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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Incêndio

"O ano anterior, 1931, fora um ano de seca terrível, como só haverá outra parecida no próximo século. Secaram as ribeiras de todo o ano, secaram as próprias nascentes, obrigando as mulheres a passar as noites de Verão na fonte, aguardando a vez para, pingo a pingo, encherem cântaros, canecos e bilhas enquanto aproveitam para pôr as conversas em dia. E quando a estiagem infernal estava prestes a terminar, os Montes arderam.
Nesse dia, o Jaime acordara com uma ligeira dor de cabeça, que piorava à imagem do tempo, cada vez mais pesado, cada vez mais soturno; de uma moinha tornara-se num latejar cada vez mais forte, como se a cabeça fosse rebentar, doendo ao menor movimento, disposição a condizer: rabugem, irascibilidade, impaciência para consigo próprio e para com os outros. Para piorar, tivera de ir enxofrar a vinha das Mogueiras, onde, vira na véspera, o oídio já entrara, apodrecendo precocemente os cachos de uvas.
O enxofre saía da torpilha e envolvia-o, colando-se-lhe às mãos, à face, dando-lhe um ar de Satanás amarelento e sulfuroso, naquele trabalho de inferno, sob um sol também ele amarelado e diabólico, que o queimava por fora enquanto o enxofre ardia por dentro, abrasando pulmões, garganta, secando narinas e boca... Encharcada pelo suor, a roupa colava-se-lhe ao corpo, assando-lhe os sovacos, as virilhas... Nem os pés escapavam, roídos pelas duras botas, que nem o sebo amaciava já, e que o arrastavam veloz de cepa em cepa, sempre envolvido na nuvem sulfurosa que acabaria com o cinzeiro, se não acabasse com ele primeiro...
De tempos a tempos, levantava a cabeça para olhar o céu, receando que as pesadas nuvens desabassem sobre a terra sequiosa, o que, pensava, se aliviaria a pressão na sua cabeça, deitaria a perder o seu trabalho, lavando o enxofre que penosamente aplicava sobre parras e cachos de uvas. Tinha acabado de despegar quando o céu explodiu em fogo e vento; o dia fez-se subitamente noite e a noite se tornava dia rasgada pela luz arrepiante dos relâmpagos. Nos Montes, as mulheres que preparavam já a ceia, estremeceram apavoradas com o ribombar dos trovões e de imediato entoaram a ladainha da Santa Bárbara, esperando que lhes acudisse na desgraça iminente:
Santa Bárbara, bendita
que nos céus está escrita
a papel e água benta
levai para longe esta tormenta
para onde não haja garfo nem colher
nem vaca nem vitelo
nem homem nem mulher...
Grandes deviam ser os pecados do Homem, porque a tormenta, em vez de se afastar, aproximou-se e já não era só o firmamento que despejava fogo sobre a terra, era também a terra que crescia em labaredas ao encontro daquelas que desciam do céu: com um ruído assustador, levantara-se pouco antes um vento quente e seco, que rapidamente espalhou em todas as direcções as chamas que os raios haviam ateado. Então céu e terra uniram-se, tudo vermelho, tudo chamas, sem piedade pela vida de árvores, animais e pessoas. O sino tocou a rebate, o povo saiu à rua, carregando baldes, canecos, almudes e enxadas, sob o uivo fúnebre das mulheres, que carpiam já a desgraça pressentida, todos sabendo que o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar e em matar, precisa de destruir tudo por onde passa.
Foi uma guerra antecipadamente perdida. Os campos secos incendiaram-se como um fósforo e as labaredas, empurradas pelo vendaval terrível que se levantara, atacaram os currais, os palheiros, as adegas e até as casas da periferia; o povo desuniu-se e cada qual procurou salvar o seu e acudir aos seus, permitindo que as chamas entrassem pelos Montes adentro, pelo Pátio dos Vieiras, inflamando as casas como fogueiras de Santo António, uma após outra, até à Rua Principal.
Desesperado, que também a sua casa pegava fogo, o regedor correu para o posto público, na loja da Tia Joaquina, e telefonou para Alcobaça, suplicando ajuda. O presidente da Câmara, alarmado com os gritos que ouvia distintamente pelo telefone, chegou à rua e vendo o clarão que iluminava o céu, disse: — Acudamos depressa, senão os Montes morrem queimados!
Chegou quase uma hora depois, à frente dos bombeiros, e logo se atiraram todos ao combate desigual, trazendo alento ao povo já exausto; porém, dos Montes só restaria um brasido se não tivesse chegado ajuda vinda do Alto, como se Deus se tivesse apiedado ou então considerasse suficiente o castigo: desabou uma tromba de água, e o povo, cristão e ateu, caiu de joelhos, entoando Bendito seja o Senhor lá nas alturas! As chamas enfraqueceram e homens, mulheres e garotos, molhados que nem pintos, tremendo de frio e ardendo em calor, conseguiram até à madrugada circunscrever os incêndios, apartando-os uns dos outros.
O nascer do dia mostrou a devastação, cada qual avaliando os prejuízos, procurando ainda salvar relógio de sala, cadeira, ou galinha; então, ergueu-se em uníssono um coro de lamentações, como se as mulheres carpissem em simultâneo a morte de todos os homens da aldeia; não, elas choravam a perda dos parcos haveres, o sofrimento futuro, sem tecto, sem mobiliário, sem gado, sem ninguém que lhes acudisse, enquanto davam punhadas no próprio peito, arrancavam os cabelos, rasgavam os joelhos pelas pedras da rua: — Valei-me, Senhora de Fátima, que irá ser de mim e dos meus meninos? Depois, tendo carpido as perdas próprias e alheias, com a coragem do desespero, tocaram mais uma vez a burra para diante."

Entre Cós e Alpedriz

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