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terça-feira, 28 de junho de 2011

A geração mais qualificada

Têm as melhores notas de sempre, em boa parte mercê das explicações, do facilitismo, da inflação, das  pressões que os pais exercem sobre escolas e professores  --  e das calculadoras que contêm as cábulas: façam-lhes o reset antes dos exames (ou interditem o seu uso) e será a catástrofe.
Aprenderam a aprender, a fazer projectos, a investigar, estudaram formação cívica e sexual, tudo em planos aprovados pelos seus representantes e pelos dos seus pais. Rebolaram pelo chão em colchões nas aulas de Teatro, passearam amiúde em “visitas de estudo”, frequentemente até ao estrangeiro. Tiveram o maior tempo de permanência na escola, a maior carga horária de que me recordo; doses cavalares de Matemática, de Física, de Biologia, divididos em turnos por causa das experiências que talvez tenham sido mais raras do que se pensa; inscreveram-se em Moral pelas “visitas de estudo” e pelas notas altas para entrarem para os quadros de mérito e de excelência; fechados na escola, fechados nas salas de aula, transformaram-nas em recreios, saindo amiúde, para ir às sanitárias e aos cacifos, para encher as garrafas de água, para conviver, namorar – e o ruído durante o tempo de aulas tornou-se ensurdecedor, mas só dele dão conta quando fazem os testes intermédios.
Tiveram direito a complementos, a medidas de apoio, a apoio pedagógico acrescido, a tutorias, a professores de apoio, a psicólogos… Aprenderam a escrever colectivamente poemas e histórias, bem aplaudidos em cerimónias públicas, alguns lêem histórias de vampiros e quejandos – mas não tiveram “contacto merecedor de registo” com a literatura, nem sequer aquando do estudo das obras de leitura integral. Não aprenderam a amar a poesia, poucos leram alguma vez um bom romance. Desconhecem a História de Portugal, a Geografia, essas velharias, que ideias novas, como “A minha pátria é a Europa” ou a “Europa das Regiões”, tornaram obsoletas. São do mundo dos afectos, da não memorização, da investigação – que produz não raro trabalhos imprimidos directamente da Net.  Não os culpo: sou também responsável pelas suas “qualificações”.
E depois têm exames. Ora, embora na sua maior parte saibam ler e o façam expressivamente, são incapazes de explicar o que acabaram de ler. Quando escrevem, poucos vão além do estilo telegráfico  dos SMS e da trivialidade do Facebook. A pobreza lexical é confrangedora. Mesmo os textos daqueles que escrevem melhor se ressentem do vazio de conteúdo, da falta generalizada de cultura geral. Não lêem atentamente  as perguntas dos exames  porque tal nunca foi verdadeiramente necessário e nós, professores, sempre valorizáramos a conversa da treta com que enchem papel, aproveitando sempre que podemos uma palavra aqui, outra ali, para o almejado sucesso escolar – evitando planos de recuperação e justificações pelos resultados deles.
Receio que a situação seja irreversível: os professores mais velhos, entre os quais me incluo, sofrem de desalento, de desmotivação, descrentes num sistema de faz-de-conta, em que o que importa é apresentar “evidências” em inumeráveis projectos e relatórios ; os mais novos, que foram formados nas mais variadas instituições e entraram para o sistema com as regras actuais, dificilmente conceberão outro modelo de ensino… E, mesmo que fossem tomadas medidas correctivas – ai do ministro que o ouse fazer! --, na Educação os resultados demoram muito a surgir, por vezes uma ou duas gerações…

Um montense no governo

Foi com  grande alegria bairrista que tomei conhecimento da nomeação de Fernando Santo, meu conterrâneo e ainda colega de escola primária, como Secretário de Estado. Fernando Santo, com quem não falo há quase cinquenta anos devido à diáspora montense, é bem conhecido dos portugueses por ter sido bastonário da Ordem dos Engenheiros. Desejo que contribua significativamente para o sucesso das medidas que nos tirem do lodaçal onde outros nos atascaram, dignificando o nosso país e honrando a nossa aldeia.
Muitos parabéns.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Karaté em Almeirim

Sábado, 2 de Julho. Direcção: Sensei Vilaça Pinto; organização: Sensei Paulo Almeida . Lá estarei.
Foto: em primeiro plano, kumité entre os sensei Paulo e Xavier, Março de 2010, no Entroncamento.

Pára-raios

"Os pára-raios nas igrejas
Servem para mostrar aos ateus
que os cristãos, por mais que o sejam,
Não confiam em Deus"

(popular)

A lição do galo

Serpenteando por entre as colinas verdejantes, brilham as paredes brancas das casas das encostas, destoando uma ou outra no amarelo que foi moda tempos atrás --- e acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento de ferro, em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
Vendo-o assim imóvel, pensar-se-ia até que a ferrugem lhe limitou os movimentos na sua velhice, imobilizando-o nessa direcção; mas não, que quando a aldeia gela fustigada pelos ventos secos de Leste, de onde nunca veio nada que preste, o pobre coitado, não tendo como se resguardar, mais não pode que apontar-lhes o bico, virando a cauda para os lados do mar. (...)
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, consola-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de ventosidades, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado como eu em virar a cauda ao desconforto, o olhar impassível fitando o infinito. Que ele me valha nesta narração, orientando-me para os protagonistas certos, inspirando-me a seguir a direito, sem desvios nem divagações, e, sobretudo, sem verborreia que se pegue ao texto como excremento de galinha às botas do criador.

Cata-vento

Como o cata-vento: humildemente a apontar um rumo vago. Não faltará quem sobranceiro o despreze, o ridicularize, quem recuse  levantar o olhar do chão das certezas nem que seja apenas para constatar a inconstância dos ventos...
FOTO: Ferreira, Paredes de Coura

domingo, 26 de junho de 2011

Da fé

Invejo aqueles que têm fé sincera, genuína. Por isso, creio que não faz sentido o exercício que o José Ricardo nos propõe:
Porque, penso eu, se Deus me aparecesse à frente, eu já não teria medo de morrer. Nem de nenhuma outra coisa. Não ficaria em pânico, não imploraria prolongamento do tempo de vida, fosse para poder ler  mais uns livros ou para aprofundar a via do karaté.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

É português

O empregado de limpeza mais bem pago do mundo. Chama-se Villas-Boas (atenção ao duplo "L" e ao hífen, apesar do acordo ortográfico) e, segundo li hoje, vai limpar o balneário do Chelsea.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fadinho do cavanço

Impressionam-me estas declarações patrióticas, sobretudo vindas de quem nos abandonou. Tanto que até lhe dedico esta adaptação do "fado do cavanço" do Corpo Expedicionário Português na 1ª guerra mundial:
Nesta vida de cavanço,
A cavar, como se vê,
Se os boches dão um avanço,
Cava o governante português.
NOTA: A versão original, conforme a História de Portugal, 6º vol., dir. José Mattoso, p. 518, difere apenas no último verso:
Cava todo o CEP.

As férias do governo

Passos Coelho só dá uma semana de férias ao governo. Que diabo, como é que os governantes têm direito a férias se apenas entraram em funções na semana passada? Ou será já a revisão das leis laborais?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quando for velho


Jacques Brel
LA... LA... LA...
1967


Quand je serai vieux je serai insupportable
Sauf pour mon lit et mon maigre passé
Mon chien sera mort ma barbe sera minable
Toutes mes morues m'auront laissé tomber
J'habiterai une quelconque Belgique
Oui m'insultera tout autant que maintenant
Quand je lui chanterai Vive la République
Vivent les Belgiens merde pour les Flamingants...
La... la... la...
La... la... la...

Je serai fui comme un vieil hôpital
Par tous les ventres de haute société
Je boirai donc seul ma pension de cigale
Il faut bien être lorsque l'on a été
Je ne serai reçu que par les chats du quartier
A leur festin pour qu'ils ne soient pas treize
Mais j'y chanterai sur une simple chaise
J'y chanterai après le rat crevé
Messieurs dans le lit de la Marquise
C'était moi les quatre-vingt chasseurs...
La... la... la

Quand viendra l'heure imbécile et fatale
Où il paraît que quelqu'un nous appelle
J'insulterai le flic sacerdotal
Penché vers moi comme un larbin du ciel
Et je mourirai cerné de rigolos
En me disant qu'il était chouette Voltaire
Et que si y en a des qu'ont une plume au chapeau
Y en a des qui ont une plume dans le derrière...
La... la... la
La... la... la

Quand je serai vieux je serai insupportable
Sauf pour mon lit et mon maigre passé
Mon chien sera mort ma barbe sera minable
Toutes mes morues m'auront laissé tomber


Jacques Brel

Desprazeres

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Camões
Quarenta e muitos anos atrás o meu avô paterno confidenciou-me que queria morrer. Porque, perguntava-me e eu não respondia, o que é que cá andava a fazer. Talvez por isto, tenho sempre defendido que devemos cultivar interesses e ocupações que possamos manter em idade mais avançada. E agora que a minha mãe está finalmente num lar choca-me vê-la, desinteressada, apática, como tantos outros à espera de que os dias passem por eles, sem uma alegria visível, sem um sonho, um desejo. Sem vontade, sem a vontade de viver, o que não significa terem vontade de morrer. E dou por mim a pensar como também prazeres anteriores têm já o gosto danado: deixei de ler religiosamente ao sábado o Expresso e há muito que não sinto interesse pela leitura dos outros jornais; de há uns meses para cá a leitura dos blogues tem sido menos intensa, menos atenta, mais aleatória até; depois de A amante holandesa, não comecei nenhum dos muitos romances que esperam por leitura... Estarei eu a ficar desinteressado como os velhotes do lar, o mesmo vazio no olhar, idêntico ar parado, semelhante conversa resmungona? É sabido que quem lida com um coxo acaba por coxear, pelo que prestei atenção às minhas ocupações e leituras. Ora o que verifico é que cada vez leio mais: neste momento, The Elegant Universe: Superstrings, Hidden Dimensions..., Fernão Lopes (Crónica de D. Pedro e re-re-leituras da de D: João I), João de Barros (Gramática da Língua Portuguesa, Ropica Pnefma -- culpa de Mário de Carvalho, que a refere num dos seus romances --, José Mattoso (Naquele Tempo), e tantos outros. O que se está a passar comigo é, suponho, uma crise de impaciência face à superficialidade de alguns textos e, sobretudo, de temáticas da actualidade. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma lição

O Afonso está adoentado. Hoje, a mãe diz-lhe que não vai à escola (o infantário). Recusa.
-- Porquê?
-- Tenho coisas para aprender.
Recordo-me de um estudo sobre iliteracia que mostrava duas realidades nacionais: (1) baixíssima formação e (2) convencimento de que as habilitações e os conhecimentos possuídos eram mais do que suficientes para a execução da função social do inquirido. Coisas como "para aquilo que faço sei de mais" ou "estou velho para estudar (ou para aprender)". Enquanto nação, enquanto povo, enquanto adultos, imitemos as crianças, abandonemos a auto-satisfação arrogante de quem tudo sabe e nada precisa de aprender, recusemos as facilidades em que não haja correspondência entre títulos académicos e conhecimentos obtidos. Neste momento de crise nacional, mais do que protestos deitados, precisamos de nos levantar, de estudar com vontade, de exigir dos professores, não notas cada vez mais altas (chegando a 20, pára-se), mas um ensino de qualidade. Que paulatinamente substitua as patranhas do eduquês por conhecimento científico, técnico, literário. É o que espero, é seguramente o que o país espera, do novo ministro da educação, a quem desejo o maior sucesso. Para bem de todos nós.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O óbvio

A minha mãe estava a melhorar. Devagar, mas progressivamente. Por isso, na terça devolveram-na ao Hospital de Alcobaça, de onde tinha saído a 10 de Março, à beira da morte. Para quem não sabe (e eu não o sabia até lá entrar) o SO é uma espécie de urgência. Arrumam lá os doentes que não têm lugar nos restantes serviços. Arrumam-nos, porque, dizem e eu acredito, mais não podem fazer. Por isso, logo na terça à noite, a minha mãe numa maca, perguntei à médica porque é que estava no SO e não noutro serviço. 
-- É tão óbvio que nem vejo porque é que lho tenho de explicar. 
Tenho muita dificuldade em ver o óbvio, ao contrário dos médicos. Os quais, desde 3 de Janeiro deste ano, diagnosticaram à minha mãe: 1. Tendinite. 2. Zona. 3. Artroses. 4. Trombo-flebite. 5. Infecção pulmonar. 6. Aneurisma da aorta -- este último, certeiro, em Santa Maria. É óbvio que alguns diagnósticos estavam errados. É óbvio que os tratamentos para diagnósticos errados podem ter agravado o seu estado de saúde. É óbvio que se perderam meses preciosos enquanto a saúde se deteriorava. É óbvio que em Santa Maria lutaram incansavelmente pela vida dela. É óbvio (ou não será?) que se o Hospital de Alcobaça não tinha possibilidade de receber e tratar adequadamente a minha mãe, deveria ter sido enviada para outro hospital. É óbvio que não vale a pena salvar doentes com esforço, dedicação e custos elevadíssimos para depois definharem numa cadeira de hospital, quase sem visitas (só 2 familiares, 15-16H e 21H-21H30)), o resto do dia sem ocupação, sem estímulos, sem fisioterapia...
Na quarta-feira, ontem, fui humilhado por uma auxiliar: a visita das 21H começou bem depois das 21H30, hora a que termina; a minha prima entrou primeiro, a meu pedido, que a minha mãe não a via desde 10 de Março, e avizinhando-se o términos da visita, saiu para me dar lugar; eu, como tinha a minha senha e o corredor é muito longo, não vendo segurança nem outro pessoal por ali, entrei à pressa, apenas para me despedir da minha mãe. E encontrei uma auxiliar.
-- O que é que está aqui a fazer?
-- Sou a segunda visita, e mostrei a senha.
-- Faça favor de sair.
Aparvalhado, nem percebia. Pensei que me dizia que a visita tinha terminado. E o tom de voz. Há seis meses por hospitais, ninguém me tinha assim destratado -- e sem razão.
-- Faça favor de sair, repetia, autoritária.
-- Quero só dizer até amanhã à minha mãe.
-- Faça favor de sair, que eu vou buscá-lo à entrada.
-- Mas se estou aqui consigo...
-- Tem de sair. São as normas do hospital.
A perder tempo de visita, caminhei à frente da auxiliar até à porta de entrada, para depois reentrar atrás dela e percorrer novamente os longos e labirínticos corredores.
É óbvio que em Santa Maria me habituaram mal as auxiliares, enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos, do Bloco Operatório, dos Cuidados Intensivos, dos Cuidados Intermédios, da Enfermaria. A todos eles, o meu muito obrigado. Pela gentileza, pela compreensão, pelo apoio, pelos esclarecimentos óbvios que me nunca negaram. Por aquilo que fizeram pela minha mãe. Esperemos que agora se não perca.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Equívocos agrícolas

A agricultura voltou a ser assunto de discussão, talvez devido às recentes intervenções do Presidente da República, que tendo descoberto primeiro o mar e os seus recursos, se volta agora para a terra. Mudou de opinião este "bom aluno europeu", o qual, como é apanágio de alguns "bons alunos", se preocupou então mais em agradar aos seus mestres do que com o futuro nacional, promovendo políticas que  implicaram  o abate da frota pesqueira e o abandono da actividade agrícola.
Porém, esta mudança de posição preocupa-me, não por discordar do aproveitamento dos nossos recursos, mas porque me parece assentar numa ilusão salvadora, sebastiânica, e por ser demasiado tarde para arrepiar caminho. Antes de mais, importa recordar que os nossos solos, na sua maior parte, têm fraca aptidão agrícola, são frequentemente demasiado acidentados, escasseia a água em muitas regiões e o clima é não raro adverso. Os agricultores que ainda resistem têm idade avançada, baixa formação, pouca ou nenhuma apetência pela comercialização e gestão. E os mais novos não terão grande interesse pela agricultura, actividade mal paga, dura e socialmente desconsiderada em todos os tempos e culturas. E nada sabem fazer, não bastando uns cursos de formação do centro de emprego para virar agricultor.
Acresce ainda o facto de a agricultura moderna, latifundiária, à moda da França ou da Alemanha, ser muito exigente em capitais e os respectivos agricultores se encontrarem fortemente endividados. 
Não vale a pena, portanto, ver na agricultura (e talvez nas pescas) a tábua de salvação para o naufrágio nacional. Exceptuando em certas regiões favorecidas pelo clima, pelo solo, que dispõem de infra-estruturas e em que os agricultores têm um savoir-faire que alia a qualidade ao marketing, não haja ilusões: como disse o papa Pio-não-sei-quantos, há três formas de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres e com a agricultura, acrescentando que o pai tinha escolhido a mais trabalhosa.
Tudo isto parece estar em contradição com a defesa que regularmente faço da terra neste blogue. Não está. A agricultura possível na generalidade do território poderá assegurar a sobrevivência das famílias, proporcionar alguma rentabilidade se combinada com a exploração racional da terra envolvendo o turismo, a pecuária, a caça. Não enriquecerá os agricultores nem lhes dará proventos comparáveis aos que teriam se empregados nas cidades. Terão de se contentar com liberdade, felicidade, exercício físico. E forte desconsideração social. Até na minha aldeia o povo ri quando passo de tractor para a labuta. E imagino o que dirão: grande bruto, a cansar o corpo sem ter necessidade disso. A gastar o que ganha como professor, porque, todos o sabemos, os alimentos comprados nos hipermercados ficam mais baratos do que os produzidos. Mas isso é matéria para outro post, que este já vai longo e eu tenho de me meter ao caminho, rumo a outro hospital para onde transferiram a minha mãe.

sábado, 11 de junho de 2011

Karaté em Paredes de Coura

Chego de mais um estágio fantástico, dirigido como sempre pelo sensei Vilaça Pinto. Cansado, dorido, mas muito satisfeito por ter aguentado a dureza dos treinos. Mais notícias e sobretudo fotos dos exames de graduação, muitas fotos, logo que tenha tempo para as seleccionar. Vão passando.
FOTO: os participantes nos treinos de sexta-feira. No sábado houve mais, mas não foto de família.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ah, le français...

Saudades do tempo em que ensinava Francês -- e como então os alunos queriam aprender! No secundário, a literatura francesa, a música, Brel, embora não fosse francês, tantos outros... Hoje, apesar de ter o meu francês enferrujado, que desde 2000 não vou a França, dou-me conta, ainda, dos pontapés que por cá vamos dando nessa língua que quase foi também minha: é o cantor que traduz "l'ombre de ton chien" por "o ombro do teu cão", são os admiradores do grande Jacques a esquecerem que "doute", 'dúvida' é do género masculino. Que importa? Le français, je l'aime encore, je l'aimerai toujours, sans aucun doute!
FOTO: chez monsieur Michel (de pé), Annonay,   1-15 Abril de 1998. Sentados, da esquerda para a direita, o Sven, sueco, a Clara, a Dália. a Maria José e eu próprio. Curso Les TIC en classe de Langue.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ressaca pós-eleitoral

Para acalmar euforias -- sim, também eu fiquei muito contente com a saída de Pinto de Sousa --, quero só avivar memórias: antes deste primeiro-ministro, agora democraticamente afastado, houve outros: Santana Lopes (PSD), demitido por notória incompetência, Durão Barroso (PSD), que trocou a governação nacional pelo cargo europeu que ainda desempenha, António Guterres (PS), que se demitiu ao aperceber-se da inevitabilidade de medidas de austeridade. Ventos que semearam causaram as tempestades que hoje nos fustigam.
Calma, portanto. Deixem de nos massacrar o juízo com Passos Coelho, veremos o que faz, como se porta. Não há grandes razões para a esperança. E ele não é D. Sebastião.

domingo, 5 de junho de 2011

Final de campanha

Neste fim-de-semana arranquei as batatas. Quinze horas de trabalho duro, solitário. Calor, muito calor, logo às sete da manhã. Sem o alívio de uma brisa na face, sem que nuvem simpática ocultasse o Sol. O suor (eu sei, gente fina não sua, transpira, e só nos ginásios, mas gente fina não arranca batatas), o suor sempre a correr, copioso, da testa, empapando o boné, das sobrancelhas, como de bicas abertas, do peito, ao ponto de a t-shirt poder ser espremida. No regresso a casa acelerava deliciado o tractor para sentir a fresquidão das sombras dos caminhos. E banho frio, para arrefecer o corpo, e seven up traçada com limão, depois com vinho, agoniado dos litros de água ingerida na labuta.
Final de uma campanha difícil, marcada pela doença da minha mãe, que pouco tempo me deixa para a agricultura, e pelos azares climáticos, com chuvadas habituais aos fins-se-semana. Mesmo assim, já estão armazenadas, sem que tal signifique descanso: é preciso combater a traça, que no ano passado destruiu toda a minha produção, retirar regularmente as podres, mais tarde desgrelá-las amiúde.
Vale a pena? Não. Mas em cada Primavera, enquanto puder, continuarei a plantar batatas. É um bom exercício -- perdi quilos só na arranca --, não pensei no monte de testes que tenho de corrigir até quarta-feira, não me preocupei com desgraças, da doença da minha mãe à situação do país, da Europa, do Mundo -- e tenho o prazer de as comer e a satisfação da abundância: se não se estragarem, chegam para a família até à próxima colheita.

NOTA: a imagem de baixo é de colheita anterior, que este ano não houve quem tirasse as fotos.