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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Mensagem de ano novo deste escriba

Logo à noite multidões esquecerão a crise e tomadas de histeria colectiva deixar-se-ão embalar pela felicidade paga a peso de cartões de crédito e entoarão em uníssono a contagem decrescente que dantes precedia o lançamento dos foguetões: "Nove, oito, sete,...". E quando a voz que faz de dona do Tempo anunciar o zero, saltarão ruidosas rolhas de espumante rasca, beijar-se-ão bocas cheias de passas, os olhares convergirão para o céu, deslumbrados com os fogos de artifício em que o pouco dinheiro público que ainda resta é alegremente queimado.
Que festejaremos, afinal? Um ano a menos de vida, um ano mais perto da morte, ou, pior, da degradação da velhice? O começo de um ano sem qualquer indício de que o desemprego diminua, de que as contas públicas se endireitem (não o fazem por si sós), um ano novo de aumento brutal de impostos e de cortes significativos em salários como o meu? E isto sem acreditar que os sacrifícios contribuam minimamente para uma melhor situação futura, ou para a recuperação da nossa independência nacional? 
Sem qualquer esperança de que algum daqueles que desgraçaram este pobre país e o seu povo sempre sofredor possa vir a ser o Desejado, o Salvador, declaro que só resta a cada um de nós sobreviver e, sem remorsos, procurar ser feliz quando e como puder.
Sou suspeito. Para mim, 2010 não foi ingrato e deu-me muitas coisas boas, como o Tiago, o meu terceiro neto, uma menção honrosa e o Prémio Literário Irene Lisboa, um 2º dan, muito vinho que promete ser bom... E, sobretudo, saúde, alegria e boas leituras. É o que desejo para 2011 a toda a família, aos amigos, aos leitores deste blogue, a todos os portugueses, que tão acabrunhados andam et pour cause.
FOTO: 31 de Dezembro de 2009, Montes, na minha adega.

Verdades inconvenientes

Lembrados que estamos da euforia contagiosa do primeiro-ministro a propósito da sua interpretação dos dados do relatório PISA 2009, prontamente partilhada por dirigentes sindicais (os quais, se um dia foram professores, já se esqueceram, e percebem tanto de ensino como os nossos governantes), eis que o Ministério da Educação, através do Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE) divulga estudo demolidor sobre as "competências", como hoje se usa dizer, dos nossos alunos. Veja-se, por exemplo,este fragmento (negrito meu):
Secundário. Escrever textos explicativos em que é necessário descrever raciocínios e explicar as estratégias adoptadas para justificar as respostas é uma das grandes deficiências que os especialistas do Gave encontraram em todas as disciplinas avaliadas no secundário. A falta de rigor científico e a linguagem desadequada foram falhas detectadas por todas as equipas que monitorizaram e avaliaram o desempenho dos alunos. Sempre que foi preciso seleccionar a informação e construir um texto que traduzisse um conjunto de ideias próprias, os alunos revelaram "grandes dificuldades".
Nem outra coisa seria de esperar.  Porque "A falta de rigor científico e a linguagem desadequada" são mal nacional, partilhado por muitos professores, que de há anos para cá se especializaram em planos de recuperação, metas, relatórios que sempre exaltam o sucesso atingido com merdas que não lembram ao diabo, que se esfalfam para conseguir "evidências" do seu desempenho sempre excelente, e registam o seu brilhantismo em documentos que só o vazio de conteúdo e a escrita deplorável deslustram. E é duro ouvir e calar, de manhã à noite,  "tu fostes", "tu fizestes", "houveram professores", "quaisqueres alunos"...
Querem soluções? (Bem sei que não.) Substituir esta avaliação de desempenho por uma avaliação de conhecimentos científicos e da prática pedagógica, que dê peso máximo à avaliação de aulas assistidas. Desvalorizar --- ai, o que eu vou escrever! --- tudo aquilo que foi feito no âmbito das chamadas ciências da educação e, nomeadamente, nas Escolas Superiores de Educação. Avançar com as provas de ingresso na profissão. Avançar com provas para todos, a começar por mim. E, mais uma vez, o fim imediato desta avaliação de desempenho, parida pela ex-ministra da educação e pela sua equipa, que subverte e perverte o ensino.

Declaração de interesses: sou professor de Português desde 1976 e orgulho-me da minha profissão. O meu perfil está disponível AQUI, onde pode ser também descarregada a minha dissertação de mestrado. Podem bater-me à vontade. Façam favor.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Meio século de leituras

Sou pouco dado a comemorações, mas esta efeméride é por de mais importante para a esquecer: foi há cinquenta anos que aprendi a ler, tão depressa que nem sei como, e desde então nunca mais parei. Tinha seis anos, vivia em Chaqueda (ou Chiqueda?) há meses, não conhecia lá ninguém, e o meu pai pediu à professora que me deixasse entrar para a escola para não estar sozinho em casa. Antes do Natal, já a professora me punha a ler o jornal à frente dos outros alunos, alguns deles homens e mulheres feitos, eu relezico, meia leca de gente, mas impante desse poder que o saber ler me dava. E à noite, enquanto esperava assustado pelo regresso dos meus pais e a minha irmã, bebé de ano, dormia regaladamente o sono da inocência, eu lia no Diário Popular as anedotas do seu suplemento Ria Connosco (lembro-me de uma que não percebi e me intrigou durante muito tempo com uma sereia), as aventuras de Crispim (nunca mais ouvi falar dessa banda desenhada), o livro de leitura da primeira classe, tudo o que tivesse letras. Hoje, meio século passado sem que me tivesse dado conta, continuo a ler com a paixão inicial -- pois não sou daqueles que, nada lendo, estão sempre prontos a recriminar os jovens por não pegarem em livros...

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Debate Cavaco - Alegre

Regresso exausto de três dias nos Montes (Ah! O campo não é um passatempo / Com bucolismos, rouxinóis, luar, escreveu Cesário Verde), a tempo de assistir ao debate entre os pesos pesados, Cavaco e Alegre. Cavaco atacou furiosamente desde o primeiro instante, como se fosse ele próprio o challenger e não o campeão em título; Alegre, calmamente, esquivou, conta-atacou com eficácia, anulou inteligentemente as iniciativas do adversário, chegou ao final do embate sem mostrar cansaço nem ansiedade, embora sem ter conseguido colocar o adversário em dificuldades, encostá-lo às cordas ou, até, beneficiar de qualquer contagem de protecção. Não vi a decisão da arbitragem, mas inclino-me para um nulo, que nem um assalto suplementar resolveria. Porque nulo é aquilo com que ambos esgrimem: Cavaco, com a experiência e a sapiência de quem nunca tem dúvidas e raramente se engana, Alegre, com uma estratégia digna de Tiririca: pior não fica --- e lembrei-me  de um missionário que ouvi esta manhã na Praça da Alegria, cujo nome não fixei: há esperança para Portugal desde que os portugueses comecem a trabalhar cá como o fazem lá fora, voltem a poupar como os seus pais o fizeram, e paguem a quem devem. Eis todo um programa político, que eu subscreveria de imediato e em que votaria com entusiasmo. Não ouvi um só destes verbos -- trabalhar, poupar, pagar dívidas -- a nenhum dos candidatos.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Há petróleo Entre Cós e Alpedriz

Ou, pelo menos, andam outra vez à cata dele:

Um bom Natal


Estas azevias! Uma perdição. Por causa delas, porque me dói a cabeça, por muitas razões que a preguiça me impede de explicitar, deixo aos mais sábios as doutas reflexões sobre o Natal. Eu vivo-o, na fé de Camões, é certo que a propósito de assunto bem diferente: "Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."

Trasfega

Ontem, 23.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PISA 2009

Ouvi o primeiro ministro cantar de galo a propósito dos fantásticos resultados obtidos pelos nossos alunos no PISA 2009 e prontamente desconfiei. Há muito que não acredito numa única palavra dele, embora, reconheço, bem me tenha enganado nas eleições que lhe deram o primeiro mandato. Agora que os especialistas puderam estudar o relatório, outras opiniões, bem diferentes, emergem. Por exemplo, Santana Castilho, no artigo:  "Pisa: mentiras e perplexidades". Vale a pena ler. Porque, com papas e bolos se enganam os tolos.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Presépio

Mais um ano. A alegria dos miúdos. Que se danem os beatos e a sua indignação: fazemos presépio laico -- mas respeitador. O Menino Jesus não se zangaria com a nossa falta de fé, antes, divertido, rebolaria pelo chão com os meus netos, brigaria para ser ele a colocar o Rei "Magro" e o seu camelo, ou o galo sobre o estábulo, depois, como eles, deitar-se-ia de bruços a adorar a obra feita.
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Poupar com inteligência

Sempre me espanta a ideia de que se comprar X se poupa Y. Noticiam  hoje as televisões que terão sido poupados uns 10 milhões de euros nos rendimentos sociais de inserção desde que critérios mais restritivos entraram em vigor. Esta concepção de poupança é tão absurda que só pode ter sido parida por assessores governamentais. Tal como Cristo, prefiro exprimir-me por parábolas. Tal como Ele, digo que quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que oiça. Eis a história, anedota dos anos 70, quando ainda dava para rir das nossas desgraças:
Um jovem entra esbaforido em casa:
-- Pai, vim a correr atrás de um eléctrico e poupei os dez tostões do bilhete!
--Grande bruto! Se tivesses vindo a correr atrás de um táxi, poupavas os 40 escudos da bandeirada!

Flexibilização dos despedimentos

As recentes alterações à legislação laboral (por parte de um governo que acusa o PSD de querer liberalizar os despedimentos), vistas por Luís Naves:
"A sociedade portuguesa está anestesiada e as notícias sobre a redução das indemnizações em despedimentos mostram-nos uma esquerda cínica e sem futuro. Este País não é para novos e no futuro nem será para velhos."
Lapidar.

A linguagem críptica dos críticos

O que eu me esforço para entender o que os críticos escrevem! Em vão. E não há dicionário que me valha:
"Sem prejuízo do domínio narrativo, diria que há desfasamento entre o interesse do plot (medíocre) e a prosa escalorada do autor:..."
Já consultei o da Porto Editora, o da Verbo, o Hoaiss, o da Priberam... Será gralha, ou Eduardo Pitta está a mangar connosco?

Os bons e os maus

Todos se lembram: os bonzinhos eram os muçulmanos do Kosovo, como antes tinham sido os da Bósnia, os croatas... Os maus eram os sérvios. Tão maus, tão maus, que a Nato, para proteger os bonzinhos, arrasou a Sérvia, forçou-a a aceitar o desmembramento do seu território. Graças à Nato, os bonzinhos dos muçulmanos do Kosovo proclamaram a independência dessa região sérvia, além do mais porque, depois dos massacres contra os sérvios, se tornaram nela maioritários.
Tenho o péssimo costume de olhar para o outro lado: se me dizem para olhar para cima, espreito para baixo; se querem que veja à direita, é na esquerda que atento. Por isso, tanto os media alardearam a maldade dos sérvios, que me levaram a desconfiar dos bonzinhos. E pormenores que escapavam à propaganda oficial iam-me convencendo de que não estaria totalmente errado. Os sérvios massacraram? Sem dúvida. Cometeram atrocidades terríveis contra populações indefesas? Sem dúvida. Mas, que eu saiba, nunca montaram uma rede de tráfico de órgãos extraídos de prisioneiros que eram engordados e mortos para o efeito. Liderada pelo actual primeiro ministro do Kosovo, ao que consta:
"Os prisioneiros sérvios até se sentiriam razoavelmente bem tratados: davam-lhes comida e deixavam-nos descansar. Mas depois, quando o negócio estava apalavrado, e as clínicas preparadas, eram levados para centros de detenção na Albânia, onde eram mortos com uma bala na cabeça e lhes eram extraídos órgãos, principalmente rins."
Como "a verdade imita o azeite no seu irritante costume de vir sempre à tona, tarde ou cedo" (Do lacrau e da sua picada), talvez um dia se venham a conhecer os porquês e os comos da guerra pela destruição da Jugoslávia, que antecipou outros conflitos justiceiros que tão bons resultados vieram a dar: Afeganistão e invasão do Iraque. Porque o primeiro está limpo de talibãs e pacificado, e o segundo, em paz e próspero, já não possui armas de destruição em massa.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Leitura indispensável

Rui Rocha, no Delito de Opinião, "A geração nem-nem". Acrescento que oiço frequentemente mãe preocupada. Daquelas que tentam persuadir os filhos a estudar. Que os querem convencer a trabalhar. Que pedem emprego para eles. Que os vêem despedir-se porque o patrão não lhes dá folga pelo ano novo e o jovem tem o direito de o passar com os seus amigos. Antes que me comecem também a zurzir com as desculpas tugas, já bem rotas, acrescento que comecei a trabalhar aos 19 anos, como servente de pedreiro, na Ciferro, na altura construindo o tribunal de Leiria. Depois fui operário de plásticos na Júlio Ferreira até ser chamado para a tropa. Saneado com o 25 de Novembro de 1975, entrei para o ensino em 1976. Nunca recebi subsídio de desemprego, e baixa, só quando parti um dedo, trabalhava ainda nos plásticos. Filhas, genros, sobrinhos e sobrinhas, respectivos cônjuges, tudo trabalha. Quase todos em Portugal, o Gonçalo no Dubai, o Jeroen e o Kaspar na Holanda.
O desemprego é terrível. Mas o carpinteiro da minha terra não consegue aprendizes -- e só quem nunca precisou de um carpinteiro ignora como são bem pagos. Preciso de pedreiro de confiança, onde encontrá-lo? Quando terá disponibilidade para me atender? As boas empregadas domésticas rejeitam patroas, têm até lista de espera. E desde que li, a propósito dos cogumelos venenosos, que vêm tailandeses apanhar fruta para o Oeste...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Falta o açúcar

E depois? Não lhe chamavam o "veneno branco"? Não era, ainda há dias, responsável por boa parte das doenças "da civilização" -- obesidade, cárie, diabetes...? Preocupante seria se nos faltasse o vinho, como a Maria Parda, que
vio as ruas de Lisboa com tão poucos ramos nas tavernas, e o vinho tão caro e ella não podia passar sem elle:

Ó rua da Mouraria, 
Quem vos fez matar a sêde 
Pela lei de Mafamede 
Com a triste d'agua fria? 
Ó bebedores irmãos, 
Que nos presta ser christãos, 
Pois nos Deos tirou o vinho? 

Gil Vicente, Pranto de Maria Parda

domingo, 12 de dezembro de 2010

Colegas de trabalho

"Eu tamém qué sentá aqui!", grita impaciente o Miguel. Não me falta companhia no trabalho deste domingo, igual ao de sábado e ao de sexta... Corrigir testes, que crescem no monte. E amanhã têm de ser entregues.
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Prova dos noves

Não haverá assessor que ensine ao senhor primeiro ministro, tão feliz com os resultados de PISA 2009, 

"Esta é a prova dos nove: os nossos alunos sabem mais", diz Sócrates sobre o relatório da OCDE 


que não é a "prova dos nove", mas sim a "prova dos noves"?

prova dos noves: verificação prática de contas que consiste na extracção dos noves; figurado processo para confirmar ou infirmar a veracidade de um facto;

Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora
Ou que lhe ofereça um raio de um dicionário? Precisa de falar tão mal como governa, e logo para se vangloriar de bons resultados na educação?
(Sobre o relatório, não me pronuncio enquanto o não ler; até lá, mantenho a esperança de não acabar a dizer " noves fora, nada.)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Azares

Com o país a ser afundado alegremente, vejo-me, por força deste salve-se-quem-puder, a sonhar com uma safa. Não podendo ser assessor -- excesso de habilitações, falta de cartão do partido e, sobretudo, de boa madrinha, de madrinha boa, ou até de madrinha-frasco a precisar de enchimento --, e já sem esperança de que o Euromilhões me contemple, agora orientado pela misericordiosa mão de Deus para os mais carenciados, restava-me a natureza para garantir pé-de-meia que componha a miragem da reforma, em constante fuga para a frente e, pior, à dieta por causa das bandas gástricas que o governo lhe vem aplicando.
Contava pois eu com a natureza. O aquecimento global iria tornar as minhas terras praias: veja-se a foto. Em primeiro plano, a minha lavoira; um pouco abaixo, um vale profundo, até aos pinheirais que escondem o mar. Com a anunciada subida das águas por força do aquecimento global, eis-me o feliz proprietário de praia, já a imaginar hotel, ressort... Pois vem este frio e lá se vai a minha ilusão por água abaixo, água como a que hoje escorre do céu, dessa que jamais voltaria a cair como nos bons velhos tempos, ecologista dixit. Ora com nova idade do gelo à vista, nenhuma esperança de valorizar a minha Salgueira. Bom, restava-me ainda o petróleo. No ano passado fizeram estudos nos Montes e, ao que me garantiram, há petróleo acessível e em quantidade. E eu, qual personagem de Dallas, via-me já de charuto, chevrolet, a gozar das mordomias dos barões do petróleo. Pois não é que querem explorar o meu petróleo lá do mar? Cá para mim, farão um furo oblíquo até às minhas jazidas!

sábado, 4 de dezembro de 2010

A piada do dia

José Sócrates, vendedor de Magalhães: “Mas quero assegurar que este plano tecnológico para a educação que fizemos nos últimos cinco anos melhorou a aprendizagem, aumentou o nível de satisfação dos alunos na sala de aula, mudou a relação entre aluno e professor, mudou a gestão da escola e contribuiu para um significativo aumento da informatização na nossa sociedade.".
Só gostava de conhecer os dados em que se apoia...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Arrogâncias governativas

Desta vez, da "Ministra da Saúde [que} defende a necessidade da Igreja “esclarecer a sua posição” sobre o preservativo". Como é que uma ministra com tantos esclarecimentos para dar -- e não os dá --, membro de um governo que nada esclarece e tudo confunde, se arroga o direito de exigir esclarecimentos à igreja, não sobre a sua obra social, em que acode aos desvalidos e às vítimas deste governo, mas sobre aquilo que pensa sobre o preservativo? Acreditará a ministra que alguém usa ou deixa de usar preservativo por a igreja ser contrária? Que a Sida, pesem embora os rios de dinheiros públicos malbaratados no seu "combate", existe e aumenta por causa do pensamento da igreja? Que o problema se resolve plastificando-o?

Declaração de interesses: mantenho uma distância em relação à igreja que muito me agrada; no entanto, admiro e respeito a sua obra, o que não sucede com o governo de que Ana Jorge é ministra.

Foto: igreja de Alpedriz, onde fui baptizado e crismado.

Os quarenta rebuçados da Restauração

(Rascunho)

O vento sopra cortante, tremem os corpos, batem os dentes com frio. Resguardamo-nos no pequeno vestiário da escola, gelado, desabrigado.
--- Lê a lição, pede-me o Fernando, que, mais uma vez, não terá feito os trabalhos de casa. E eu, que gosto de ler, começo: “Na madrugada do dia 1 de Dezembro, quarenta vultos rebuçados... “
Os olhos do Fernando brilham e rebrilham, tantos rebuçados juntos, estômago vazio, cabeça cheia de iguarias, ele que chega à escola com aguada de café de cevada e talvez sopas da côdea da véspera, resto do jantar ou sobra do almoço, a lavadura do caldo mais fácil de engolir…
Corrijo-o: --- Não são rebuçados desses.
Resplandece-lhe a face: --- São rebuçados “Noivos”? Tão bons!
Surpreendo-me: --- Já comeste desses? Sim, conta, um que lhe deram. Nunca provara nada tão bom na vida! Ah, se eu fosse rico, era só o que comia. Rebuçados “Noivos” de manhã à noite.
Recomeço a leitura. (Gosto de rebuçados, mas prefiro ler, sobretudo quando me ouvem…)
--- Quarenta vultos rebuçados…
E ele, augado: --- Não me fales mais em rebuçados.
Prossigo. O Fernando, tiritando de frio, não me presta atenção, o olhar fito num qualquer sonho distante, quente, farto e doce. Reparo que veio calçado:  botas de borracha enormes, rotas --- mas calçado. Por causa da visita do inspector na semana passada. Ralhou com a professora: --- Há meninos descalços! E para nós: --- Não podeis vir descalços para a escola, ouvistes?
Atrapalhada, a professora tenta desculpar-se: --- São muito pobres, os pais não podem...
O inspector, ar de santo: ---Então ajude-os, com o dinheiro da Caixa Escolar
--- Mas, Senhor Inspector, o dinheiro da Caixa nunca chega para as despesas, tinta permanente, papel, giz... É terra de gente pobre...
Que visse o que podia fazer. Descalços, não.
Eis que chega a professora: --- Bom dia, minha senhora.
--- Bom dia, meninos. Vamos entrar.
Seguimo-la, sempre deslumbrados com a sua beleza: bem jovem, alta, elegante, cabelo negro, a graça de um sinalzinho no queixo. Todos apaixonados por ela desde que cá chegou, em Outubro. Só é pena ser tão má, maltratar-nos tão cruelmente. Precisamente por isso, o Fernando, uma das suas principais vítimas, a alcunhou: Foguete 24; foguete, porque se assustou com o estoiro de um na festa; 24, porque é a sua conta normal de reguadas, uma dúzia em cada mão. Não há régua que lhe resista por muito tempo. Há semanas, partiu uma nas costas de um desses matulões que se arrasta pela escola à espera dos catorze anos, para então a poder abandonar, incapaz de fazer a quarta classe --- a professora nem o leva a exame. Pois na manhã seguinte, eis que se levanta e respeitosamente se lhe dirige: --- Minha senhora, está aqui esta régua que o meu pai fez e lhe manda. Manda também dizer que é de castanho, não parte às primeiras.
--- Vamos lá a experimentá-la. Dá cá a mão.
E segue-se tareia preventiva: --- Fica por por desconto das que hás-de apanhar esta manhã.
Começa o interrogatório, pretexto para o primeiro espancamento matinal:
--- Que dia é amanhã?
--- 1 de Dezembro, respondo prontamente, sempre sabichão.
--- Porque é que é feriado?
E eu, mão no ar: --- Porque é o dia da Restauração.
--- Tu, cala-te. Respondes quando te perguntar. Fernando: o que é que aconteceu?
E ele, sofrendo por antecipação as duas dúzias de reguadas, contorce-se já na carteira, esfrega as mãos enregeladas, por tique nervoso ou para para as aquecer, que pancada em mãos  frias dói muito mais:
--- Houve a Restauração...
--- Isso já sabemos. Pára de dançar e responde.
--- Quarenta..., soluça, --- Quarenta...
--- Muito bem. Que continue,  ordena severa, brandindo a régua na mão direita, com vigor semelhante ao das espadas com que aqueles revolucionários trespassaram Miguel de Vasconcelos.
O Fernando, cada vez mais atrapalhado, só gagueja: --- Quarenta...
--- Quarenta quê? Desembucha!
--- Quarenta rebuçados, já disse! --- chora o Fernando.
E a professora, no gozo: --- Quarenta rebuçados?
--- Sim, um pote cheio deles, como os que há na loja da Tia Joaquina....
Torce-se, grita, tenta fugir com a mão cheia de frieiras à tortura, acaba por levar as últimas no rabo, nas costas, na cabeça: --- Culpa tua, que não paras quieto!
A professora só se moderará anos mais tarde, já na Primavera Marcelista. Um desses calmeirões, louco de dor, exasperado com os espancamentos diários, virou-se a ela: --- Sua puta, se me bate mais, fodo-a!
--- Ai, tragam-me um copo de água, que vou desmaiar.
E o irmão da vítima teve o gosto de lhe atirar com a água à cara…
(Conta-se que um cidadão romano, octogenário, dizia preferir a morte a voltar à infância, tendo de passar novamente pela escola e pelas suas torturas…)