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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O espectro

Sinto, desde há dias, que o próximo romance me ronda, insidioso. Em breve tornar-se-á imperioso, não terei como o evitar, não encontrarei maneira de lhe fugir, e apenas o escrevê-lo me dará paz. Se é aquele que pressinto, não o quero. Vade retro Satana!
Médium que sou, não me cabe escolher os espectros que me visitam. Apenas dar-lhes voz, a contragosto embora. Ah, não poder escrever antes  sobre a Primavera e os verdes campos, as brancas ovelhinhas que neles pastam, as abelhas azafamadas de flor em flor, os pastores que dirimem os conflitos amorosos a trinados de flauta!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A terra a quem a trabalha

Desconfio de políticos bem intencionados. A ministra da agricultura, que resiste à seca com fé, preocupa-me. Não é que agora quer roubar à esquerda uma velha causa?

Rosa Soares, Ricardo Garcia
O Governo quer identificar todas as terras em Portugal às quais ninguém se apresenta como dono, reclamá-las para o Estado e distribuí-las para quem as queira cultivar.
Parece tão boa, a ideia. E todos sairemos a ganhar, não é? Mas não seria de fazer, antes de falar, um estudo da aptidão agrícola desses terrenos, do seu relevo, dimensão média, dispersão, viabilidade económica, etc.? E, já agora, outro estudo que mostre quantos portugueses estão dispostos a trabalhar a terra? Leio um pouco mais da notícia revolucionária:
A identificação destas terras será feita no âmbito da realização do cadastro das propriedades rurais, que o Governo quer realizar em quatro a cinco anos, com recurso aos dados que a administração central já tem na sua posse - como informações sobre impostos, subsídios agrícolas e registos públicos.
Ah, então é isso: uma versão da actualização do IMI, a incidir sobre os terrenos agrícolas! Desiluda-se a esquerda, desiluda-se quem abomina os campos incultos, as terras perdidas. Não é a reforma agrária que aí vem, é apenas o agravamento de um imposto. Ornado de boas intenções.
Por isso, faço minhas as palavras de ordem dos anarcas, em plena reforma agrária:
Mortos, fora dos cemitérios, que a terra é de quem a trabalha! 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

A Sereia. Está aqui.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei A Sereia, um dos meus favoritos. 2pp., 748 palavras.

A árvore das patacas (2)

1976. Estava sozinho na sala de professores. Entra um tipo de gabardina apesar do calor, mais sebento do que o detective Columbo. A tresandar a cinzeiro.
-- É pá, já pagam? -- pergunta-me rudemente, à queima-roupa.
E eu, sem saber com quem falava: -- Ainda não. Creio que é só a 25.
-- Vou pôr uma bomba nesta merda. Olha, vou é prá Rússia, que lá há putas e vinho verde!
E desapareceu dali. Soube depois que estava de baixa por maluqueira. A receber o ordenado como se trabalhasse. Aprendi mais tarde que os malucos ganhavam o mesmo, progrediam por igual na carreira, só não precisavam de trabalhar. Na pior das hipóteses, colocavam-nos na biblioteca.

A árvore das patacas (1)

(Ao telefone)
-- Soube que a vossa empresa está a meter pessoal...
-- É verdade...
-- Quero marcar uma entrevista. Vocês pagam bem?
-- Bom, pagamos acima da média.
-- Mas olhe que só vou se me pagarem pelo menos três mil euros por mês!
-- Só três mil? Aqui pagamos melhor. Apareça amanhã às oito da manhã.
(-- É pá, esqueceste-te de que só abrimos às nove?
-- Claro que não. O gajo há-de levantar-se cedo uma vez na vida. E perder a manhã, a ver se aprende alguma coisa.)

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Velho Défice, Empréstimo, o Rapaz, e o Burro Pibe

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: como nos receberão nos Mercados?
Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?
Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.
E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para não ganhar banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!
Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.
E um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.
Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Neto, sobrolho carregado.
Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?
Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.
Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!
E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.
Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?
E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?
E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.
José Cipriano Catarino

O conto desta semana

Despedimento com justa causa. Um empresário retira o filho da escola por mau comportamento e, como castigo, emprega-o na sua fábrica. Mas o jovem apaixona-se, deslumbrado por imagem voluptuosa...
5 pp. Pode ser lido aqui.

O João

O João e o avô


O João dorme... Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
Ó mar! falla mais baixinho...
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede áquella cotovia
Que falle mais devagar:
Não vá o João, acordar...

Ó Mae! canta-lhe a canção,
Os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir...
Tudo vae sem se sentir.

António Nobre (fragmentos)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Tetra-avô

Nasceu hoje o meu quarto neto; ei-lo na foto aqui ao lado. Mãe e bebé encontram-se bem.

Encontro com escritores

Encontro muito agradável e muito interessante na Livraria Arquivo, em Leiria. Do espaço ao interesse e às questões da assistência, às intervenções dos jovens escritores (João Tordo, Nuno Camarneiro, David Machado), da editora Maria do Rosário Pereira e à moderação de Álvaro Romão  -- tudo excelente. Um prazer muito instrutivo. Agradou-me sobremaneira a consciência que aqueles jovens escritores têm da importância da sua participação na sociedade, da utilidade social do seu trabalho, o seu sentido do devir. E mais não digo, que preciso já de fazer outro post: durante a viagem para o encontro soube que o meu quarto neto tinha nascido. 

Excelente

Esta crónica da Ivone. Ou a arte de transformar uma observação trivial num texto muito, muito bom. Eu, que não partilho o seu pessimismo nem acredito nas potencialidades criativas da tristeza, já o reli uma meia dúzia de vezes.

O conto desta semana

Há uns anos, o pintor João Alfaro, depois de ler o meu conto A Sereia (não publicado), desafiou-me: -- Devias escrever uma história sem sexo.
Escrevi então algumas, entre as quais a que publicarei amanhã: Despedimento com justa causa.  Passa-se lá para os lados do Cavaquistão, em finais do Cavaquismo. Talvez ajude a recordar como e porque é que chegámos à pré-bancarrota. E, sobretudo, que as causas persistem, confundindo-se com os seus efeitos.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O título do lacrau

Há dias expliquei aqui o título de Entre Cós e Alpedriz. O lacrau, o meu primeiro romance, quer também ver explicitada a razão de ser do seu título:

Ao fundo, de costas para o Lis, atrás de uma mesa tosca, sem funil nem megafone, estava de pé um homem de boina, aspecto de cavador. Sobre a mesa, em duas caixas de sapatos, escorpiões agitavam caudas e tenazes em tentativas frenéticas para fugir do cativeiro. Sempre que algum o conseguia, caindo sobre a mesa, as mãos encortiçadas do curandeiro seguravam-no, pegando-o entre o polegar e o indicador. Então levantava-o à altura dos olhos, deixava o medo e a repugnância crescerem entre a assistência, e voltava a colocá-lo na caixa de onde se evadira.
As pessoas aproximaram-se, mas não demasiado, e observavam, curiosas e horrorizadas, os homens tecendo comentários sobre o que sucede à pessoa que tem a desdita de ser picada pelo ferrão de semelhante bicho, as mulheres apertando os filhos pequenos ao peito ou, se mais crescidos, agarrando-os firmemente pela mão para que a curiosidade juvenil os não fizesse aproximar demasiado, advertindo-os sobre os perigos deste inimigo da humanidade, eles e elas recordando o velho aforismo: Se o lacrau voasse e a víbora visse, não havia ninguém que no mundo existisse.
Quando a multidão se adensou, o curandeiro falou. Segurou um lacrau à altura dos olhos, para que todos o vissem bem, das tenazes que se agitavam convulsivamente ansiando por presa até ao ferrão que procurava em vão vítima, e disse:
— Este bicho é mau e nojento, mas bem pior é o que alguns de vocês têm dentro do próprio corpo, talvez sem ainda o saberem.
O silêncio arrepiou a multidão, espraiou-se como água agitada por pedrada até às últimas filas e retrocedeu outra vez até ao centro. Então o curandeiro falou de novo:
— Uma picada mata, uma picada cura. A picada do lacrau mata a pessoa... ou o escorpião que a devora. É preciso saber escolher. Lacrau macho para cancro fêmea, lacrau fêmea para cancro macho. Quem quer experimentar?
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

A epígrafe deste blogue

A frase que serve de epígrafe a este blogue ocorre neste excerto de Do lacrau e da sua picada:
Calmamente arranja-se para sair, está uma linda tarde de Inverno, dará uma volta a pé, quando regressar sentar-se-á num dos bancos do jardim em frente à sua casa, sorrirá vagamente porque é a primeira vez que o faz desde que ali mora, ela é mulher de centros comerciais e de bares, não de jardins públicos e ar puro.
Pela janela, o Luís avista-a, tem um impulso, correr até ela como fazia em criança, contém-se, com a idade vai ficando mais tímido. Atira-se novamente para cima da cama, não sabe o que pensar, mas julga que tem de pensar qualquer coisa, talvez seja sua obrigação ralhar com a mãe, persuadi-la. Contudo, ela falou de modo tão seguro que pressente não valer a pena insistir, embora algo lhe diga que é essa a sua obrigação, os filhos devem tomar conta dos pais, especialmente o Luís, que tem pais tão difíceis. Chora impotente, convencido de que se já fosse um homem saberia o que fazer, mal ele sabe que está enganado, os homens, mesmo muito velhos, morrem meninos.
O Sol desce rapidamente no horizonte e é escondido pelos prédios de andares que circundam o jardim; o frio instala-se. A Lúcia regressa a casa, está calma, como se tivesse encontrado algum sentido para a sua vida. Começa a cozinhar, sem mau humor, quase com prazer, embora algo distraída. Não nos enganemos, não é nem nunca será uma dona de casa prendada, cada qual é para o que nasce, apenas precisa de actividade física ou então sabe que tristezas não tiram o apetite a rapazes de catorze anos. Pelo canto do olho, vê chegar o filho, que começa a ajudá-la sem que lho tivesse pedido. Sorri-lhe. Ele fala:
— Mãe, acho que devia ralhar contigo, mas não sou capaz de o fazer. Conta-me tudo: quem é, porque é que te queres casar, o que vai ser de mim...
A mãe pega-lhe ao colo. Não é fácil, o Luís já é bem maior do que ela, faz-se a olhos vistos um latagão como o pai. Desta vez, ele não resiste. Deixa-a acariciar-lhe o cabelo, beijá-lo, Ah, é bom voltar a ser criança novamente, um dia o Luís descobrirá que um homem é só uma criança crescida, não precisa de se envergonhar por chorar no colo da mãe, que se explica no tom de voz meigo com que antigamente, quando fugiram de casa do pai, lhe contava histórias para o acalmar e adormecer: (...)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Álgido Inverno

Apropriado para o mês, este poema de Camilo Pessanha. Lembro-me de que me saiu num teste de Introdução aos Estudos Literários, na Faculdade de Letras de Lisboa, muitos anos atrás. Era professora da cadeira Margarida Vieira Mendes, que se viria a doutorar sobre o Padre António Vieira. A morte levou-a demasiado cedo. Recordo com saudade o muito que aprendi com ela.


Passou o Outono já, já torna o frio...
-- Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
-- O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
-- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha, Paisagens de Inverno II, Clepsidra

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entre Cós e Alpedriz

Levei anos a escrever este romance e durante a maior parte desse tempo intitulei-o Joaquina Guiomar Afonso, inspirado numa cantiga de amor de Roi Queimado:
"Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!

Quando estava quase terminado, teve o mesmo título do último capítulo, De um Verão até ao outro. Só mesmo no fim lhe atribui o título definitivo, que tem o inconveniente de levar alguns leitores a chamarem-me escritor regionalista. 
Não que o epíteto me aborreça: o mesmo dizem, igualmente sem razão, do grande Aquilino; mas considero-o inapropriado: como o meu amigo Arnaldo Marques escreveu então, a matéria do romance
"... é historicamente o século XX português, abafado pela longa e pesada herança salazarenta, vivido numa aldeia do concelho de Alcobaça -- Montes, situada entre Cós e Alpedriz..."
O título final, extraído do dito local Entre Cós e Alpedriz qualquer burro é juiz,  revelou-se certeiro, como salientou na apresentação na Junta de Freguesia dos Montes o falecido dr. Sapinho, então Presidente da Câmara de Alcobaça,  e como confirmam as 5 (pequenas) tiragens que fiz da 1ª edição. E o sucesso não pára: segundo o Google, já há quem o use pelo Brasil. Não faço birras nem cenas sobre autoria e paternidade -- inspirar outros, ser porventura plagiado, envaidece-me. Mas, que diabo, vejam o Google Maps (clicar para ampliar)! Entre Cós e Alpedriz -- só os Montes, outrora terra de Muito vinho e poucas fontes.
NOTA: não é marketing. Tenho apenas meia dúzia de exemplares e pouca vontade de me pôr a fazer a 2ª edição, corrigida com os testemunhos de intervenientes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O conto desta semana

É. como anunciei, Os cornos do diabo, Prémio Irene Lisboa 2010. 15 pp. Para ler, clicar no link.

A Amásia

Sentido de humor ou distracção? É que baptizar "Amásia"  o futuro continente não lhe augura nada de bom. Porque o termo é, toda a gente o sabe, pejorativo. Notícia no Público Online:

Supercontinente Amásia deverá formar-se junto ao Pólo Norte

"A Terra terá um novo supercontinente dentro de 50 a 200 milhões de anos. Amásia resultará da junção da América e da Ásia, segundo geólogos da Universidade de Yale"
.

O conto desta semana

Amanhã disponibilizarei um conto já bem conhecido: Os cornos do diabo, vencedor do Prémio Irene Lisboa 2010 com o título Crime na Capital. Eis o excerto que motivou o título:
Choca-me ouvir criticar defuntos, quanto mais num caso destes, em que a própria viúva, em vez de se desfazer em lágrimas, se desfazia em insultos ao morto. Ah, mas que não pensasse eu — e olhou-me de maneira estranha, como camponês em feira que avalia gado cobiçado, mas ainda não comprado — que ia envelhecer a carpir a morte de semelhante patife. Ainda hoje, ele a entrar no Inferno, e ela a meter um qualquer na cama, nem que tivesse de telefonar para alguma agência. Sempre se portara bem, mas isto fora o cúmulo, ainda por cima notícia de jornal para toda a gente se rir dela, pobre coitada — falava como se o Jorge fosse o culpado da bala assassina — ah, havia de bater com os cornos no umbral das portas do Inferno. Afinal, diabo precisa de cornos, não é assim? — e novamente o olhar me perturbou, como se já me tivesse escolhido para a tarefa por demais obscena de cornear amigo recém-defunto.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um conto por semana

Vou publicar em cada sexta-feira um conto no SCRIBD e colocarei aqui o link para os interessados. É um esforço de organização, reunindo num único local textos que andam dispersos por numerosas pastas no computador e discos externos.  Para começar, "El chupacabras", conto velhote: um casal de investigadores na meia-idade acampa num planalto algures na América Latina. Consta que el chupacabras anda por perto... 2 páginas a espaço e meio, 976 palavras.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

De volta

aqui o escrevi: a escrita de um romance canibaliza-me, devora tudo o que tenho, obceca-me quase por inteiro, esvazia-me, esgota-me as ideias, faz-me duvidar seriamente das minhas capacidades e, sobretudo, da de voltar a escrever. Desta vez, a paragem foi mais longa do que o habitual: terminei o romance em finais de Dezembro e só hoje voltei à ficção, com um microconto que aqui publicarei logo que suficientemente aplainado. Já o romance concluído não verá tão cedo a luz do dia: primeiro, precisará de conhecer a derrota nos raros concursos e prémios literários a que posso concorrer.