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terça-feira, 31 de maio de 2011

Estranheza

Casam e descasam por dá cá aquela palha, trocam de casa quase tão depressa como eu de camisa, raízes só as dos dentes, e, no entanto, amarram-se vitaliciamente a um partido que os ilude, lhes mente, nos arruína -- e ser-lhe-ão fiéis e leais como jamais foram aos cônjuges... Não adianta apontar-lhes trafulhices, indecências, desonestidades, corrupção; de nada serve mostrar-lhes as consequências e as inconsequências da governação: só pode ser amor louco, enlouquecedor,  que os cega e nos conduz inevitavelmente para o abismo, porque se um cego conduz a outro cego ambos acabaremos por cair no barranco. 
Esperança para esta lusitânica, que tem a fama de não se saber governar? Apenas uma, nada patriótica: a troika; mas ténue, muito ténue, porque, é sabido, também não nos deixamos governar...
(Imagem: extraída d' O Livro da Primeira Classe)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre a justiça

Há um descontentamento geral, pelos visto partilhado pela troika, relativamente ao estado da justiça em Portugal. Nada de novo: já o rei D. Pedro sentiu necessidade de a disciplinar. Como curiosidade, veja-se como o rei diagnosticou o problema e o atacou sem tibiezas (negrito meu):
E porque achou que os procuradores prolongavam os feitos como não deviam, e davam azo de haver hi maliciosas demandas, e o peior, e muito de estranhar, que levavam de ambas as partes, ajudando um contra o outro, mandou que em sua casa, e todo o seu reino, não houvesse advogados nenhuns; e encommendou aos juizes e ouvidores que não fossem mais em favor de uma parte que outra; nem se movessem por nenhuma cobiça a tomar serviços alguns por que a justiça fosse vendida, mas que se trabalhassem cedo de livrar os feitos, de guisa que brevemente, e com direito, fossem desembargados, como cumpria. E sabendo que eram a ello negligentes, que lh'o estranharia nos corpos e haveres, e lhe faria pagar ás partes toda perda que por ello houvessem. (...)
Então ordenou el-rei, e pôz defeza em sua casa e todo seu senhorio, que nenhum que tivesse poderio de fazer justiça, não filhasse peita nenhuma dos que houvessem pleitos perante elles; e se lhe fosse provado que a tomára, que morresse por ello, e perdesse os bens para a corôa do reino.
Fernão Lopes, Chronica de El-Rei D. Pedro I
Proibiu os advogados, impôs celeridade no andamento dos processos, puniu a negligência com castigos e multas, a corrupção com a morte e a perda dos bens.  Há quase sete séculos!

domingo, 29 de maio de 2011

De olhos postos no céu

Atomizador às costas, apresso-me ligeiro por entre as fiadas de cepas. Mais um tratamento, que o ano corre de feição -- ao míldio e ao oídio e, apesar das curas anteriores, há ataques aqui e ali. Apresso-me, que há previsões de aguaceiros e trovoadas para a região de Alcobaça e eu só posso cuidar da vinha ao fim-de-semana. Quando estou a acabar, um trovão, logo outros, é tempo de abalar, nem lavo o material, não quero ser apanhado pela trovoada num alto, em cima do tractor, além do mais descapotável. E o aguaceiro desaba sobre mim, sobre a vinha, lavando-a -- tempo perdido, esforço inútil, dinheiro desperdiçado. Fica a esperança: talvez não chova no próximo sábado.

sábado, 28 de maio de 2011

Nunca o invejoso medrou...

"Compreendo a desilusão do leitor: resistiu até aqui, mas já desespera... Onde estão esses capítulos intragáveis, de um só parágrafo, páginas e páginas preenchidas apenas com listagens de nomes próprios ou de igrejas, que tornam o romance no melhor dos soporíferos e comprovam que estamos perante escritor de primeira água, capaz de desprezar e maltratar o leitor? Onde as partidas pregadas, para avaliar a cultura de quem lê, como aquele esófago de Mark Twain, que debruçado sobre uma asa contemplava meditativamente o pôr-do-sol? Onde a metáfora para decifrar, alegoria que dê um significado profundo à obra e envolva o leitor na produção de sentidos? Quando aparece esse pintor que ganha a vida fazendo retratos dos turistas junto ao Sacré Coeur e a sua namorada, jornalista sempre em viagem, ora na Quinta Avenida, ora nas gôndolas de Veneza, ora pelas montanhas do Afeganistão? Pois, não há...
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram! Não me sendo concedido outro, venham de lá os escroques da Pide e, tendo conseguido esta mísera vitória, que prossiga a narrativa, remetendo-se este infeliz narrador à malfadada heterodiegese."
(Inédito meu, de uma novela inédita)

Linguagens

Por que razão se espera que um escritor seja bom orador, se escrita e fala são linguagens diferentes? Tal como Rentes de Carvalho, também eu invejo os escritores que impressionam a plateia com os seus dotes oratórios,  como eles invejarão, muito provavelmente, o talento que Rentes de Carvalho evidencia, talvez não ao falar em público, mas nos seus romances, afinal aquilo que, no seu caso, conta.
Inveja sarcástica a minha, eivada de desconfiança por esses escritores que se impõem pela fala, explicando brilhantemente alegorias e metáforas, isotopias e distopias...
"-- Você sabe falar -- comentou.
-- Nasceu comigo.
-- Daria um péssimo escritor -- prosseguiu. -- Nunca conheci um escritor que fosse um bom orador. "
Ray Bradbury, "Rumo a Quilimanjaro", in As Vozes de Marte, colecção Argonauta, Ed. Livros do Brasil, Lisboa)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O rei dos porcalhões

É sabido que machos de muitas espécies têm hábitos porcos, repugnantes até. Assim, sem pensar muito, e correndo o risco de errar porque a minha área não é a zoologia, lembro-me dos hipopótamos, que com a cauda espalham aos sete ventos os respectivos excrementos antes que eles tombem por terra. Dos cães, sempre de perna alçada... Pois o quadro não ficaria completo sem uma referência ao rei dos animais, o homo sapiens, campeão dos porcalhões. As senhoras duvidam? Então entrem, como que por engano, nas sanitárias, vulgo casas de banho, masculinas. Não importa se em cafés, transportes, centros comerciais, hospitais. Se possível, numa que seja limpa regularmente. Conseguirão explicar-me o chão coberto de urina, se os homens têm órgão de precisão que acerta onde querem? Não é assombroso que muitos jamais primam o botãozinho do autoclismo para evitar que desapareçam os preciosos vestígios da sua presença?  
Ecce homo.

domingo, 22 de maio de 2011

Para a (bis)avó Isabel

Há quase dois meses e meio em Santa Maria. Desenho do Afonso. Ele próprio, os irmãos, uma girafa, uma borboleta e um animal terrestre que não consigo identificar. Graças à simpatia de uma das enfermeiras, já está afixado na parede do quarto. CLICAR PARA AMPLIAR.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O professor Cavaco Silva e a agricultura

Tenho memória. Lembro-me bem de teorias segundo as quais era imperativo retirar gente, muita gente da agricultura, porque nos países europeus que nos serviam de modelo a percentagem de população agrícola era muito inferior à nossa. Lembro-me bem dos subsídios para arrancar pomares e vinhas, dessa estranha forma de vida em que alguns prosperaram, plantando com subsídios para arrancar com outros subsídios um ou dois anos depois. Lembro-me dos subsídios para não produzir, ou apenas para alimentar as abetardas. Lembro-me das multas recentes, bem pesadas, para quem recuse arrancar as vinhas plantadas, salvo erro,  depois de 2001...
Se alguém tem problemas de memória é seguramente o professor Cavaco Silva. Já se tinha esquecido do que fez pela destruição da nossa frota pesqueira quando veio apontar-nos o mar e os seus recursos como jangada salvadora. Hoje quer aumento da produção agrícola. Um reconhecimento público das asneiras das suas políticas governativas está, suponho, fora de questão. Porque em Portugal nunca ninguém tem culpa de nada. É o destino.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Violação

(Último post sobre o assunto, espero, ou ainda fico igual àqueles que só falam no político que todos detestamos, mas, receio, acabará por ganhar as eleições. Para que não tenha publicidade grátis, optei por lhe dar desprezo: quanto mais se mexe na merda, pior ela cheira.)
-- Conte então o que sucedeu.
-- Senhor doutor juiz, aquele senhor agarrou-me e violou-me...
-- E você, um rapaz novo, atlético, não reagiu? Porque é que não fugiu?
-- Ó senhor doutor juiz, como é que podia, de saltos altos e saia travadinha?

Uma noite com Pessoa

Uma noite com Pessoa, propõe a casa do dito cujo, o tal que morreu anónimo e miserável e cuja obra continua entre nós a ser mais citada do que lida -- mas quanta gente não ganha a vida à custa dele e da sua memória! Prefiro -- é certo que ninguém me convidou, a mim que sou ninguém -- prefiro passar a noite com a minha mulher. Na tropa tive de dormir em camarata com meio pelotão e não recomendo. Menos ainda dormir com fantasmas. Honrar Fernando Pessoa é bem diferente: faz-se lendo-o e ensinando outros a amar a sua obra. Tarefa árdua, cada vez mais árdua, nestes tempos em que as leituras são não raro substituídas por visitas de estudo, passeios e roteiros, resumos, filmes, peças de teatro, eventos mediáticos -- a actividade não é importante, contanto que poupe aos nossos alunos a maçada da leitura e lhes  proporcione conversa suficiente para se desenrascarem em exame.

Confissões

Sou daqueles que sempre evitaram a proximidade da doença e da morte. Melhor dizendo, era desses. Por força de circunstâncias conhecidas, regularmente relatadas neste blogue, vi-me obrigado a conviver com a doença, a acompanhar o tratamento de doentes, a cruzar-me com a morte, tendo, por exemplo, de sair do elevador no Hospital de Santa Maria para entrar cadáver. Mais frequentemente, como me sucedeu ainda hoje, partilho elevador à cunha com maca e bombeiros que transportam doente urgente, o rosto do enfermo entubado a menos de meio metro do meu... Durante as visitas, ouvem-se frequentemente os alarmes dos aparelhos alertando para situações de urgência, temos de sair e esperar aflitos que a emergência seja resolvida, separados dos nossos familiares por uma única porta envidraçada ou por simples cortina corrida...
Já não desvio o olhar dos tubos enfiados pelo nariz, pela boca, das agulhas espetadas nas mãos e braços, do saco da urina, já não fujo apressadamente ao ouvir pedido de arrastadeira, já consigo encarar a fealdade da velhice doente, a degradação dos enfermos despojados dos vestígios da sua condição humana, dentaduras e brincos, anónimos sob as batas, desocupados dia e noite, à espera de melhores dias em que talvez tenham deixado de acreditar. E penso, valerá a pena, quero eu um dia, espero que distante, agonizar ligado a máquinas, adiar o inadiável, ter um final de vida em sofrimento prolongado, isto se não tiver a sorte de uma morte rápida? Não sei. Até porque, como escreveu Gabriel García Márquez, não se morre quando se quer, morre-se quando se pode.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Cepticismo: Strauss-Kahn e a violação

Não têm conta as vezes em que fui mistificado, levado a indignar-me, manipulado pelos media ao serviço, soube-o depois, de interesses pouco claros mas demasiado poderosos. Assim, de repente, sem puxar muito pela cabeça, recordo-me da Jugoslávia, em que apenas os sérvios assassinavam, primeiro os croatas, os muçulmanos depois -- felizmente o Tribunal Penal Internacional ousa contrariar esta visão maniqueísta; lembro-me, aquando do ataque às torres gémeas, de imagens de palestinianas a festejar ululando pelas ruas -- para saber depois que as imagens, embora autênticas, tinham sido filmadas uns anos antes... E das armas de destruição em massa do Saddam, dos seus terríveis mísseis Scut (estarei a confundir com o nome de autoestradas nacionais à borla?), da guerra de libertação do Iraque em que, afirmava lambão um dirigente americano, quem não veio à festa não fica para o jantar... Por estas e por muitas outras, duvidei da morte do Bin Laden; agora que os talibãs a confirmam, enfim, começo a acreditar pois dificilmente dois mentirosos se poriam de acordo apenas para me ludibriar. Mas nem por isso me passou o cepticismo ranzinza que me põe frequentemente a discutir sozinho com a televisão. Por exemplo, quando ouço as notícias da violação ou tentativa de, depende das versões, por parte do presidente do FMI. Eis algumas das minhas dúvidas, enquanto aguardo por factos que me convençam da culpabilidade do homem.
1. Como é que um velho, ou idoso como agora é moda dizer-se, por mais recauchutado que esteja, nascido, se bem compreendi, em 1939, logo com 72 anos em cima, tem tamanha potência sexual? Capaz de atacar, despir, sodomizar, forçar a sexo oral um mulher que, supostamente, resistia, gritava, arranhava, batia, esquivava, fugia... O tipo não é grande latagão e ela tem apenas 32 anos... E sempre sem esmorecer?
2. Nos quartos de hotel há um letreirozinho para pôr na porta quando estamos lá dentro: do not disturb. E as empregadas não entram sem bater, pois não? E se acaso entrarem, prontamente saem ao aperceber-se de que o hóspede está lá. E então, se ele vem nu, a correr para elas (ah velho danado!), não fogem?
3. Um gajo que gasta numa única diária mais do que aquilo que eu recebo por mês, se está tão atrapalhado, tão pressionado pelas hormonas que é capaz de deitar para o bidé a candidatura à presidência da França e se arrisca a pena de prisão até à morte, não prefere telefonar para uma profissional em vez de atacar uma mulher da limpeza que talvez nunca´tivesse visto, logo sem saber se é bonita ou feia, nova ou velha, gorda ou magra, branca, preta, amarela, se está no período ou se sofre de sífilis, gonorreia, sida?
4. Há também razões técnicas. Sugiro uma reconstituição para se apurar como é que o tarado ataca uma mulher vestida, certamente com as partes pudendas bem cobertas, a sodomiza sem mais aquela, a leva para a casa de banho (porquê aí?) para sexo oral, depois foge em pânico para o avião, o primeiro lugar onde o poderiam apanhar...
Ou o gajo é estúpido de mais e fez o que dizem que fez, ou é estúpido de mais para se deixar caçar desta forma ignara. Em qualquer dos casos, tem muito pouco de francês.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Surpresa...

A estatística deste blogue. Coisa que eu nem sabia que existia... Clicar na imagem para ampliar.

Pela produção nacional

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quinta-feira, 12 de maio de 2011

A troika e eu (2)

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A troika e eu

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Elogio, agradecimento e constatação

São frequentes as críticas ao tratamento hospitalar, em que não faltam acusações de antipatia, desinteresse, frieza por parte dos profissionais de saúde. Não era e não é essa a minha percepção, sobretudo após mais de quatro meses em que tenho passado horas infindáveis em urgências, cuidados intensivos, cuidados intermédios, enfermaria. Só posso elogiar e agradecer o profissionalismo, a simpatia, a disponibilidade de todos os profissionais, nomeadamente  auxiliares, enfermeiras e enfermeiros, médicos e médicas dos hospitais (Leiria, Alcobaça, Santa Maria) por onde tenho acompanhado a minha mãe, que felizmente recupera de forma visível e animadora, depois de, por três vezes, ter pensado que não viveria até ao dia seguinte. A todos, o meu muito obrigado.
Nota: sem menosprezo para as dos outros hospitais, as enfermeiras mais giras são as de Santa Maria, Cirurgia Cardiotorácica.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A troika, a crise e eu

Estrangeiros ditam-nos a política, gerem as nossas finanças, aconselham-nos, vigiam-nos, enquanto nós mendigamos empréstimos, sofremos vexames, discutimos acaloradamente responsabilidades – como chegámos à pré-bancarrota, como deitámos a perder a independência penosamente preservada durante mais de oito séculos? De quem a culpa, onde as soluções? Não procurem  neste blogue por resposta válida, não esperem de mim julgamento imparcial, sentença equitativa, punição justa. É outra a minha tarefa: plasmar em narrativas o sofrimento alheio e próprio. Qual médium, cabe-me dar voz às vozes que me habitam e anseiam por se fazer ouvir. Que cada uma delas fale por si, que conte a sua história. O mais do que isso é com os especialistas, que não nos faltam e constantemente se fazem ouvir.

domingo, 8 de maio de 2011

O povo é quem mais ordena

Numa pausa do duro trabalho da terra, vi no telejornal os homens (?) da luta (?) por terras germânicas nas suas palhaçadas rotineiras. Têm fortes hipóteses de conseguir um bom resultado, até de ganhar, como vi suceder a outro folião numa votação ocorrida durante a "Primavera Marcelista":
Uma artista da rádio, cujo nome esqueci há muito, fez espectáculo na associação da minha aldeia e, para nele envolver o povo, organizou um "festival da canção": ganharia quem tivesse mais aplausos. Os moços de então acorreram ao palco, Beatles para os estudantes, fado e folclore para os menos versados no Inglês. Aproximava-se a competição do final sem que a força das palmas anunciasse vencedor inequívoco, quando o Tio António V., a cair de bêbedo, cambaleou até ao palco, travado pela mulher: -- Homem, tu tem juízo, não me envergonhes mais!
E ele: -- Deixa-me, que vou mostrar a esta rapaziada como é que se canta.
O povo e a artista pressentiram o manancial de risota que se aproximava: -- O que é que vossemecê vem cantar?
E ele, tentando segurar-se de pé, tartamudeou borracho -- Eu venho cantar a canção do vinho branco.
Microfone na mão, a canção lá saiu, arrastada, aos tombos, mais gritada que cantada:
Ai vinho branco
Que te adoro tanto
A toda a hora
Bebo um casco inteiro
Sem deitar nada fora...
Os aplausos, os gritos, os risos -- foram ensurdecedores. Ganhou, sem margem para dúvidas.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Contadores de histórias

Nos almoços e jantares de karaté, depois de matada a fome e a sede -- e não é a água que nos hidrata -- escorrem as histórias, valorizadas pelo talento dos contadores. O Vítor é um dos melhores:
Um ligeiro entrou numa rua estreita de Leiria. Pois um camião, em vez de esperar que passasse, avançou também: pesado tem sempre prioridade, vale a força do tamanho, além do mais anda a trabalhar, saiam da frente que quer passar. O velhote do ligeiro não se deixa intimidar. Em vez de meter marcha atrás, pára o motor. Mesmo em frente, o pesado faz o mesmo. O condutor do ligeiro reclina o banco, desdobra jornal, liga o rádio, calmamente começa a leitura refastelado como em tranquila esplanada. Pouco depois, o condutor do pesado, desatinado, sai furioso lá de cima, bate com a porta do camião, aproxima-se ameaçador, esmurra raivoso o capot do carro do velhote, que, impávido, continua a leitura do seu jornal. O outro, a espumar, bate no vidro, ruge: -- A sua sorte, a sua sorte é eu estar cheio de pressa!
Indolente, o velhote do ligeiro, dobra meticulosamente o jornal: -- O seu azar, o seu azar foi ter dado com um homem sem nenhuma pressa!
Pois o Xavier conhece história melhor: os dois carros frente a frente, motores parados, a bloquear a estrada estreita, um dos condutores começa a ler tranquilamente o jornal, o outro aproxima-se, bate no vidro: -- Olhe, desculpe lá, quando acabar a leitura do jornal, pode-mo emprestar?
Infelizmente, neste 2011 vi-me forçado a faltar a todos os estágios. Saudades!
FOTO: Paredes de Coura. O Xavier, o sensei Vilaça Pinto, eu, o Augusto (meu professor há trinta anos), o Luís Carneiro. No restaurante do Paulo.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Desabafo

As notícias cansam-me depressa, não sei se por feitio, se por excesso de atenção. Se por encontrar sempre a mesma história, cada vez mais mal contada. A falta de paciência para telejornais e debates estendeu-se aos jornais e agora até já me escasseia o apetite para a leitura da maior parte dos blogues que sigo. Enjoa-me a obsessão dos seus autores na defesa ou no combate ao primeiro-ministro demissionário, na dissecação das medidas, reais ou imaginárias, do verdadeiro governo nacional, a troika. Por mim, acredito que quanto mais se mexe na merda, pior ela cheira; penso que atacar sistematicamente Sócrates é dar-lhe visibilidade que não merece e aumentar as suas probabilidades de vencer as próximas eleições; julgo que fossar na crise e nas suas consequências é um desperdício de energia que não nos torna mais felizes nem aumenta a produtividade ou a produção nacionais, ao contrário, por exemplo, do que sucede quando amanhamos a terra que décadas de cavaquismo e socratismo tornaram improdutiva.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Maio, maduro Maio

Dois meses depois de ter entrado para a cirurgia cárdio-toráxica de Santa Maria, quatro depois de ter começado a ter sérios problemas de saúde, a minha mãe mudou dos cuidados intermédios para a enfermaria. Há ainda um longo caminho a percorrer na recuperação, mas a esperança renasce.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Cenas ciganas (2)

Nota prévia: entendo que os ciganos são cidadãos nacionais como eu próprio, sujeitos aos mesmos deveres e usufrutuários dos mesmos direitos. Mas não tenho a certeza de que eles partilhem esta minha convicção.

No exterior do hospital de Santa Maria, Lisboa, ciganos por todo o lado, facilmente identificáveis pelo vestuário. Cruzam comigo duas ciganas, uma jovem, apinocada, descascada, atributos realçados pela roupa justa, a outra na meia idade, coberta da cabeça aos pés. E, ao passar por mim, a mais velha lança ostensivamente lixo para o chão e olha-me nos olhos, provocadora: que me atreva a protestar, bastar-lhe-á um grito e a turba acorrerá para o meu linchamento. Não são só os ciganos a ter atitudes destas, infelizmente. Mas estas mulheres eram ciganas e não me consigo impedir de pensar que, para além  da ausência de civismo, talvez estejam a ser pagas com o rendimento mínimo dos meus impostos. E que, ainda não há muito tempo, uma certa "esquerda" recusou que os beneficiários do rendimento mínimo, agora rendimento social de inserção -- e gostaria que me quantificassem os já inseridos --, fizessem trabalho cívico, como limpar o lixo que eles ou outros como eles deitam acintosamente para o chão, enquanto os seus familiares beneficiam de cuidados de saúde para que talvez nunca tenham descontado. É bonito dizer que temos de ser solidários, mas, e os beneficiados, não têm de dar nada em troca à sociedade?

O duplo

Aprecio sobremaneira os filmes de Akira Kurosawa. Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Saliento ainda a reconstituição do ambiente feudal japonês, o realismo dos guerreiros samurai e dos espiões ninja e a extraordinária lição da arte da guerra que a sombra do senhor dá ao "seu" neto quando lhe explica o lema do estandarte:
"Veloz como o vento, silencioso como a floresta, devastador como o fogo, imóvel como a montanha".

Morte de Bin Laden

Não sou dado às teorias da conspiração. Mas aprecio as provas, na linha do ver para crer, como S. Tomé. Acredito que os americanos tenham enviado os seus assassinos ao Paquistão; que eles tenham morto uns talibãs (depois de mortos, todos o são); que tenham chamado a um deles Bin Laden. Agora aquilo em que não consigo acreditar é que tendo conseguido matá-lo, tenham depois atirado o corpo ao mar. O Che, depois de assassinado, foi fotografado, exposto, para que ninguém tivesse dúvidas; o Saddam foi filmado enquanto era enforcado. Com o Bin, que perseguem há tanto tempo, porquê tanta pressa em se livrarem do presunto? Desde quando os militares não adoram exibir troféus e despojos de guerra? 
Ou surgem evidências evidentes da execução, ou alguém acabará por desconfiar de que se trata de outra obama-treta. Talvez até alguém prove que não é possível matar um morto...

domingo, 1 de maio de 2011

Cenas ciganas

Nota prévia: entendo que os ciganos são cidadãos nacionais como eu próprio, sujeitos aos mesmos deveres e usufrutuários dos mesmos direitos. Mas não tenho a certeza de que eles partilhem esta minha convicção.

Duas da tarde. Na pequena sala de espera do hospital de Alcobaça, à cunha de doentes e de familiares, entra gigante cigano, quarentão, calmeirão, trajado de preto, dobrado pela cintura quase em ângulo recto, mãos nos ombros de mulher, que conduz em rectas e curvas como se fosse carro de mão. Estacionam de lado, junto à recepção. A menina informa: -- Hoje isto está complicado. A demora é de sete horas. O cigano protesta, a mulher ajuda à festa. Ele precisa de uma injecção.
Chega cigana mais jovem, criança ao colo. É sobrinha. Chegam seis jovens, todos a rondar os dois metros. Em breve, chegam outros, todos eles gigantes. Começo por admirar a unidade do clã: um tem dores de costas, logo toda a tribo invade o hospital. Mas deixo de achar tanta graça quando uns vinte minutos depois chamam o dobrado às urgências. Para entrar sozinho. Protesta e conduz a mulher à sua frente, dois dos jovens acompanham-no. De fora, fica a sobrinha com a criança ao colo e o resto da tribo. Saio da sala  de espera, atravancada. Pouco depois eles saem também. Jogam animados às cartas. Tudo bem. E o segurança, anão ao pé deles, apesar de alto, aproxima-se e atreve-se: --- Aquele estacionamento está reservado às ambulâncias. Um dos ciganos levanta os olhos, cigarro ao canto da boca, enquanto joga carta: --- Aquilo (e aponta com o olhar para as camionetas da tribo) são ambulâncias.
O segurança ri amareladamente e reentra no hospital. Em breve, sai das urgências o das dores nas costas com os respectivos acompanhantes. A demora de sete horas é para a minha mãe, que, saber-se-á quando a examinarem já bem de noite, tem um aneurisma da aorta com derrame pleural. Que a não matou por milagre.