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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Malefícios do calor

Custódio garantiu esta manhã que Portugal vai «lutar até à morte para que este seja o ano de Portugal», quando questionado sobre o que tem faltado para que a selecção consiga ganhar um título.
Eu, afectado pelos 39 graus à sombra, lembro ao fogoso moço duas coisas:
1. Não lhes pede tanto a pátria. Apenas que se esforcem, que joguem o melhor que conseguirem. Afinal, não é num campo de futebol que se joga o destino nacional.
2. Como escreveu o Padre Vieira, "ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua". Espero, no entanto, que o Padre Vieira não tenha sido, também em matéria de futebol, profético: "O muito roncar antes da ocasião, é sinal de dormir nela."

domingo, 24 de junho de 2012

Do princípio da incerteza

Idade: quarenta e cinco anos. Estado civil: divorciado. Profissão: desempregado. Acrescenta, em jeito de justificação: era até há pouco quadro bem pago de próspera empresa. Inadequação ao posto de trabalho, alegaram os Recursos Humanos. Indemnização: uma miséria. Um ano atrás teria recebido o triplo. Mas um ano atrás nem lhe passava pela cabeça que pudesse ser despedido. Começa as frases por quando e se. O seu futuro é conjuntivo. Uma vida em poucas palavras. De circunstância, na sua maior parte. Resignado, repete o lema de toda uma geração: novo demais para a reforma, velho demais para conseguir trabalho. --- E agora? Encolhe os ombros: -- Para já, tenho o subsídio de desemprego. Depois, logo se vê. Alvitro: emigração, Angola… Meneia negativamente a cabeça: falta-lhe a estaleca; o corpo fraqueja: tensão arterial para o alto, hérnia discal… Não, fica por cá. Casa própria, carro, os seus discos, os seus filmes, os seus livros, pequena poupança no banco. Não tem dívidas. Com pouco se contenta… E talvez, se, quando... Incomoda-me tamanha resignação – mas que faria eu no seu lugar? E que lugar é o meu, não estou também eu conformado, não estamos nós resignados, presos ao passado, desinteressados do futuro? Para onde foi esse tempo da mocidade, em que encarávamos o porvir com esperança, o víamos risonho, e, no entanto, pouco mais tínhamos então do que os nossos sonhos? Não serão os nossos desabafos, as nossas frustrações, iguais às dos velhos de todos os tempos, perdidas as ilusões da juventude? Acrescenta: felizmente não tem família. Penso, mas não o digo – afinal, é fraca a confiança entre nós: família, um mal, ou um bem? Prisão ou âncora? Sacudo também eu a cabeça: há muito deixei de julgar os outros. Escuto. É a minha função: ouvir e escrever. Mesmo que ninguém leia – e porque é que tudo o que fazemos precisa de ter utilidade, aproveitamento? Não valerá a pena fazer só por fazer? Como o velhote que, receoso de perder a memória, regista minuciosamente em caderno escolar tudo o que faz durante o dia, e depois se esquece de ler as suas anotações? Talvez a escrita seja afinal uma forma de fixar a volatilidade das coisas, de organizar o Mundo, de dar à vida um sentido, ao seleccionar uma probabilidade entre as muitas possíveis -- mecânica quântica da palavra, também ela governada pelo princípio da incerteza...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Conto premiado

Figuras sem estilo, conto que foi distinguido com o 3º prémio no 13º Concurso Literário Dr. João Isabel, promovido pelo Município de Manteigas, pode ser lido AQUI. 10 pp.

domingo, 17 de junho de 2012

Ainda o regresso aos campos

Um papa, esqueci o nome, contava que há três maneiras de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres, na agricultura. Acrescentava: -- O meu pai escolheu a mais trabalhosa.

Regresso aos campos


Durante décadas e décadas, os nosso economistas e governantes esforçaram-se para que os campos esvaziassem. Argumentavam então que a taxa de camponeses em Portugal era muito superior à dos países desenvolvidos da Europa; que com tanta gente a sobreviver na agricultura a produtividade era baixa, os proveitos reduzidos; que e mais que... Cépticos como eu viam cinismo em tão boa vontade, em tão grande preocupação com os sofrimentos dos camponeses, que não compravam os alimentos nos hipermercados e ainda valiam aos filhos, enchendo-lhe os porta-bagagens dos carros quando os visitavam. Era preciso que o campo deixasse de produzir e passasse a consumir; era preciso que os filhos dos agricultores se abastecessem nos hipermercados, como fazem as pessoas civilizadas por essa Europa fora, e não na casa paterna.
Depois, vieram os golpes de misericórdia: fecharam as maternidades, as urgências, as escolas, agora os tribunais, as juntas de freguesia, portajaram-se as antigas SCUT... 
E com os campos quase ao abandono, em ano de seca, ora severa, ora extrema, eis que os génios da economia e das finanças, que também são políticos a contragosto, vêm defender o regresso dos jovens ao campo. Prevejo que será um sucesso: as raparigas preferirão os rapazes que melhor lhes falarem do perfume da bosta, da vida idílica longe dos centros comerciais, das escolas, dos hospitais, a comerem o que a terra lhes der, se der, a amealharem os proveitos dos excedentes, vendidos a intermediários com profundo sentido de justiça.
E porque palavras leva-as o vento, termino com história contada dois dias atrás por agricultor septuagenário, que ganha a vida como pedreiro:
-- Zé, contou-me, fui vender a Leiria 300 quilos de batatas. Sabes a como é que mas pagaram? A 22 cêntimos o quilo.
Faço contas de cabeça: -- Sessenta e...
-- Sessenta e seis euros. Ora vê lá o que ganhei, depois de pagar o gasóleo do transporte, e as horas que perdi. Se acrescentar o trabalho da arranca... Para já não falar da plantação, das curas...
Portanto, senhor presidente da república, senhor primeiro-ministro, continuem a vossa campanha em prol do regresso aos campos: os jovens ouvir-vos-ão entusiasmados, e prontamente repovoarão os campos, e assim se salvará a pátria -- a não se que ponham a pensar em quantos quilos de batata precisarão de produzir, de arrancar, de vender para comprar um smart phone.
NOTA: com a ajuda do meu sócio destas aventuras agrícolas, já tenho as batatas armazenadas. Boa produção em ano ruim. Mas não se pense que o trabalho terminou: é preciso combater regularmente a traça, que pode destruir por completo a produção, como fez dois anos atrás, e a podridão. Trabalho porco, fedorento -- nem imaginam como uma batata podre cheira mal --, cansativo. Inútil, por vezes.

domingo, 10 de junho de 2012

10 de Junho

Excelente discurso do professor Nóvoa. A pensar Portugal, a ver a realidade, a apontar caminhos na linha dos nossos maiores pensadores. Bom seria que as suas reflexões fossem escutadas. Mas, suponho, seria exigir demais dos políticos, sempre mais preocupados com gamela e poleiro do que com a pátria.

sábado, 9 de junho de 2012

Portugal X Alemanha

Há que reconhecer: nós, portugueses, trabalhamos muito, mas a produtividade é baixa. São nossas as vitórias morais. Porque as reais são dos outros. 

O Velho e o Mar

No Delito de Opinião, excelente post de Pedro Correia sobre este livro que é, de há muito, um dos meus favoritos. Recordo o prazer que, muitos anos atrás, me dava leccionar o 9 ano, de cujo programa então fazia parte, a par de Gil Vicente e de Os Lusíadas.
Estudava-se a obra a partir da tradução do grande Jorge de Sena, outro autor votado ao esquecimento- Porque, nos tempos que correm, as obras são seleccionadas partindo do princípio, eduquês oblige, de que os alunos são imbecis e, consequentemente, só imbecilidades lhes podem interessar -- como a "obra" recomendada pelo Plano Nacional de Leitura, que nos delicia com diálogos como este, que cito de memória e apenas a título exemplificativo:

-- Onde está o meu cavalo espacial?
-- E o meu capacete supersónico?

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Morra primeiro, reforme-se depois

Já não sei o que mais me assombra: se a capacidade dos tecnocratas proferirem asneiras, se a forma acrítica como os media as reproduzem:

Após a crise idade da reforma deve ir até aos 80 anos

por Dinheiro VivoHoje
Para o presidente executivo da AIG - American International Group, a crise da dívida na Europa demonstra que os governos a nível mundial têm de aceitar que as pessoas vão ter de trabalhar mais anos, à medida que a esperança de vida aumenta. Robert Benmosche defendeu que a idade da reforma terá de se estender até aos 80 anos.
"As idades da reforma têm de se alterar para os 70, 80 anos", referiu o CEO da AIG. Numa entrevista na sua casa em Dubrovnik, na Croácia, Robert Benmosche, explicou que assim se tornaria "as pensões e os serviços médicos mais acessíveis. Eles manteriam as pessoas a trabalhar mais tempo e retirariam essa carga dos mais jovens".
Com o desemprego juvenil a atingir números exorbitantes não apenas na Europa ou no Norte de África, mas por todo o Mundo, nada como ter os jovens no desemprego e os velhotes a mourejar. Poupa-se nas pensões de reforma, gasta-se em subsídios de desemprego e afins. Além do mais, os cidadãos ficarão mais tranquilos se protegidos por polícias septuagenários, mais confiantes se as escolas se transformarem em lares da terceira idade e estes tiverem septuagenárias a cuidar dos octogenários sobreviventes... Um paraíso por todo o lado, das minas às pescas, dos militares, à moda -- os velhos a trabalhar, os moços no desemprego.

Ocorre-me até que a citada AIJ estará já a implementar as propostas do seu presidente executivo dando preferência nas entrevistas de emprego aos sexa, septuagenários, em detrimento dos jovens...

Contrariedades


Anos atrás, num quente Julho, pouco depois de a Leya ter comprado a Caminho, telefonei para saber se já havia resultados da apreciação de Entre Cós e Alpedriz. Preocupações desencontradas: eu a perguntar pelo romance, a pessoa do outro lado a lastimar-se da sua triste sorte, despedida minutos antes:
-- E agora, que vou fazer, com mais de cinquenta anos? Quem me dará trabalho, num café que seja, quando souberem que tenho esclerose múltipla?
Durante mais de uma hora ouvi os seus desabafos, incapaz de oferecer conforto válido, incomodado por lhe não poder valer, a ela que se debatia com o drama do desemprego e da luta pela subsistência...
A caminho da praia, só pensava em "Contrariedades", o poema em que Cesário Verde, enfurecido por recusas de publicação, se acalma ao pensar na vizinha:


Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve conta à botica! 
Mal ganha para sopas... 
(...)

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 
(…)
E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha!


sexta-feira, 1 de junho de 2012

A arte de subir na vida (2)

E há aqueles que vêem a vida como uma escada cujos degraus são os amigos -- e até se gabam de os espezinhar, quando a vaidade os cega. 

A arte de subir na vida

Diz frequentemente: é uma amizade que importa preservar. Por isso lisonjeia, bajula, serve servilmente. Vai longe. Chegará o dia em que não mais precisará destas amizades de ocasião e será então a sua vez de saborear a lisonja, a bajulação, o servir humilde de quem entende ser a sua uma amizade que importa preservar