. E aquilo que escapa é, quase sempre, mais velho do que eu.
Estará a poesia moribunda, ou será dos meus pobres olhos, que teimam em apreciar velharias? Suspeito que nem uma coisa nem outra. Que a poesia continua viva e pujante, e o o problema estará no desfasamento entre qualidade e divulgação, como aliás, também sucede na prosa literária. Até porque muitos dos poetas são seres tímidos, apreciadores da sombra, a quem a exposição confrange e repugna.
(Continua)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Compaginações

Caiu-me no goto o verbo compaginar, tão do agrado dos políticos. Quase tanto como as "narrativas" de que fala Sócrates, recauchutado em Paris. Só não sei como compaginar os prémios astronómicos (quase meio milhão de euros) dados pelos bancos que nós subvencionamos a alguns dos seus gestores com alertas como este, do Banco de Portugal, a avisar que a banca vai ter de continuar a assumir perdas.
Trata-se, seguramente, de uma outra "narrativa". Em que não será exigido, como não foi antes, a devolução desses prémios quando os negócios de ouro do ano passado se revelarem ruinosos talvez já no próximo...
Ah, se a vida fosse, para nós, pagantes,  tão fácil de rescrever como o são as "narrativas" dos banqueiros e dos políticos!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Leitura recomendada

Não sou muito dado a actividades sociais e fujo como o diabo da cruz dos eventos que me cheiram a feiras de vaidades, onde importa estar presente para ver e ser visto. Mas faço questão de participar  naqueles que me tocam, como foi ontem o caso do lançamento do livro de Pedro Correia Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico.

A apresentação, na Bertrand do Picoas Plaza, apinhada de gente interessada e atenta, coube  ao editor, a Pedro Mexia e ao autor. Divertida, esclarecedora, cativante, defendeu posições que eu mesmo, quando no activo, tinha reivindicado na minha escola, como o direito de os professores opositores se poderem declarar objectores de consciência. 
O livro, que li entusiasmado na viagem de regresso, constitui um estudo exaustivo sobre a génese e a implementação do acordo ortográfico de 1990, as suas vicissitudes e motivações, em Portugal, no Brasil, nos restantes países de língua portuguesa; põe a nu as incoerências, os disparates, as asneiras resultantes da sua aplicação (embora saliente aspectos positivos), e propõe um plano de acção claro, sucinto, exequível para resolver a trapalhada criada pela incompetência ou o desleixo de (pessoas que se dizem) linguistas e políticos. 
Bem fundamentado, claro na exposição, combina o rigor com a arte de bem escrever.
Apenas senti a falta de uma secção, mesmo que genérica, sobre as motivações económicas do acordo: encontros e conferências internacionais, com as inerentes mordomias, ganhos com a formação, guerras pelo controlo do mercado livreiro, substituição quase forçada dos dicionários e demais ferramentas de língua... Porque, pressinto, as motivações para a elaboração do acordo ortográfico de 90 e as posteriores pressões para a sua aplicação podem não ter sido sempre nobres e elevadas -- científicas nunca foram, nem pretenderam ser, como o livro deixa claro, citando um dos pais deste aborto.
Seria a ocasião de proponentes e defensores deste acordo ortográfico prepararem obra que desminta as evidências e rebata os argumentos apresentados por Pedro Correia, justificando a aberração em vigor. Seria, mas duvido de que isso aconteça, tal a solidez das Vogais e consoantes politicamente incorrectas, provavelmente estocada final no acordês e possível ponto de partida para emenda consistente das asneiras -- que um pequeno grupo não escolhido, não nomeado, trabalhando à revelia dos linguistas e demais intelectuais, impôs sem debate público à sociedade portuguesa, à brasileira, e quer impor aos demais países da lusofonia...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Avante, cidadões (II)

Tu quoque, Cavacus?
Ouvido e visto (por 2 vezes)  há pouco no telejornal da TVI quando o senhor professor doutor presidente recomendava as termas para a cura "dos diabetes" (sic) e dos cidadões espanhóis.
(Onde se prova que eu estava errado e o leitor João Andrade tinha razão.)
No muro do cemitério de Alpedriz, já perto do 25 de Abril de 1974, uma pintura, hoje grafíti ou grafito, expressava então o desencanto e a revolta popular:
"Homens da nossa terra! A nossa junta de freguesia está entregue a analfabetos!"

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da inutilidade inútil


Rentes de Carvalho, estribado em longa experiência e saber, com este post reforçou as dúvidas que regularmente me atacam, concernentes ao esforço e tempo que gasto com a minha escrita, que a poucos interessa, menos ainda lêem: 
"a "literatura" há muito deixou de ser o que parecia, é um produto como o detergente e, como ele, tem marca, vende-se no supermercado. Infelizmente é produto que não lava, nem eleva."
É um facto — um editor disse-me, creio que já aqui o contei: "Que é que quer, você não dorme com o Pinto da Costa nem trabalha em casa de alterne...". Um facto que me deveria obrigar a repensar a minha dedicaçao à escrita, a orientar os meus esforços noutra direcção, talvez na do lazer.
Porém, acredito eu, o destino não se escolhe, não se altera facilmente. Pelo que só me resta prosseguir afincadamente com actividades que a razão me diz serem inúteis. 
Como o estudo. Que me levou a candidatar-me a um mestrado, motivado sobretudo pelo desejo de voltar à faculdade onde tinha estudado vinte anos antes, em circunstâncias difíceis, que me não permitiram então aprofundar matérias que me seduziam. Que, volta-não-volta, me incita a terminar o doutoramento em Linguistica Computacional.
Como o karaté, que ensinei durante trinta anos sem  ganhar um tostão que fosse, e em que persisto, mau grado os protestos do corpo. 
Como a agricultura, sempre arriscada, sempre trabalhosa, quase sempre ruinosa.
Uma vida laboriosa, preenchida, bem comida, razoavelmente bebida, a que faltará algum tédio, muito fastio, a darem charme a posts choramingas como este.
E volto às actividades inúteis, que não dão pão, nem prestigio. Porque tem de ser, porque não sei viver de outra forma.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Portugal é uma choldra ignóbil

Diz Eça n' Os Maias e nós, pelo menos desde então, repetimo-lo constantemente sob variadas nuances. Lá fora é que é bom, "felizes os que partem" (Cesário Verde), por cá aproveita-se o Sol e pouco mais, estivemos e estamos na cauda da Europa, é certo que Camões nos situa na cabeça, mas dá-se-lhe desconto, era poeta e tão mal a pátria o tratou...
Pois não é que li hoje isto?
"Portugal ocupa o 13.º lugar num ranking dos melhores países para se ser mãe, elaborado pela organização não-governamental Save the Children. A lista de 176 países é feita com base em critérios como as condições de saúde materna, as taxas de mortalidade infantil ou o nível de educação, o salário médio e a participação política das mulheres em cada um destes países."
Pois é. À frente dos EUA e do Reino Unido, ouvi na TV. Afinal, não é só o Sol que se aproveita nesta choldra ignóbil.

Democracia à portuguesa

Convenci-me de que nós, portugueses, temos fraca apetência pela democracia. Preferimos alguém a mandar e nós a protestar. Só assim consigo explicar que nas associações que por aí proliferam, nos jornais de província, nos clubes, nos sindicatos, nas autarquias, se mantenham há quase 40 anos os mesmos rostos, com excepção dos raros que, entretanto se reformaram, a doença incapacitou, ou a morte levou. 
Da parte dos mandantes, o apego ao poleiro -- Só saio corrido, quem comeu a carne que roa os ossos! -- e raramente alguém os afronta, que há sempre muitos interesses e conveniências em jogo. Da parte dos mandados, a cobardia, a preguiça, o comodismo. Que levam os sócios a faltar às reuniões de eleição de corpos gerentes para não correrem o risco de integrar as direcções, sempre numerosas -- por vezes, os sócios já não são suficientes para todos os cargos inúteis existentes.
Ouvem-se então as lamúrias do dirigentes cessantes, que também eles adoram queixar-se: é o desinteresse dos associados, é a incompreensão dos poderes públicos, é a vida familiar tão sacrificada, é "eu acho que devia entrar sangue novo"... Um estrangeiro que estivesse presente e compreendesse o Português pensaria: estão a pedir para sair. Erro crasso, nada percebe da nossa cultura. Aquilo nem desabafos são, é a deixa para os graxas de serviço, sempre presentes, os envaidecerem com elogios. Então, bem contra vontade, com sacrifício pessoal e sobretudo familiar, ei-los prontos a carregar sobre os ombros outro mandato, a bem da coisa pública, a bem da Nação!

Uma vez, numa reunião de karaté, já na fase dos queixumes, o presidente cessante coloca o lugar à disposição. 
-- Mas tu não queres continuar? -- pergunta o presidente da mesa da assembleia geral.
O outro enrola. Que sim, que não, mas os sócios deviam fazer isto e aquilo... 
Nós bocejávamos. Percebiam-se bem as suas duas vontades: que não ocupasse o cargo rival presente, e que lhe suplicássemos a recandidatura.  
O presidente da mesa, sempre palavroso,  empatava com malabarismos verbais. Homenzarrão do Norte, impaciente com a estafada retórica costumeira,  interrompe-o bruscamente: -- Despacha-te com isso, que quero almoçar!
O presidente da mesa, furioso: -- Queres ser presidente?
-- Vai-te foder!
Comprova-se assim que as nossas estruturas democráticas são como os cemitérios da velha anedota: quem está fora não quer entrar e quem está dentro não pode sair... 
E o Tó Zé?, contra-argumentarão  os leitores que tenham conseguido ler o post até aqui.
Pois, afianço-vos, a sua conversa de querer governar é mera variante do dito que exterioriza a bravura nacional:  "Agarrem-me, que eu não sei o que faço!" Agarrem-no, portanto, para que não venha a desgraçar a carreira respondendo a jornalista da televisão  como o meu amigo do Norte.

Sacrifício das famílias

Representante dos pais protesta contra o contexto da realização dos exames do 1 Ciclo por só ter sido possível com "sacrifício das famílias". 
Far-me-ia confusão tal entendimento, a mim que defendo que ser pai, ser família, implica sacrifício pela prole -- assim procedem quase todos os animais. Que qualquer pai, ou mãe, demais a mais presidente de associação, tem o dever de pôr a educação dos seus filhos à cabeça das prioridades -- não se dera o caso de eu ter sido professor 36 anos e ter ainda bem presente que alguns pais são bem ciosos dos seus direitos, reais, imaginados, proclamados, mas recusam obstinadamente qualquer dever, chegando ao ponto de deixar para o Estado o encargo com o pagamento da pensão de alimentos dos filhos, ou faltar-lhes com panela de sopa -- Ah, eles comem na escola, para isso os mando lá, agora até trazem jantar para nós! E é vê-los e vê-las todas manhãs, depois de despejarem os rebentos na escola, a animarem a economia local tomando no café pequeno-almoço saudável e barato, à base de tostas mistas, sumos Compal, bolos e galões...

sábado, 4 de maio de 2013

Coisas do meu tempo: Remington

Em 1972, esta Remington, já bem na meia-idade, acomodada a existência sossegada, rotineira, burocrática, foi emprestada à associação de estudantes do Instituto Comercial de Lisboa. Descontente com os textos que nela escreviam, o director mandou a polícia encerrar a associação mas, antes que a máquina de escrever voltasse para as mãos do inimigo, jovem revolucionário expropriou-a para aparelho técnico clandestino. Passou então, com as teclas a tremerem aflitas, a bater panfletos em stencil, sempre temerosa de que o seu matraquear no silêncio da noite fosse ouvido por vizinho bufo e denunciada à Pide, nesse tempo glorioso em que tipografia clandestina dava direito a dez anos de prisão em Peniche.
Foram sendo presos os revolucionários que, com mais ou menos dedos, batiam os panfletos cheios de chavões, lugares comuns, apelos incendiários à guerra do povo à guerra colonial, vivas ao presidente Mao, morte aos sociais-fascistas. Graças à coragem de muitos deles, alguns dos quais sofreram nas mãos da Pide vicissitudes terríveis, coisa de duas semanas de tortura do sono, afora a estátua, os espancamentos diários, as drogas, apenas caiu nas mãos do inimigo nas vésperas do 25 de Abril, no Pinhal de Leiria, quando um deles foi surpreendido pela guarda republicana na mata em que se acobertava clandestino, a preparar-se já para a vida de guerrilheiro. Com as balas a assobiarem sobre a sua cabeça, viu-se forçado a deixá-la para trás. Mas logo após o 25 de Abril apresentou-se temerário na sede  da Pide em Leiria, a exigir de volta a máquina de escrever, o duplicador, o saco cama...
A velha Remington voltou às suas tarefas, quase a escrever sozinha, que cada tecla conhecia de cor o estilo, o arrazoado panfletário. Mas começara uma guerra suja no interior do partido contra a "linha de direita" e os seus desvios, as expulsões dos melhores multiplicaram-se, ficaram os medíocres, talvez algum teimoso mais bronco. Esquecida pelo partido em minha casa, a máquina conheceu curtas férias enquanto fiz obrigado a tropa.
Depois disso, ainda trabalhou muito. A bater stenceis com testes, a fazer trabalhos da faculdade, que eu voltei aos estudos, a escrever páginas do que viriam a ser, muito mais tarde e completamente transfigurados, os meus contos e romances.
Os computadores condenaram-na, finalmente, à reforma. Coitada, há muito que não escreve, entrevada, desaparafusada, sem fita, com falta de peças, as letras das teclas sumidas, gastas pelo uso. Ei-la, a gozar merecido descanso.