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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sombras de varas tortas

Assombra-me (e inspira-me, confesso-o) a sinceridade com que certas mulheres mentem na blogosfera. Mor espanto me fazem quando mentem dizendo verdades. Artistas, há que reconhecê-lo. 
Não se trata já de vida dupla, a virtual a ofuscar a real, matéria sobre a qual escrevi recentemente um conto, ainda inédito. É algo muito mais interessante, como se fosse a pessoa a perseguir a sua própria sombra, corrigindo-a, afinando-a pelo diapasão da moda blogosférica. 
Trabalho fascinante, insano embora, este de endireitar a sombra da vara torta. Será objecto de conto logo que tenha tempo para o escrever.

domingo, 28 de agosto de 2011

Comércio tradicional

Alguém me conta: -- Vou montar um negócio.
E eu, conservador, faço aquelas perguntas cautelosas: ramo, localização, clientela, previsões de crescimento, de sobrevivência até...
-- Ora, dá para os outros, também há-de dar para mim.
Num país em que os empresários têm em média o 6º ano, que mais se pode esperar?
A ilusão durará uns meses. Depois ficarão os credores a arder e os concorrentes solidamente estabelecidos mais próximos da falência, destruídos em guerras de preços nesta concorrência desleal.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A descida da ladeira

Insisti com a minha filha mais nova, então na adolescência, como insistia com os meus alunos, para que lesse literatura. Dei-lhe A Morgadinha dos Canaviais, obra que me havia encantado na minha própria adolescência.
E no fim-de-semana seguinte, estranhando a ausência de comentários: -- Que tal o romance?
-- Não li e não vou ler.
Fiquei siderado.
-- Porquê?
-- Porque já li 8 páginas e ainda vêm a descer a ladeira!
(Lembras-te, Sofia?)
ADENDA: A Sofia lembra-se  e corrige-me: não foi As Pupilas do Senhor Reitor, como inicialmente escrevi, mas a Morgadinha. Não desciam, mas subiam. Há muito que não releio Júlio Dinis. Aqui vai o início do romance:
Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Uma grande merda, reconheço-o hoje.  Aprende-se muito com os filhos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tempo bem aproveitado

No seu blogue, o pintor e amigo João Alfaro faz um inventário algo amargurado ("Mas não sou capaz. Sou vencido pela preguiça, pela incapacidade de criar...") do seu trabalho no último ano, o primeiro da sua reforma. João, quem como tu aproveitou um ano de reforma para fazer tudo isto pode orgulhar-se do aproveitamento do tempo. Um abraço e desculpa roubar-te a imagem.

Da agiotagem intolerável

Sempre que aqui escrevo sobre economia e finanças começo por deixar bem claro que nada percebo do assunto, salientando, no entanto, que foram os entendidos que nos conduziram à presente situação de pré-falência e à perda de independência nacional, talvez mais acentuada do que durante o domínio filipino. E dana-me ver que não apenas a situação actual é insustentável, como nada se faz para romper com ela: a Grécia paga (pagará?) juros de 46% em empréstimos a dois anos. Isto é agiotagem no pior sentido da palavra, e a Grécia devia simplesmente declarar insolvência, tramando os banqueiros que a chulam. Porque quem rouba a ladrão...
Dir-me-ão: nós não somos a Grécia. Pois não. Ainda há pouco Obama também dizia que os EUA não eram a Grécia, não eram Portugal. E viu-se no que deu, com a descida quase imediata do rating dos EUA.
Estamos todos no mesmo barco, à mercê dos mesmos piratas, caminharemos na prancha uns após outros, isto se não os enfrentarmos com as armas da sacanagem, essas com que nos querem esfolar vivos.
Que armas temos ao nosso dispor? O medo. Devemos substituir o medo de que não nos continuem a emprestar pelo receio dos credores de não receberem os juros a que se julgam com direito e, eventualmente, o capital já investido. Que não haja pruridos de consciência: trata-se de dinheiro roubado, que agiotagem é crime. E os agiotas têm os sentimentos na carteira.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Oiros

As festas do Minho e os anúncios omnipresentes "compra-se ouro, máxima descrição" provam a quem dúvidas tiver que o oiro, ou ouro, voltou a estar na moda. E eu lembrei-me de já ter antes escrito sobre o nobre metal. Foi Entre Cós e Alpedriz:
Atrai as atenções uma mota com side car, ribombando como os foguetes que regularmente atroam os ares, estremecendo vidros e obrigando a semicerrar as pálpebras enquanto se aguarda o próximo estrondo, já anunciado pelo sibilar na subida aos céus. Prontamente todos a rodeiam, admirando-a — Ah, como gostariam os rapazes de poder ter um dia uma BMW reluzente como aquela! Também as mulheres se aproximam, mas não é a máquina que as seduz, é o conteúdo que o dono e a mulher retiram do barco com rodas e expõem: brincos, pulseiras, anéis, fios, tudo pregado a tabuinhas que fazem as vezes de expositores, reluzem em tons de oiro e de prata. Conversam com o casal de vendedores, relembrando a jóia que o marido lhes comprou há anos, quando a vida corria melhor, inteirando-se da valorização de então para cá:
— Quanto é que vossemecê me dava agora por esta pulseira? E alardeiam orgulhosas a mais-valia conseguida com o investimento ou dizem à vizinha que sim, aqueles fios são lindos, mas não se comparam com o que herdaram da avó, entretanto enriquecido e adornado com uma libra de oiro. Os ourives confirmam sorridentes, certos de que a melhor publicidade vem das clientes satisfeitas, assim nem é difícil convencer o povo de que oiro e prata são dos poucos bens duradoiros neste mundo, valorizando sempre, pelo que vale a pena o sacrifício, gozarão elas a beleza das jóias, fruirão os herdeiros do seu valor, sempre crescente.
Mulheres com outro poder de compra chegam-se, tomam nas mãos os artigos, sopesam-nos, criticam a qualidade para ouvirem da boca dos negociantes juras de honestidade e quilates de garantia; deixar-se-ão convencer e procurarão os respectivos homens...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A verdade e o azeite

Sempre me fez espécie ver tantos  a viverem à grande e à francesa, apesar de, em muitos casos, terem salários bem inferiores ao meu. Como é possível, interrogava-me sem os invejar, férias no estrangeiro volta-não-volta, jipes, carros e carrões, vivendas luxuosas, roupa da moda e de marca para os filhos, a que não faltam também os telemóveis topo de gama... E eu a vê-los prosperar, culpando o meu estômago por não passar da cepa torta, já que as estroinices são pagas com extras que, em anos bons, vou ganhando, tudo declarado às finanças. 
Bem me telefonavam dos bancos, bem me enviavam SMS a oferecer milhares de euros postos na conta sem precisar de fazer nada. Em vão. Agora bancos e devedores queixam-se. O pior é que, tal como com o BPN, sobrará para mim. 

E ele a dar-lhe...

Eduardo Pitta continua a sua cruzada em prol da avaliação de professores. E eu tinha resolvido não voltar a falar da dita cuja, mas os seus posts tiram-me da preguiça. Meu caro Eduardo (posso?), o problema para mim não é, e nunca foi, a avaliação. Desde miúdo que adoro exames e avaliações. Quando era mais ingénuo, também eu defendi uma avaliação que, se não excluísse do ensino doidos varridos, baldas, ignorantes e convencidos, pelo menos não lhes permitisse progredir por igual na carreira. O problema é que, com as avaliações que foram sendo implementadas, me convenci de que estes seriam os excelentes e os muito bons, mestres nas evidências e na arte de encontrar buraco onde progridem, sem alunos e não raro sem trabalho. Ou seja, a desenvolverem as tarefas que o actual sistema de ensino sobrevaloriza, em vez do trabalho reles de dar a cara perante turmas de 28 alunos, uns 56 pais e uns tantos avós, frequentemente descontentes com as notas do professor, que não dá vinte a cada um dos pupilos. 
É só isto. Proponha o Eduardo um avaliação decente, com assistência às aulas, análise de currículos,  provas públicas, assiduidade, cumprimento do dever, etc., e cá estarei a apoiá-lo. Avaliações à la Maria de Lurdes, não, muito obrigado.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A chaminé ainda fuma

Estávamos em 1973 e eu era servente de pedreiro em Leiria. Naquele momento estava a dar serventia a dois estucadores, um velho, pelos meus padrões da época, outro um jovem da Prisão-Escola, que por bom comportamento estava autorizado a trabalhar fora. Tudo corria bem até que entrou o encarregado. O jovem presidiário, como se tivesse o diabo no corpo, deu em atirar loucamente massa para o tecto, alisá-la velozmente, máquina de estucar de 20 anos a querer impressionar o encarregado. O "velho" continuou no seu ritmo, sempre certo, calmo. E o encarregado, que fora carpinteiro antes de passar a costa direita:
-- Ó F, está a ver como é que se faz? -- apontando o bom exemplo, encarcerado por assalto violento à mão armada a casal de octogenários.
O estucador zangou-se. O que contava era o trabalho feito no final do dia, quantidade, mas sobretudo  qualidade. O encarregado enfureceu-se, a conversa subiu de tom, ambos exaltados, enquanto o jovem presidiário, com a força da idade, estucava como se com ele nada fosse.
E o mais velho: -- O quê? Então é isso? A chaminé ainda fuma e a despensa tem batatas. 
Arrumou a trouxa e foi-se embora, naquele tempo em que não havia subsídio de desemprego.

Viagens gastronómicas

Almoço no Alto Pina, Alcorochel, Torres Novas. Queijo fresco, pão  caseiro, jaquinzinhos com arroz de tomate, costeletas de borrego grelhadas, tinto da casa, melão, cafés. Infelizmente não havia os pastéis de nata do costume. A simpatia da dona, tudo muito bom, 20 euros, duas pessoas. Vale a pena.

Metam-no no cu

É a resposta a todos aqueles que atiram à cara dos outros com "o dinheiro dos meus impostos". Da primeira vez que ouvi a frase, há um ano, passavam jactos sobre a praia e um miúdo pergunta:
-- Pai, são F16?
E o progenitor, sábio e pedagógico:
-- Lá andam esses cabrões a queimar "o dinheiro dos meus impostos!"
Depois foi o finlandês que interpelou Passos Coelho num restaurante da Madeira durante a campanha eleitoral: -- Espero que não esteja a pagar com "o dinheiro dos meus impostos!"
Ontem, os manifestantes anti-papa em Madrid: -- Não com o "dinheiro dos meus impostos!"
Sugiro que comecem a trazer na lapela a declaração de IRS, o IMI, os descontos para a Segurança Social, para que eu não fique a pensar que são eles que vivem dos impostos e das contribuições dos outros. Que eu pago escrupulosamente, até porque não tenho como fugir. E não me queixo, apesar de saber que parte deles e delas vai para subsidiar malandros e para pagar reformas que eu nunca terei, muitas vezes para gente mais nova do que eu, que já tenho 38 anos de descontos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Os Maias

Excelente post de Pedro Correia: o Eça de Os Maias (e, acrescento eu, o do Crime do Padre Amaro e dos Contos) é um prazer inesgotável. E pensar na guerra que me espera a tentar convencer os miúdos do 11º ano: ao menos, olhem para o romance em vez de se contentarem com a leitura das sebentas que resumem as histórias e as dissecam no pior estruturalismo -- ou, pior ainda, ficarem pela versão telenovelesca.

Hodie uinum bibo

Contava eu um jantar na tasca da Tia Maria*: queijo curado, sopa de feijão, pão muito bom, alheira e morcela grelhadas, tinto a cair na necessidade, umas costeletas de borrego também elas grelhadas a compor... Logo um conhecido, desses que se privam de viver em nome de (um certo conceito de) vida saudável)  se chega irónico, a tentar fazer-me azia: -- Só colesterol!
Não fumo porque não gosto, faço exercício porque gosto, como bem e bebo sem me embebedar, não estou nesta vida para me mortificar mais do que o necessário, pelo que essas conversas de colesterol, índice de massa corporal, adoçante em vez de açúcar, nada de álcool, alimentação hipo-calórica, etc., nunca me convenceram. E estudos como este, se não me tranquilizam, que a Velha da foice não se esquecerá de mim, permitem-me continuar a saborear a comida sem remorsos nem má consciência. Porque, como alguém gravou numa taça há milhares de anos em língua pré-latina, hodie uinum bibo, cras minime.

*A tasca fica no Livramento, Porto de Mós, do lado direito quando se sobe. Vale a pena.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A meados de Agosto

A meados de Agosto o tempo muda e o calor do Verão dá lugar, por dois ou três dias, à fresquidão outonal. Começa a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, cola-se às pessoas, às árvores e às casas, tomba depois já reunida em grossas gotas, enlameia o pó dos caminhos, some na terra sequiosa.

sábado, 13 de agosto de 2011

Escrever e ser lido

Escrevo neste blogue consciente da quase inutilidade do acto -- e não me levo tão a sério que esperasse ou desejasse que fosse diferente. Não quero influenciar ninguém, embora tenha a veleidade de aventar ideias, frequentemente em bruto, dispensando-me de argumentação que as possa tornar mais aceitáveis. E surpreendo-me por vezes, seja ao consultar a estatística, seja ao ver um dos meus posts recomendado para leitura e num dos meus blogues favoritos, o Delito de Opinião. Ao Pedro Correia, mais uma vez, o meu muito obrigado.

Se fosse em Lisboa?

Aquando dos motins de Londres, os jornalistas ingleses revelaram coragem e civismo ao confrontarem os gatunos com os seus próprios actos, com perguntas do tipo "Acha correcto o que está a fazer?" 
E eles desculpavam-se com insinuações de racismo: "É por ser um jovem negro, desculpem ser um jovem negro", ou armando-se em novos robins dos bosques: "Estou a recuperar o dinheiro dos meus impostos".
Se tivesse sido em Lisboa, qual teria sido a atitude dos nossos repórteres televisivos, alguns dos quais se comportam como incendiários sociais, mais preocupados em amplificar os conflitos do que em relatá-los com objectividade?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Bom Londres é Portugal

Os motins de Londres revelam algo que o discurso politicamente correcto tentou fazer esquecer como coisa do passado, irrepetível no presente: a barbárie ameaça constantemente a civilização e ai desta última se não se souber defender com a violência necessária e suficiente, fazendo orelhas moucas ao canto dessas sereias para quem bater é um acto cívico, se o espancado for um polícia, ou uma violação dos direitos humanos se o agredido for um meliante que pilha e incendeia. À la guerre comme à la guerre, n'est-ce pas?
(Título: pilhado a Fernão Lopes, que, como ninguém, nos mostra o que a turba é capaz de fazer e os motivos que inventa para se justificar -- a morte do Bispo e daqueles que com ele jantavam, a tentativa de assalto à judiaria...)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coisas que traz o Verão

A uns, evasão; a quase todos, transpiração; à Ivone, inspiração. Muito bom este poema. Parabéns.

domingo, 7 de agosto de 2011

Herdanças e heranças

Uma velhota esteve nove anos morta em casa. Durante esse tempo, não teve herdeiros, suponho. Ninguém a visitou, ninguém lhe telefonou, ninguém estranhou a sua ausência o suficiente para meter dentro a porta da casa e saber o que lhe teria acontecido. Culpa do Estado.
Ah, a velhota tinha bens. Pois os herdeiros apareceram e até "pensam" (a notícia sugere que quem pensa é a advogada) processar o Estado:

Herdeiros não sabem dos bens da idosa que esteve morta nove anos dentro de casa

Os herdeiros da idosa que esteve morta durante nove anos em casa, em Rio de Mouro, continuam sem conseguir apurar onde se encontram os bens que estavam na casa antes da venda do imóvel em hasta pública.

Silly season

(1) Em certos empregos, um mês de trabalho dá direito a férias:
...[Passos Coelho] vai estar uns dias com a mulher e as filhas "para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai", notando que "vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias".
(2) O que quer o homem dizer com "recuperar tempo do [seu] papel enquanto marido e pai"? Que governar é tempo perdido? Que "marido e pai" é um papel (representado, suponho)? Que o tempo perdido pode ser recuperado?
Desisto. Ou serei eu a precisar de ir não sei para onde recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Apenas sugiro que da próxima se desenfie uns dias sem dar cavaco a ninguém e, sobretudo, ao dito cujo. Ah, e não precisa de nos querer mostrar que é marido dedicado e pai extremoso. Já foi eleito.


sábado, 6 de agosto de 2011

A riqueza virtual

Bombardeado diariamente com imbecilidades noticiosas, vejo-me obrigado a, mais uma vez, meter a foice em seara alheia, falando da área económico-financeira, de que nada entendo, como a minha própria situação evidencia. Em defesa da minha pretensão, um argumento que julgo supremo: foram os entendidos, os génios das finanças, que conduziram o Mundo ao ponto em que se encontra. Portanto não saberão muito mais do que eu... Aqui vai.
Poucos animais se preocuparão com riquezas. Uma das excepções será o cão, pervertido por longo convívio com o homem. O meu, por exemplo, se acaso tem abundância de ossos, enterra o excedente; mas como esquece onde enterrou o seu tesouro, escava todo o jardim em busca da sua riqueza perdida...
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais  valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
As bolsas mundiais já perderam mais de 3,1 biliões de euros desde que a crise da dívida soberana na zona euro se instensificou, desde o princípio da semana passada, de acordo com a contabilização feita pela agência Bloomberg.
Aparentemente, não há qualquer relação entre a produção de riqueza não especulativa e a queda bolsista. Se assim for, as quebras ocorrem sobretudo na área especulativa, afectando o valor virtual e não tanto o valor real das empresas cotadas, seguramente bem inferior.
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Homem mais rico do mundo perde 8 mil milhões de dólares em quatro dias

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reforma ao Sol

Se não chover. Vejo que o ministro Álvaro não consegue escapar à tentação de encontrar uma solução salvadora para a pátria, à imagem e semelhança dos seus antecessores. Tivemos Soares, que descobriu o milagre da adesão à CEE, Cavaco com a receita do bom aluno europeu, o seu ministro das Obras Públicas a cobrir de betão o país, Guterres e as Tecnologias da Informação (que em 2010 colocariam a Europa -- e Portugal -- à frente dos Estados Unidos), Sócrates e os magalhães...
Faltava-nos esta, fazer de Portugal o asilo da Europa. Senhor ministro, a trazer gente dos países nórdicos e do Reino Unido, não prefere as gajas boas que por lá abundam? É que velhos, a começar por mim, somos de mais e já nos falta a genica para cuidar deste jardim à beira-mar plantado, quanto mais dos velhotes e velhotas que quer importar. 
Senhor ministro, dois conselhos: aprenda a calar-se e esqueça a pretensão de salvar a pátria. A não ser que a queira salvar das idiotices com que cada governante nos afunda mais um pouco.