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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Primícias

As primeiras batateiras nasceram. Coitadinhas, o frio dos próximos dias queimá-las-á irremediavelmente. Já as favas, também de fora da terra, resistirão. São rijas.

No meu outeiro

"No fim de Janeiro sobe ao teu outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar, se vires terrear, põe-te a cantar."

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Idade da reforma

O governo espanhol, segundo o Jornal de Negócios Online, prepara-se para aumentar novamente a idade da reforma:
Não entendo. A Espanha tem uma taxa de desemprego absurda, especialmente entre os mais jovens. Se a Espanha aumentar a idade da reforma, aumentará o desemprego, gastará o dinheiro da sua segurança social em subsídios a quem pouco ou nada descontou, e não terá com que que pagar as reformas a quem para elas descontou durante toda a vida.
Mudem de rumo... Lá e cá.

Tenho computador

Aparentemente, já consegui resolver os problemas que tive com o Windows. Que não deveriam ter acontecido se a Microsoft se preocupasse com os seus clientes e não tivesse, e isto desde as suas origens, uma queda para tautologias: "Um problema está a impedir a resolução do problema" é a melhor ajuda que o Windows pode dar, quase tão boa como a necessidade de, para enviar um mail a pedir ajuda, exigir a introdução da chave de activação e não a aceitar porque "está expirada". 
Como resolvi? À bruta. Em desespero de causa, formatei as partições e, nem sei como, o 7 aceitou a chave do produto que, até então, ora afirmava ser pirata, ora estar expirada.
Toda esta trabalheira comprova que os cumpridores, que têm e querem continuar a ter tudo legal, passam por problemas facilmente solúveis numa qualquer loja de informática, que teria instalado uma versão pirata, "crackada", e, como diriam então os seus  técnicos, "e prontos, já está".
E com tudo isto, já lá vão duas semanas de chatices. Agora, há que copiar para o disco centenas de gigabites de ficheiros, fotos, vídeos familiares, músicas...  E recomeçar a trabalhar com o computador.

domingo, 29 de janeiro de 2012

... da Microsoft

Persistem os problemas com o meu computador: agora é a Microsoft a dizer umas vezes que o meu Windows não é legal, outras que a sua validade expirou. Não tenho, não uso qualquer software ilegal. É, para mim, matéria sagrada. O pior é que não encontro do outro lado a quem enviar um simples mail de protesto e de explicação:
Tenho um Windows Vista OEM pré-instalado no disco rígido que avariou e um Windows 7 Upgrade que comprei numa das campanhas da Microsoft para professores. Em lado nenhum (ver foto aqui ao lado) se diz que tem prazo de validade, nem eu o teria adquirido nessas circunstâncias.
No novo disco, instalei o Windows Vista a partir de um disco de recuperação e sobre ele o 7. E agora as chatices, como se tivesse paciência e tempo para aturar a Microsoft. Como se, depois de ter pago os produtos, lhe devesse o que quer que seja

sábado, 28 de janeiro de 2012

A receita alemã

Parece que -- modalizo e enfatizo, porque, já aqui o escrevi vezes sem conta, entendo tanto de economia como os especialistas, ou seja, nada -- parece que o capitalismo alemão é mais conservador, menos centrado em grupos financeiros, do que o inglês e americano. As empresas que enriquecem a Alemanha são frequentemente empresas familiares, muitas delas centenárias, não cotadas na bolsa (logo não dependentes da especulação bolsista), as quais não visam o lucro imediato ou no muito curto prazo, e consideram os seus trabalhadores como uma das suas maiores riquezas; recrutam-nos nas escolas e universidades da região e procuram mantê-los durante toda a vida -- por cá, dizem-nos que tais empregos acabaram.
Especializaram-se na produção  de bens e não de serviços; têm elevada tecnologia, logo elevada produtividade; exportam a quase totalidade da produção e para países como a China; orgulham-se da sua função social e encaram o futuro com a confiança que lhes dá tanto o passado como a certeza de que são as melhores nos respectivos nichos de mercado...
Vale a pena estar atento. As receitas dos nossos governantes anteriores, que se traduziram no abandono da agricultura, da pesca, na destruição da indústria, conduziram-nos a um estado de coisas insustentável. Ou produzimos, ou falimos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Treino de instrutores e de avançados

Amanhã, em Leiria, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto.
FOTO: alguns dos participantes no treino de 29-9-2011.
ADENDA: não participei; a dor de cabeça dominical chegou um dia mais cedo.

Infelicidade e arte

Não concordo com o lugar-comum romântico segundo o qual os artistas e, nomeadamente, os melhores artistas, são criaturas amarguradas, ressabiadas, infelizes, e a tal devem a criatividade e o mérito. Por muito que tal possa consolar almas atormentadas, não faltam contra-exemplos: D. Dinis, um dos nossos melhores poetas, Fernão Lopes e Vieira, prosadores excelsos, Garrett, tão bom na prosa como na poesia, coisa raríssima, Herculano, Eça, Cesário, o próprio Pessoa, Saramago, Sophia... E se alargasse a lista à literatura estrangeira, às artes em geral, seria um nunca mais acabar de nomes de artistas notáveis que não consta terem sido especialmente infelizes. Quanto àqueles que se lamuriam, nem sempre a vida os tratou tão mal como dizem. 
Importa, portanto, não confundir o cu com as calças: ser infeliz não é condição suficiente, nem sequer necessária, para a criação artística. Porque, Pessoa o disse, o poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.
Aliás, sobre felicidade e infelicidade, nada como a (re)leitura de L'Étranger:  do repetido "Je n'étais pas malheureux"... até ao final "où j'avais été heureux" (citações de memória).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O projecto de lei da cópia privada

Os anos ensinaram-me a desconfiar de voluntarismo e de boas intenções. Muitas vezes, a necessidade de agir, de intervir para mudar o rumo de uma realidade inconveniente tem o resultado oposto: perpetuar essa realidade e de forma mais penosa. Por exemplo, o combate à fome em África. Que tem matado a fome a muita gente, sobretudo fora desse continente, porque nele a fome parece ter-se perpetuado para proveito de muitos que abnegadamente ajudam a combatê-la; por exemplo, com as invasões do Afeganistão, do Iraque, da Líbia. Métodos de intervenção mais ponderados, menos mediáticos, menos agressivos teriam seguramente conseguido melhores resultados e menores danos.
Pois é o que me parece estar subjacente ao projecto de lei de cópia privada, que visa penalizar os consumidores para proveito dos "artistas". Não sei se os deputados terão a lucidez e a coragem necessárias  para rejeitar projecto tão abstruso, proposto -- que surpresa! -- pela ex-ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas. Porque a cultura é uma vaca sagrada e dizer não ao projecto trará acusações piores do que a recusa de ajudar África: afinal, quem se atreve a tirar o pão da boca dos nossos artistas?
Só que -- e não me alongo sobre o carácter disparatado da lei -- os beneficiados podem ser outros:
"Porque a SPA, que pertence e preside à AGECOP (que é quem colecta e gere a taxa aplicada pela pl118 [a lei da cópia privada], tem um passivo de 5,8 milhões de euros e gastou 6,7 milhões em 2010 só com pessoal. Percebe-se então quem este projecto de lei pretende "ajudar". Não são os autores ou criadores, mas a própria SPA."
André Rosa, "A 5ª Coluna", in PC Guia nº 193, Fev. 2012

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O besante

Extraordinário, extraordinariamente bem escrito, o conto A Terra fora do sítio, de Maria Gabriela Llansol, que ontem reli pela segunda vez. Pode ser descarregado gratuitamente aqui, na Biblioteca Digital Camões. Para aguçar o apetite:
Visto pela vigia, o mar, em plena ondulação, transformou-se em nosso guarda e, além dele, não havia horizonte. Foi o bastante para que Juan confessasse que sempre o intrigara a nossa herança errante e marítima e que, de um momento para o outro, pressentia que o próprio ermo marítimo nos ia reter para sempre. Parecia que fôramos atraídos a uma vaga imóvel, e Juan pediu-me que eu lhe transmitisse O besante, convencido de que se o trocássemos com o mar, seríamos soltos em terra firme.
Não encontrei palavras minhas para o dissuadir, e um pensamento arcaico respondeu por mim:
O mar e a terra não são humanos,
tratam todos os seres como se fossem funâmbulos.
O espaço entre a terra e o mar,
não se assemelha ao fole da forja?
Por dentro, está vazio,
mas nunca se esvazia.
Quanto mais o accionam, mais ele sopra.
Quanto mais se fala,
mais cerrado é o nosso labirinto.
Mais vale que o homem
repouse no interior do fole.
E concluí, para que me compreendesse:
-Não foi o mar, Juan,
mas o seu movimento,
que nos foi dado em herança.

Do ruído silencioso

Segundo a Exame Informática, um estudo realizado pelo Instituto Superior Técnico e pelo Instituto de Telecomunicações "concluiu que cada adolescente português envia, em média, 100 SMS por dia."
Suponho que tais mensagens sejam pobres de conteúdo e nelas, mais do que comunicar, partilhar informação ou discutir ideias, predominará a função fática da linguagem: manter o contacto. Suponho que serão motivadas pela necessidade de preencher o tédio, sobretudo nas aulas, que não poderão apreciar porque delas desinteressados, ocupados a "polegarizar" irrelevâncias e banalidades. Suponho que, mais do que afirmar teclo, logo existo, a quantidade absurda de mensagens SMS enviada pelos adolescentes será o ruído da estática civilizacional do séc. XXI.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sabugal

Almeida

Castelo Rodrigo

É gratificante ver que há memória e há quem a registe na pedra. Comoveu-me esta homenagem ao Professor Lindley Cintra, meu professor de Literatura Portuguesa III e de Linguística Românica.

Castelo Rodrigo

domingo, 22 de janeiro de 2012

Knockdown

Desde que o disco rígido do meu portátil avariou, já passa de uma semana, que estou no tapete, consciente, mas inoperacional. Primeiro, levei dias a descobrir qual o componente avariado, apesar de suspeitar desde o início do disco; depois a instalar software -- uma guerra, incompreensível, porque é todo ele legal --; por fim, mas não finalmente, a configurar programas, recuperar cópias, relembrar senhas, muitas bem antigas e há muito esquecidas. E sobre tudo isto, actualizações constantes do Windows e C.a, que quase me não permitem utilizar o computador.
Que me desculpem a ausência de respostas tanto os leitores deste blogue como os 'amigos' do facebook. Logo que possa, e paciência tenha, começo a pôr a correspondência em dia.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Viagens na minha terra

Trancoso, fim-de-semana passado. Ao fundo, o mar de nevoeiro persistente.

Viagens na minha terra

Penedono. Fim-de-semana passado.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Viagens na minha terra

Sernancelhe. Fim-de-semana passado. Avaria no disco rígido do computador pôs-me fora de circulação de então para cá.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Geração à rasca

É, seguramente, a minha. Explico-me sumariamente: sofremos a ditadura de Salazar e de Marcelo, a guerra colonial, vivemos o Verão Quente, aturámos o Companheiro Vasco, o PREC, sobrevivemos à primeira vinda do FMI, aguentámos o cavaquismo, o guterrismo, o socratismo... 
Alegremente os políticos ganharam eleições malbaratando o dinheiro dos nossos descontos -- e hoje a nossa reforma é encarada como uma traição, uma desonestidade que os mais jovens terão de pagar... E que fazem, entrementes, os jovens oficialmente enrascados? 
Uma árvore não faz a floresta. É desonesto generalizar casos pontuais. Mas casos pontuais é o que mais vejo à minha volta! Por exemplo. Uma colega aposentou-se em meados de Dezembro. Foi colocada substituta. Após o período de interrupção lectiva, vulgo férias, de Natal, renunciou ao lugar. Os alunos eram -- são -- difíceis. Mas quem lhe terá dito que professor é profissão de vida fácil? Entretanto, outros professores desempregados foram contactados para preenchimento desse horário. Todos recusaram.
Sou eu, e outros privilegiados como eu, quem assegura as substituições. E isto para além do nosso próprio horário, sem quaisquer compensações. Eles, novos, recusam porque é difícil; nós, velhotes, temos de o fazer na ingrata posição de não-professores dessas turmas, sem tarefas, sem autoridade, e para além do nosso próprio serviço lectivo e não lectivo.
Quem está à rasca, quem é?

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Obra-prima

Gostei tanto destas frases de Eduardo Pitta que as roubei descaradamente:
O autor [García Marquez] criou um universo capaz de provocar a reverberação da terra, como ficou demonstrado nessa obra-prima absoluta que é Cem Anos de Solidão (1967)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Livros aos montes

No blogue Horas Extraordinárias, a sua autora reflecte hoje sobre motivações para a leitura e, sobretudo, sobre a utilidade e a viabilidade de procurar ensinar outros a gostarem de ler. 
No meu caso, para além de factores hereditários, a que voltarei noutra ocasião, suponho que a fome pela leitura terá sido reforçada por solidão e curiosidade. Para o gosto pelos livros, muito contribuíram duas mulheres que não esqueci na dedicatória do meu primeiro romance, Do lacrau e da sua picada: a minha professora primária Margarida Martins d'Aires Filipe e Margarida de Carvalho, minha professora de Português e responsável pela biblioteca na Escola Industrial e Comercial de Leiria. E a Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. 
Mas a minha formação como leitor ecléctico e devorador insaciável de livros  deve-se talvez a um montão deles que descobri, tinha treze ou catorze anos, em casa modesta em Leiria onde a minha mãe me hospedou. Velha, escura, tristonha. O que interessa é que, ao fundo de um corredor, amontoavam-se centenas de livros, sem qualquer ordem. Para um miúdo viciado na leitura, afastado da família, num meio completamente estranho, foi um maná dos céus. Devorava um ou dois por dia, misturando Júlio Dinis com Caryl Chessman, o condenado à morte que na cela se tornou escritor, Thor Heyerdahl e a sua Kon-Tiki, Júlio Verne, Dumas, Salgari, Defoe, histórias policiais, do faroeste... Aconchegado e alimentado como lagarta na maçã, os dias voavam, as saudades não doíam tanto... 
Naquele primeiro período, os resultados escolares não foram brilhantes...

Sinais de esperança

Ténues, talvez ainda não pelas melhores razões, mas significativos:
Estou em crer que assistiremos a progressiva deslocalização de fábricas e empresas do Oriente para o Ocidente. Por enquanto, os sinais são pouco claros, contraditórios. Mas a recente greve dos operários da LG chinesa, exigindo e conseguindo equivalência remuneratória aos seus camaradas de fábricas fora da China, parece-me sintomático: eles começam a abrir os olhos, cansados das penosas condições de trabalho e salários de miséria; nós, com o desemprego galopante, sobretudo entre os mais jovens, deixamos de poder importar os seus produtos -- algo está a mudar, muito terá de mudar, lá e cá. Por exemplo, ouvi não há muito a um empresário português do móvel contar que aumentou a produção, tem os salários em dia e distribui gratificações: passado o boom da importação chinesa de bens fabricados em massa a baixo custo, e com a crise europeia, deixou de ser interessante adquirir mobiliário em grande escala do Oriente, e surgiu um nicho no mercado que este empresário aproveitou inteligentemente, exportando a quase totalidade da sua produção.
Por enquanto, são casos pontuais. Fica-me a esperança de que se generalizem. Afinal, não há solução para a Europa se não mudar de rumo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Pega de caras

Na cervejaria, apenas um cliente. Acabrunhado, meditativo, nem reagiu à entrada dos forcados. E o cabo, tonitruante: -- Uma rodada para todos, paga esse senhor aí.
-- Eu?
-- Sim, você. O que está a beber?
-- Leite...
Risada geral.  -- Pois agora vai beber cerveja connosco.
-- Desculpe, mas não posso beber álcool...
-- O quê? E pode beber essas coisas de maricas? Beba-me já essa cerveja, como um homem.
O homenzinho emborcou a caneca, pagou a rodada e saiu. Pouco depois voltou, ainda os forcados galhofavam da partida pregada ao menino copo de leite. E ele, sem rodeios: -- Uma rodada, paga este senhor. Mas só copos de leite.
Os forcados olharam para o cabo, os sorrisos algo amarelados, à espera de ordens. E elas prontamente chegaram: -- Bebam, mandou, o cano negro da pistola encostado à têmpora.
Despejados os copos, sem mais palavras, o homenzinho foi-se. Em jeito de desculpa, o cabo explicou-se: -- Vi-lhe a Morte nos olhos...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Tempo da poda

Como a cobra que sai do torpor invernal despertada pelo calor, não tanto para procurar alimento, antes para se aquecer ao Sol entre ervas secas, e vagamente se apercebe da proximidade de presas, assim também nos olhos do Jaime cintila um reflexo de vida: sabe, sente, que é o tempo da poda, e quase tem outra vez vontade de sorrir ao lembrar-se do provérbio Tempo da poda, tempo da foda, e das interpretações, uma apontando para a vida arrastada do camponês, outra para o renascer da seiva, nas plantas e nos corpos, natureza e humanos pulsando num mesmo frenesim reprodutivo. 
(...)
Não, não são reflexões que lhe perpassam por detrás dos olhos, são imagens como as dos filmes que uma vez por outra cinemas ambulantes passam no barracão da Tia Elisa, projectadas num lençol que faz as vezes de ecrã, e as imagens que lhe enchem a retina são da vinha coberta de vegetação verdejante — margaças floridas, com o seu odor inconfundível, roxas candeias que cresceram entre elas, serralhas em flor — e, esvoaçando livres por cima, longas vides que a tesoura de poda atarraca em cliques sucessivos, deixando talões de três olhos e varas de seis, gemendo seiva dos sarmentos cortados, são as nuvens fugidias que vindas do mar correm pelo céu sabe-se lá para onde — como a sua vida.
Entre Cós e Alpedriz
FOTO: poda, sábado passado. O Vergílio e o Pedro na labuta.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sociedades secretas e coscuvilhice

Embora algo alheado da informação nacional, dei-me conta de que esta semana as não-notícias incidiram em especial sobre a maçonaria e os seus supostos filiados. Compreendo o interesse dos media: se não há problenas, inventam-se: a saúde de Eusébio já só preocupará a família e os amigos, o ministro das finanças ainda não anunciou novos cortes, não chove, pelo que as pontes lá se vão aguentando... Há despedimentos, há miséria, mas convenhamos: o Natal já passou, se não vier vaga de frio a lembrar-nos de que há sem-abrigo, só lá para Dezembro terão direito às couves e bacalhau tranquilizadoras das nossas consciências. Há, por esse mundo fora, catástrofes naturais, cheias nuns países, vulcões noutros... Mas é longe, não nos interessa; como também não nos interessam os massacres da Nigéria ou da Síria, ou a capacidade nuclear do Irão...
Precisamos assim de não-notícias bem vivinhas. E a maçonaria parece vir a talho de foice, pois queremos saber tudo sobre toda a gente que, por qualquer razão, alcança alguma notoriedade -- se possível, os podres, na sua falta, o que melhor escondem.
Não basta que um cidadão revele rendimentos e fontes e interesses; em breve precisará também de revelar as inclinações sexuais, declarar qual o seu clube de futebol ( se não tiver, invente, que não é crível que não tenha nenhum), as confrarias a que pertence ou em cujos eventos participou, os clubes (automóvel, motas, campismo, pesca...), os grupos de sueca e, porque não? as amantes que teve, aquelas que sonha vir a ter. Porque, nenhuma dúvida, qualquer desses grupos de interesses pode condicionar a sua actuação: sem me alongar, pergunto: quantos políticos não foram instrumentalizados por amantes? Quantos negócios se não fizeram por entre  uns copos aparentemente inofensivos ou uma suecada?
Ah, responder-me-ão, mas a maçonaria é diferente. Todos ouvimos falar de lojas criminosas, como a P2 italiana; e se os maçons se escondem é porque algo têm para esconder, não é?
Tanta estupidez confrange-me, apesar de estar habituado. Ou os maçons violam a lei e devem ser punidos, ou aquilo que por lá fazem é com eles. Uma sociedade secreta é isso mesmo: secreta. Querer obrigá-la a revelar os seus segredos é pura infantilidade: exporá à luz o acessório, como rituais e indumentárias, esconderá melhor o essencial. Foi o que explicou Fernando Pessoa, quando, em pleno salazarismo, quiseram extinguir as sociedades secretas. O que só mostra como a estupidez nacional é recorrente. Ou endémica, não sei bem.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os ignaros

É sabido, é repetido até à exaustão: nós, que escrevemos em blogues, falamos do que não sabemos; move-nos sanha justiceira, inveja, incompreensão, ignorância sobretudo; o ricaço muda  a sede para a Holanda, como tantos outros fizeram já, por nossa culpa, que os perseguimos para que paguem impostos, que os acusamos de serem responsáveis pela situação nacional, que ousamos falar deles como sendo "ricos", quando, na verdade, são apenas trabalhadores a viverem do seu salário, quantas vezes bem modesto.
A mim, que me guio mais por sentimentos do que por razões, ensinado pelos anos de que cada qual tem a sua, pergunto: Onde é que enriqueceram? À custa de quem? Nessa Holanda, como emigrantes, ou cá, a importar bens para arruinar a nossa produção? Apenas com o suor do seu rosto, ou à custa de milhares de desgraçados e desgraçadas, que ouço muitas vezes dizerem que há horas deveriam ter saído e fechado a caixa do hipermercado? E os filhos à espera à porta da escola, a crescerem sem pais presentes, para que os patrões, fazendo contas, deslocalizem fortunas para onde os impostos sejam mais baixos ou as condições de financiamento melhores.
É assim que me fazem dar razão ao camarada Jerónimo: pátria, povo, servem como financiadores, mercados, consumidores. Que os grandes capitalistas nos lixem, já não é pouco; agora que tantos se dêem ao trabalho de defender o indefensável, a saber, que é compreensível que o capital por cá acumulado deserte, irra, é de mais. Cá para o pagante -- chega. Basta. E que ninguém se esqueça: foram os génios das finanças, os economistas, os financeiros que nos conduziram ao ponto em que estamos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ratos e homens

Não me refiro ao livro de Steinbeck, aqui ao lado. É àqueles empresários que enriqueceram em Portugal, mas antes que o barco dê sinais de naufragar se aprestam a mudar os capitais para as holandas e bolandas. Por mim, só vejo uma maneira de reagirmos, já que o governo os não impede de deslocalizarem o dinheiro por cá ganhado: boicotar os seus produtos.  Como toda a gente sabe, os capitalistas, especialmente os patriotas, guardam o patriotismo na carteira.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ai, a politesse...

Os autarcas, fiados no seu rifão "quem não berra não mama", primam pela rudeza da linguagem e dos modos:

Assembleia Municipal de Portimão exige suspensão imediata de cobranças na A22 (Lusa)

A Assembleia Municipal de Portimão exigiu a suspensão "imediata" da cobrança de portagens na Via Infante de Sagres/A22 (Algarve), no sentido de salvaguardar o turismo como a principal atividade económica da região. 
Será, talvez, a altura de mudarem de provérbio; sugiro "não é com vinagre que se apanham moscas".

domingo, 1 de janeiro de 2012

O léxico e as tradições

Anda o léxico adulterado, ao ponto de me julgar a viver em universo alternativo: os náufragos, os perdidos, são hoje em dia "resgatados" (quanto pagarão pelo resgate?) e já não salvos, ou encontrados; é "tradição" tudo aquilo que nos impingem como tal... Assim, o camarão, as doze passas, o champanhe, o fogo de artifício, tudo é tradição neste país e deste povo que julga ter sempre vivido na abastança. Para avivar memórias a quem ainda as tem, aqui vai um excerto de Entre Cós e Alpedriz sobre a passagem de ano:

Ao cair da tarde já ardiam no Jogo cepos enormes, oferecidos por ricaços e carregados em carros de bois por homens e rapazes. À medida que a noite ia arrefecendo, chegavam-se à fogueira, as costas resguardadas do frio e da humidade nocturna por capuzes feitos com sacos de serapilheira. De tempos a tempos afastavam-se do lume peregrinando de adega em adega, provando a água-pé de um e de outro ou mesmo o vinho novo ainda meio cru, que nos dias seguintes os obrigará a correr volta não volta para o campo com os intestinos desarranjados pela soltura. Não pensam agora nas consequências, antes em festejar o fim de um ano de sofrimento, em beber para esquecer já o próximo e o seu destino de servos grudados à terra do nascimento até à morte, receosos de que se confirme uma vez mais o dito atrás nunca vem o melhor.
Nas adegas, alumiados por ténues lamparinas de azeite que mal permitem que se vislumbrem entre si, discutem o tempo, a chuva que não cessa e apenas lhes permite, no máximo, ter dois dias de jorna por semana, quantas vezes dados como esmola pelos patrões de todo o ano, que entendem que o trabalho nas adegas, debaixo de telha, não tem o mesmo valor que o do campo, suportando as inclemências do Inverno. Habituaram-se há muito tempo a que os servos e as famílias os ajudem de graça nesses serviços, trasfegando o vinho, matando-lhes os porcos, chamuscando-os, desmanchando-os, as mulheres lavando as tripas, os filhos metendo uvas durante a vindima ou entrando nos cascos para os lavar, todos sempre solícitos, sempre prontos a trabalhar de graça em troca do favor que fazem dando-lhes serviço ao longo do ano que nem lhes passa pelas cabeças que possa haver diferente ponto de vista: para os servos, a esmola patronal é apenas ganância e exploração, mas calam-se, por saberem que se protestarem jamais conseguirão trabalho.
Falam das privações, com a comida a escassear em casa de cada um, comentam até mesmo a situação política nacional enquanto limpam com a costa da mão os beiços tintos da bebida e passam a outro o copo para que se sirva, espichando o roxo vinho, conforto e sustento dos cavadores de enxada nesta vida sofrida. Deixarão o copo no postigo do tonel e sairão para a rua uns atrás dos outros, por último sairá o dono da adega, que precisa de trancar a porta, talvez com um cadeado, talvez apenas com um arame — é o suficiente para que ninguém invada a sua propriedade e lhe furte os seus escassos bens: uns botins de borracha já rotos, uma descalçadeira, feita com uma tábua recortada em V para o ajudar a retirar as botas no final de cada dia de trabalho, talvez um velho fato de oleado herdado do pai, uma escudela, uma gadanha, um grande funil de chapa pintado com zarcão para que não enferruje, alguns garrafões com o bagaço da queima do folhelho, uma faca ferrugenta já sem bico, um bocado de sebo para empostigar tonéis ou ensebar o calçado, um mexedor de uvas e pouco mais.
Mais à frente, urinam contra as paredes, Quando mija um Português, mijam logo dois ou três. Depois, regressam à fogueira do Jogo e aquecem-se, sob o borranho interminável, até que um outro convide para provar a sua pinga; demoram apenas o tempo de lá chegarem, acenderem a lamparina, simples torcida mergulhada em azeite rançoso, e a conversa continua, interminável como a chuvinha que não cessa de cair, como a miséria que os não largará jamais.