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domingo, 29 de novembro de 2009

O Miguel


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O Afonso e o Miguel


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Queratocone

Eu tenho. Passo a citar (extraído daqui), negrito meu:
"Devido ao formato irregular da córnea, pacientes com keratocone/queratocone são frequentemente míopes e têm um alto grau de astigmatismo, que não se corrige com óculos."

Pois é. Não se corrige com óculos. No meu caso, é com lentes de contacto. Que cada vez custam mais a aguentar, facto a que não são alheias as condições de trabalho nas nossas escolas, em que as salas são aspiradas quando o rei faz anos --- não estou a exagerar --- e os filamentos dos plátanos, que clubes da floresta plantaram anos atrás para criar espaços verdes, saturam o ar. Mas o pior, o pior, é passar a vida a ouvir sentenças sábias, aconselhando-me a usar óculos, ou, se digo que com eles não vejo o suficiente, a visitar o oftalmologista porque a graduação não está correcta, isto sempre dito com a convicção de quem tem tanta certeza no cagar que não erra o chão. Recomendou-me, anos atrás, um oftalmologista que explicasse o meu problema a colegas e alunos. Assim fiz. Mas uns e outros querem lá saber? Se têm a certeza de que é tudo uma questão de óculos!
Imagine-se então a situação quase diária em que choro como Madalena arrependida com dores e ardores e chega colega bem intencionado(a) e faz o favor de me dar mais uns conselhos sábios. Ah, só me ocorrem os versos do António Botto:
"Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.
"
Porque se não fosse...

(FOTO: os meus lindos olhos.)

Da falta de rigor

Incomoda-me a falta de rigor noticioso, como se as aproximações fossem suficientes. Não se espera que os jornalistas saibam tudo, mas não seria nada mau se soubessem que devem confirmar a exactidão do que escrevem. Por exemplo, leio no DN Portugal o seguinte:
"Abordado por dois agentes da PSP, o caçador, de cerca de 40 anos de idade e armado de uma caçadeira de 12 milímetros, recusou ser multado, fugiu e barricou-se num armazém nas proximidades,"
Aposto que não era uma caçadeira de 12 mm, mas de calibre 12, o que é completamente diferente. 
Com este rigor informativo, que crédito se pode dar às notícias que diariamente inflamam o país?

sábado, 21 de novembro de 2009

Treino de Karaté

Hoje, 21 de Novembro, em Paredes de Coura, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto (1º à esquerda.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Último conto meu -- III (1ª parte)

 (NOTA: ler abaixo as secções I e II; devido à sua extensão, neste post publico apenas a primeira parte da secção III; para ler o conto na íntegra (14 pp.), vá passando por cá...)

"Li, casualmente, a notícia no jornal do dia seguinte. Pouco mais adiantava, para além de dados pessoais, idade, profissão, hora da ocorrência... Não se pode dizer que fôssemos amigos, pelo menos no sentido que a minha geração atribui à palavra amizade. Mas éramos conhecidos de longa data e, por estranha coincidência, tínhamos até almoçado juntos nesse dia fatídico.

--- Eleutério! Tu por aqui?, gritou-me, vendo-me entrar no restaurante.

Aparência bem cuidada --- desconfio que pintava já o cabelo --- fato completo, gravata a condizer, sapatos reluzentes, sempre bem aprumado, irradiava auto-confiança, como se espera de um mestre de karaté e, sobretudo, de um vendedor de seguros.

--- Qual vendedor, qual quê! --- protestava. Peritagens. E dava-me um cartão. --- Podes precisar.

Meneei duvidosamente a cabeça.

--- Que comes?, perguntava, apontando o menu. --- Olha, vou entregar uma proposta de indemnização à dona de um restaurante em Campolide, assaltada na semana passada. Entre roubo e estragos, mais de quatrocentos contos, exactamente dois mil cento e catorze euros, segundo a declaração da senhora. Sabes quanto é que lhe vou oferecer? Olhava-me interrogativamente, convencido de que eu ansiava por dar palpite.

Acabei por condescender: --- Para aí uns mil euros, mais coisa, menos coisa.

Abanou negativamente a cabeça, sorriso de comiseração para com tanta ingenuidade:

--- Até tenho vergonha: a proposta que lhe vou fazer é de (e retirou-a da pasta, para que eu a visse bem, autenticada pelo logótipo da firma ao alto) e leu, afastando o papel até à extensão máxima dos braços para evitar pôr os óculos ''de velho'': --- Duzentos e quarenta e sete euros!, concluía, lançando-me olhar triunfal.

--- Que ladroagem! Primeiro os gatunos, depois vocês!

--- É para tu veres como são estas coisas. Receio até que a senhora me bata quando lhe entregar a proposta, dizia, enquanto a arrumava cuidadosamente na pasta.

--- Ora, umas palmadas não devem afectar um mestre de karaté...

--- Claro que não. E dadas por moça gira como ela, são festinhas. Mas custa-me passar por estas situações. São humilhantes para nós dois, eu a oferecer uma esmola, ela roubada, como tu dizes, duas vezes, e a ter de aceitar uma miséria ridícula para não ficar sem nada.

Comíamos e conversávamos, passando dos escândalos financeiros à corrupção dos políticos, ambos convencidos de que vivemos num mundo canalha, cada qual querendo rasteirar o próximo, os poderosos sempre impunes, nós condenados ao cumprimento da lei e ao pagamento das multas, sem amnistias nem perdões fiscais... Eu sei: é uma maneira mesquinha de ver a vida, chamando a nós os meritozinhos e culpando os outros das nossas desgraças. Mas é muito reconfortante. No tempo de Homero, a fazer fé nas suas epopeias, a culpa era sempre dos deuses, que chegavam ao ponto de se metamorfosear em humanos para cometerem crimes que depois desgraçassem os inocentes. Hoje, sem deuses, temos de imputar responsabilidades aos mais poderosos, senão como explicar o seu sucesso e o nosso fracasso, se somos tão dotados como eles, igualmente esforçados --- mais, até, que singramos na vida sem esquemas, compadrios, corrupção?

Se há pandemia de gripe é porque as multinacionais a fabricaram, conforme o vídeo de um cientista ressabiado que circula na Internet, se há guerras é porque os americanos têm armas para vender, se o desemprego aumenta é porque os patrões despedem, na sua ganância desmedida, aproveitando a crise para aumentar os lucros, indiferentes ao sofrimento daqueles que mandam para o desemprego...

--- Mas falemos de coisas melhores, propunha o Jorge, tendo já sovado devidamente governantes e governados: --- A minha pequena vai cantar na televisão.

Surpreendo-me: --- Mas ainda é uma criança, não é?

--- Há quanto tempo a não vês?

--- Aí há uma meia dúzia de anos... Suponho que tenha agora treze ou catorze...

--- Dezasseis. Uma mulher feita, com tudo no sítio e bem a preceito. Um borracho de fazer virar a cabeça na rua. A mãe e eu não lhe podemos afrouxar a rédea, ou nem imaginas!

--- Sai ao pai?

--- Pior, bem pior. Com a idade dela eu portava-me bem.

--- Pois, não tinhas outro remédio...

O Jorge, inchado de orgulho, expunha os planos de carreira artística da moça, os quais não passavam pelo Conservatório, nem pela escola, nem por qualquer forma de prosseguimento de estudos. Era o sucesso imediato que pai e filha queriam, cientes de que havia que tirar todo o partido da frescura efémera da juventude, estar um passo, pequenino que seja, à frente da concorrência, interessar produtores e compositores, para depois, navegando já nas águas tranquilas do sucesso, curar então de completar a formação escolar precocemente interrompida: --- Sabes, agora há as Novas Oportunidades, também pode, em qualquer altura, tirar um curso numa universidade privada, basta ter 23 anos para entrar, pagar as propinas para passar, ainda mais sendo vedeta a prestigiar a instituição..."

Último conto meu -- II

Uma cabeça de puto mulato enfiou-se pela janela do carro adentro, braço escuro e tatuado encostou-lhe revólver ao peito e ouviu-se em português acriolado ou crioulo aportuguesado: --- Num te mexe, meu, ou te queimo!

Enrolado na companheira, o Jorge apenas pôde rodar a cabeça para o assaltante e, querendo concluir a preceito a obra em curso, limitou-se a dizer algo como: --- Desaparece, pá!

O estrondo do tiro estoirou-lhe os tímpanos no exacto instante em que o projéctil lhe rebenta o peito, perfura o coração, golfando a jorros sangue quente e viscoso sobre a mulher que até há poucos segundos atrás o cavalgava impetuosamente. Terá ainda ouvido o puto mulato a gritar vaidoso:

--- Já queimei um! Malta, vamos bazar, que já queimei um!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Último conto meu - I


Uma única bala acabou com a vida de Jorge Pinheiro, e em circunstâncias deveras impróprias, que o condenaram a rápido esquecimento pela família. Tudo se passou em escassos segundos, sem testemunhas oculares, de uma forma que só a confissão do criminoso ou o testemunho do defunto poderiam esclarecer cabalmente. Excluída a primeira hipótese, pois a polícia jamais identificou o assassino, e descartada a segunda, pela dificuldade que há em encontrar médium competente nestes tempos de cepticismo, resta o depoimento deste cronista, testemunha de alguns dos acontecimentos, nos quais acabou envolvido, bem contra a sua vontade, completados com pormenores que, verosimilmente, terão ocorrido. Foi assim."

Inédito meu. Imagem retirada, com a devida vénia, daqui.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Entre cuidado e cuidado*

"(...) Semana após semana, ao chegar vindo do quartel, esperara encontrar a casa aberta, arejada, habitada, a Berta nos seus afazeres domésticos, a filha dormindo tranquilamente. Então bateria à porta, humildemente pediria para entrar e conversar, talvez se reconciliassem e acabassem na cama, amando-se outra vez, ou, se mulher continuasse zangada, sem sequer lhe falar, limitar-se-ia a ficar, contemplá-la, servi-la naquilo que deixasse, aguardando que lhe perdoasse.
Mas o mofo sobrepunha-se já aos cheiros a bebé, a pão, a comida cozinhada, ao próprio odor da Berta, tão peculiar, que o João sempre conseguira distinguir entre todos os outros; então, tristonho, cabisbaixo, deprimido, deixava-se ficar, sem cozinhar, sem comer, com vergonha de recorrer à casa paterna, pai e mãe desgostosos com a situação do filho, acabrunhados com a murmuração do povo, incapazes de conter remoques, ralhos e conselhos:
--- Bem te avisámos!
--- O que é que esperavas, casando à pressa com uma sopeira que mal conhecias?
--- Devias mas era ter-lhe chegado a roupa ao pêlo! Se lhe tivesses derribado uma asa, não poderia fugir assim, ainda por cima levando a tua filha!
No domingo, regressava cedo ao quartel, para nova semana de tortura, entre a esperança de que a Berta regressasse entretanto e o receio de que tal não acontecesse; entrementes, por todos os meios ao seu alcance, procurava-a incessantemente, sofridamente, e muitos daqueles a quem se dirigia apiedavam-se da sua dor, rara em homem daquela época, mais propenso a violências e a maus tratos do que a desgostos amorosos.
Ganhou coragem e voltou à Pensão Estrela, ciente da fúria e dos ralhos com que dona Noémia o receberia. Chorou-lhe depois no regaço, comovendo-a e dispondo-a a ajudá-lo; mas pouco lhe soube adiantar, salvo que a Berta por lá passara com a filha num braço, a sacola da roupa no outro. Emprestara-lhe dinheiro e ela seguira o seu caminho nessa mesma tarde, surda a rogos e a conselhos, recusando-se mesmo a pernoitar na pensão, receando talvez que a sua decisão enfraquecesse ou o João a perseguisse.
--- Procura a professora, aconselhou. --- E, se encontrares a tua mulher, tem juízo: não é com vinagre que se apanham moscas, toda a gente o sabe, ou deveria saber.
A professora recebeu-o friamente e só à vista de lágrimas sinceras se prontificou a contar-lhe o pouco que sabia: a Berta procurara-a, pedira-lhe, também a ela, dinheiro emprestado para recomeçar a vida bem longe do marido, que não queria voltar a ver, embora, admitia, muito gostasse dele. Era até possível que tivesse fugido para o estrangeiro, com um qualquer grupo que desse o salto. E mais não sabia...
Rogou por informações sobre possíveis paradeiros, direcções seguidas, mesmo que fossem meros palpites, contanto que permitissem saber se a deveria procurar a Norte ou a Sul, em cidade ou aldeia, em Portugal ou no estrangeiro. Mas também a professora não sabia...
--- E eu não posso desenfiar-me da tropa durante a semana, seria dado como desertor!
Apieda-se a professora, como dona Noémia se tinha já apiedado, mas só pode dar-lhe esperanças insinceras: que a aguarde, talvez acabe por regressar, diz, depois pensa melhor e acha preferível desenganar o João: a Berta tinha ouvidos fechados a conselhos, estava decidida a abandonar marido, país até...
--- Então acha que foi para o estrangeiro?
--- É provável. Ou talvez ainda esteja em Lisboa ou no Porto à espera de o conseguir fazer. Disse que queria ir para tão longe que nunca mais a encontrasses. Bem lhe falei na vossa filha, na vida familiar que estavam a começar, no amor que parecia existir entre vocês --- tudo isso acabou, respondeu-me. Que duvidavas da paternidade, logo nunca aceitarias a criança como tua filha; que --- e olhava reprovadoramente o João nos olhos --- lhe tinhas batido...
O João reconhecia toda a verdade nas acusações, baixava os olhos, cabisbaixo e envergonhado, nem perdia tempo a tentar justificar-se, alegando que, mais uma vez, fora a Berta a agredi-lo e daquela vez, saco cheio, não se contivera e respondera; infelizmente a cólera cegara-o e não se ficara apenas pela bofetada de troco, acrescentando mais duas ou três por conta das dívidas anteriores... Agora queria reencontrar a Berta, ou, pelo menos, saber se estava bem, se precisava de alguma coisa, ajudá-la como pudesse, se ela aceitasse, e aguardar o perdão, mesmo que demorasse.
Mas de nenhuma parte chegavam notícias. O João procurou nas grandes cidades, nas pequenas, nas vilas e aldeias deste país, por  lugarejos e casais. Telefonou para todas as terras onde tinha conhecidos, muitos deles da tropa, perguntando se por lá tinham visto mulher e criança com tais e tais características. Pediu os endereços e escreveu a emigrantes, em França, na Suíça, na Holanda, na Suécia, no Canadá, no Brasil, nos Estados Unidos. Em vão. Ninguém tinha visto a Berta, nenhum indício dela. Logo que teve uma pequena licença, passou dias e dias em embaixadas e consulados, dormindo no meu quarto de estudante, arrastando-me consigo na demanda, para o ajudar com os meus fracos conhecimentos de francês e de inglês. Nada. A Berta desaparecera deste mundo, como ameaçara fazer.
Dia após dia, noite após noite, pensou em partir também ele, sem rumo, sem destino, numa busca incessante, qual Avalor procurando em barca à deriva a sua Arima --- mas o Mundo é tão grande e o homem bicho da terra tão pequeno --- e uma réstia daquela razão que nos despoja da grandeza dos homens de antanho impediu-o de se perder por esses caminhos fora, numa peregrinação incomparavelmente mais louca que a volta a Portugal em que a conhecera..."
Um amor inventado (inédito), cap. XIII
*Verso de Bernardim Ribeiro

domingo, 15 de novembro de 2009

Cata-vento


"Quando o Sol logra romper por entre as nuvens, brilham as paredes brancas das casas das encostas serpenteando por entre as colinas verdejantes, vermelhos os telhados — e acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, consola-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de ventosidades, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado em proteger a cauda do desconforto, o olhar impassível fitando o infinito. Que ele me valha nesta narração, orientando-me para os protagonistas certos, inspirando-me a seguir a direito, sem desvios nem divagações, e, sobretudo, sem verborreia que se pegue ao texto como excremento de galinha às botas do criador."
Inédito meu -- início

(FOTO: cata-vento da igreja do Carreiro da Areia)
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Final de Do Lacrau e da Sua Picada

Eis o final do meu primeiro romance. Imagem de João Alfaro

"Ao fundo, de costas para o Lis, atrás de uma mesa tosca, sem funil nem megafone, estava de pé um homem de boina, aspecto de cavador. Sobre a mesa, em duas caixas de sapatos, escorpiões agitavam caudas e tenazes em tentativas frenéticas para fugir do cativeiro. Sempre que algum o conseguia, caindo sobre a mesa, as mãos encortiçadas do curandeiro seguravam-no, pegando-o entre o polegar e o indicador. Então levantava-o à altura dos olhos, deixava o medo e a repugnância crescerem entre a assistência, e voltava a colocá-lo na caixa de onde se evadira.
As pessoas aproximaram-se, mas não demasiado, e observavam, curiosas e horrorizadas, os homens tecendo comentários sobre o que sucede à pessoa que tem a desdita de ser picada pelo ferrão de semelhante bicho, as mulheres apertando os filhos pequenos ao peito ou, se mais crescidos, agarrando-os firmemente pela mão para que a curiosidade juvenil os não fizesse aproximar demasiado, advertindo-os firmemente sobre os perigos deste inimigo da humanidade, eles e elas recordando o velho aforismo: Se o lacrau voasse e a víbora visse, não havia ninguém que no mundo existisse.
Quando a multidão se adensou, o curandeiro falou. Segurou um lacrau à altura dos olhos, para que todos o vissem bem, das tenazes que se agitavam convulsivamente ansiando por presa até ao ferrão que procurava em vão vítima, e disse:
— Este bicho é mau e nojento, mas bem pior é o que alguns de vocês têm dentro do próprio corpo, talvez sem ainda o saberem.
O silêncio arrepiou a multidão, espraiou-se como água agitada por pedrada até às últimas filas e retrocedeu outra vez até ao centro. Então o curandeiro falou de novo:
— Uma picada mata, uma picada cura. A picada do lacrau mata a pessoa... ou o escorpião que a devora. É preciso saber escolher. Lacrau macho para cancro fêmea, lacrau fêmea para cancro macho. Quem quer experimentar?
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)
A Ritinha, Lúcia de seu nome artístico, que parecia mais atenta aos transeuntes do que às memórias do António, trouxe-o de volta ao tempo presente, dizendo a despropósito:
— A Nela, a minha cunhada que se enforcou, já te falei dela, sim, a que deixou como últimas palavras ''A vida é uma merda'', não tinha razão. Acho que a vida pode ser, mas não precisa de ser uma merda. Como dizia o teu curandeiro, uma picada mata, uma picada cura. Depende da escolha.
Sorriu-lhe: — O difícil é escolher os lacraus."

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Finais de romances

Nas férias, em Agosto, coloquei aqui uma série de dez posts intitulada "Boas entradas de bons romances". Por coincidência, e certamente sem que nenhum de nós o soubesse (eu não o sabia), Marco Santos, do blogue no vazio da onda,  deu início à excelente série "O começo de um livro é precioso", trabalho  notável pela sua regularidade, dimensão, variedade e qualidade. Tão bom que fiquei sem jeito para dar continuidade à minha ideia inicial. Avanço com outra ideia, complementar e totalmente egoísta: apresento os finais dos meus romances. E começo pelo fim de Entre Cós e Alpedriz, o primeiro que publiquei (imagem  de João Alfaro):

"Fica a história --- a quem interessará ela, sem um escândalo para o editor, sem uma alegoria para os críticos, sem metáforas para o leitor decifrar, sem ideologias a legitimá-la nem moral a extrair? E, afinal, que importância tem isso? Sobre as casas em ruínas edificarão outras, entre Cós e Alpedriz, onde há muito se não ouve azurrar nenhum candidato a juiz, continuará a viver gente talvez feliz, geração após geração, misturando-se vidas e histórias que o vento dispersará e reunirá numa só, tal como o coveiro, passados os anos regulamentares, amontoa numa só campa os ossos dos esqueletos que outrora se moveram e falaram, dando corpo e alma a vidas perdidas no tempo."

domingo, 1 de novembro de 2009

Treino de avançados

Leiria, 31-10-09, dirigido pelo sensei Vilaça Pinto. As fotos do estágio de Julho estão disponíveis aqui.
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