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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Da baixeza

Ouço, primeiro no canal 1, depois no 2, o director do jornal "I" dizer e redizer que vulnerabilidade e vulnerável são termos bélicos, logo o presidente, ao mencionar a vulnerabilidades dos sistemas informáticos da presidência, terá pretendido começar uma guerra. Não sei se é por ignorância que o senhor director afirma, como afirmou, que uma pessoa não diz "sinto-me vulnerável" (cito de memória), ou se pensa que nós somos tão ignorantes que nem um dicionário sabemos consultar. O que sei é que me enoja ouvir comentários desta natureza.

sábado, 26 de setembro de 2009

Dia de reflexão



Uma ova. "Pensar incomoda como andar à chuva". Foi dia de vindima. Sem metafísica. Com esforço e muita transpiração, porque o calor apertava e o rancho do costume estava muito desfalcado. É a vida.
Colheita fraca, mas promissora. Fotos aqui. E uns versos de Cesário, que o Tempo não desactualizou:

"Oh! Que grande alegria eu tenho quando
Sou tal e qual como os mais! E, sem talento,,
Faço um trabalho técnico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!"

"Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

A nós tudo nos rouba e dizima:
(...)
E o pulgão, a lagarta, os caracóis,
E há inda, além do mais com que se ateima,
As intempéries, o granizo, a queima,
E a concorrência com os espanhóis."

Cesário Verde, "Nós"

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Da vulgaridade

Na literatura, choca-me a vulgaridade, a ordinarice, o palavrão escusado. Entenda-se: não são as situações vulgares, ordinárias, as palavras obscenas que me chocam; é o facto de o escritor não ter feito o seu trabalho escolhendo o ângulo adequado, a perspectiva certa, o termo que a situação exige, seja ele ou não do calão. O que me choca é o recurso à vulgaridade para, simplesmente, disfarçar o não saber escrever, a falta de talento. Por exemplo, Justine ou os infortúnios da virtude, do Marquês de Sade, é um livro muito bom e muito bem escrito apesar da baixeza das situações e das personagens; Aquele Verão em Paris, de Abba Dawesar, com personagens requintadas e ambiente selecto, prima pela vulgaridade. E, antes que alguém mo recorde, qualquer um dos meus romances tem palavrões e situações vulgares. Indispensáveis e insubstituíveis, espero.
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Fotos do casamento da Sofia


Aqui. Acesso público.

domingo, 20 de setembro de 2009

O casamento da Sofia

(Para ampliar, clicar na foto)
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Casamento da Sofia

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sábado, 19 de setembro de 2009

Casamento da Sofia



Casa hoje à tarde a Sofia, a minha menina mais nova. Ao contrário dos pais, que como muitos outros casais da nossa geração, o fizeram em cerimónia simples - espartana, no nosso caso -, organizou, com o noivo, o Nuno, cerimónia solene. Espero, troca-tintas como sou, sem experiência em casamentos formais nem gosto por rituais, não borrar a escrita.

FOTO: os noivos no casamento do primo Jorge, há dois meses

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Álcool provável

A colheita deste ano promete: álcool provável acima dos catorze. E é possível que ainda aumente até à vindima, agendada para 26 deste mês.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Luso-Poemas encerra


Primeiro foi Escrita Criativa, agora Luso-Poemas. Ignoro o motivo, mas não me surpreenderia que se devesse às constantes questiúnculas internas, conjugadas com a incapacidade de avaliar criticamente os materiais publicados. Explico-me: não faltam por aí poetas e poetisas inspirados, convencidos de que basta derramar sentimentos como derramam lágrimas para que surja poesia. E tão convencidos estão do valor actual das suas composições que qualquer crítica, por muito modalizada que seja, é recebida não com agradecimentos, mas com insultos. Na melhor das hipóteses responderão que é assim que gostam de escrever e ponto final (ou, como escreve Mia Couto, "pronto. Final").
Esta reacção arrogante à crítica foi especialmente evidente no Escrita Criativa, projecto que, no entanto, poderia ter contribuído positivamente para a divulgação de novos autores, se a parte ruidosa dos utilizadores do site tivesse conseguido perceber e aceitar que para escrever é preciso, (i) antes de mais, saber escrever, (ii) ler os outros, muito e constantemente, (iii) trabalhar incessantemente, sobrepondo à inspiração as virtudes terapêuticas da transpiração. Ambos os projectos foram também seriamente prejudicados por engraçadinhos que, sempre escondidos atrás de inúmeros nicknames, avacalharam os sites e provocaram a saída de autores sérios e empenhados no trabalho. Destes últimos, ficam as saudades da leitura quase diária dos seus textos, alguns deles muito promissores, e a certeza de que encontrarão outras formas de os continuar a divulgar.
Por fim, uma palavra de solidariedade para com os responsáveis por ambos os projectos, esperando que as desilusões e os prejuizos económicos sofridos os não levem a abandonar o sonho de criar um dia um portal aberto e democrático da literatura 'não oficial'. A ambos, o meu reconhecimento sincero.

Correcção: no dia seguinte Luso-Poemas voltou a funcionar, sem quaisquer explicações por parte do administrador. Aparentemente, o mau ambiente persiste, pelo que entendo não haver motivos para apagar ou para corrigir o presente texto. Também a EditonWeb, projecto em que depositei grandes esperanças parece ter fechado portas após muitos meses de coma profundo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Trabalho infantil

O meu ajudante mais novo: o Miguel.
Pé descalço como o avô.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O agoireiro


"O director-geral da Saúde (DGS) congratulou-se, esta segunda-feira, por Portugal não ter registado qualquer morte associada à gripe A, mas alertou que esta situação não vai manter-se, prevendo que a crise causada pela epidemia dure até dois anos. Contudo, o especialista em saúde pública alertou: «Não vamos continuar com uma letalidade de zero.»" (Extraído do Sapo)
Todos sabemos que vamos morrer um dia, não precisamos que o director-geral de Saúde (DGS, que sigla estranha!) o venha recordar. Afinal, é pago para nos manter vivos e de saúde, ou para agoirar a nossa morte?

Ternura e cultura


Sexta à noite, após o jantar, sentei-me sozinho no meu quintal a saborear o fresco. O Afonso, tendo dado pela minha falta, chegou e sentou-se a meu lado.
-- Avô, queres um JB? (Sim, já lhe ensinei essas duas letras).
-- Já não há, o avô já o bebeu todo.
-- Há no armário, respondeu, sempre convencido e confiante, e entrou em casa. Regressou desolado:
-- Já não há...

domingo, 13 de setembro de 2009

Vida de cão

Era um rafeiro chato: sempre que passeava pela rua, cheirava cuidadosamente cada parede, cada poste, cada automóvel estacionado, procurando marcas de outro cão que primeiro por lá tivesse passado; quando as detectava, prontamente urinava em cima, às vezes só pingos simbólicos, tendo já esgotado no percurso a reserva hídrica que acumulava penosamente ao longo de todo o dia – mas contava a intenção: a última palavra havia por força de ser a sua, mesmo que nada significasse.
Os outros, fechados nos quintais onde descansavam do passeio diário, talvez dormitando enquanto sonhavam deliciados com a cadela do fundo da rua, que, mais dia, menos dia, há-de entrar em cio, soerguiam uma orelha e, se mais vividos, soltavam rosnadela quase imperceptível: -- Lá anda aquele filho de uma cadela!; se jovens e impetuosos, corriam devastando relvados e flores, atiravam-se furiosos ao portão, impotentes para impedir o sacana de sobrepor as marcas do seu egoísmo, como se paredes, postes e carros não fossem suficientes para todos – ou se em cada mijadela alheia visse a evidência da sua mediocridade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Incêndio

"É então que o sino toca freneticamente a rebate, tlim, tlim, tlim... Fogo!, arrepia-se o João e salta em ceroulas até à janela e olha em volta; não, não há labaredas nas imediações, ameaçando a sua casa; mais calmo, chega à porta, ao mesmo tempo que os pais e a irmã, todos ansiosos, sabendo que, como diz o povo, o fogo é pior do que um ladrão; a mãe, mais experiente, aperta o lenço à cabeça e corre já de balde na mão enquanto o pai vai à adega procurar enxada, que nas mãos de um homem serve para combater tudo menos o mau olhado; só a irmã, consciente das suas limitações de rapariga, fica em casa e o despacha, com a incumbência de a vir avisar se o fogo se aproximar.

Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, porque o clarão do incêndio parece vir de lá, todos correm feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, --- Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada.

--- Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, --- Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio --- afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.

Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças."

Inédito meu

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Incêndio

"O ano anterior, 1931, fora um ano de seca terrível, como só haverá outra parecida no próximo século. Secaram as ribeiras de todo o ano, secaram as próprias nascentes, obrigando as mulheres a passar as noites de Verão na fonte, aguardando a vez para, pingo a pingo, encherem cântaros, canecos e bilhas enquanto aproveitam para pôr as conversas em dia. E quando a estiagem infernal estava prestes a terminar, os Montes arderam.
Nesse dia, o Jaime acordara com uma ligeira dor de cabeça, que piorava à imagem do tempo, cada vez mais pesado, cada vez mais soturno; de uma moinha tornara-se num latejar cada vez mais forte, como se a cabeça fosse rebentar, doendo ao menor movimento, disposição a condizer: rabugem, irascibilidade, impaciência para consigo próprio e para com os outros. Para piorar, tivera de ir enxofrar a vinha das Mogueiras, onde, vira na véspera, o oídio já entrara, apodrecendo precocemente os cachos de uvas.
O enxofre saía da torpilha e envolvia-o, colando-se-lhe às mãos, à face, dando-lhe um ar de Satanás amarelento e sulfuroso, naquele trabalho de inferno, sob um sol também ele amarelado e diabólico, que o queimava por fora enquanto o enxofre ardia por dentro, abrasando pulmões, garganta, secando narinas e boca... Encharcada pelo suor, a roupa colava-se-lhe ao corpo, assando-lhe os sovacos, as virilhas... Nem os pés escapavam, roídos pelas duras botas, que nem o sebo amaciava já, e que o arrastavam veloz de cepa em cepa, sempre envolvido na nuvem sulfurosa que acabaria com o cinzeiro, se não acabasse com ele primeiro...
De tempos a tempos, levantava a cabeça para olhar o céu, receando que as pesadas nuvens desabassem sobre a terra sequiosa, o que, pensava, se aliviaria a pressão na sua cabeça, deitaria a perder o seu trabalho, lavando o enxofre que penosamente aplicava sobre parras e cachos de uvas. Tinha acabado de despegar quando o céu explodiu em fogo e vento; o dia fez-se subitamente noite e a noite se tornava dia rasgada pela luz arrepiante dos relâmpagos. Nos Montes, as mulheres que preparavam já a ceia, estremeceram apavoradas com o ribombar dos trovões e de imediato entoaram a ladainha da Santa Bárbara, esperando que lhes acudisse na desgraça iminente:
Santa Bárbara, bendita
que nos céus está escrita
a papel e água benta
levai para longe esta tormenta
para onde não haja garfo nem colher
nem vaca nem vitelo
nem homem nem mulher...
Grandes deviam ser os pecados do Homem, porque a tormenta, em vez de se afastar, aproximou-se e já não era só o firmamento que despejava fogo sobre a terra, era também a terra que crescia em labaredas ao encontro daquelas que desciam do céu: com um ruído assustador, levantara-se pouco antes um vento quente e seco, que rapidamente espalhou em todas as direcções as chamas que os raios haviam ateado. Então céu e terra uniram-se, tudo vermelho, tudo chamas, sem piedade pela vida de árvores, animais e pessoas. O sino tocou a rebate, o povo saiu à rua, carregando baldes, canecos, almudes e enxadas, sob o uivo fúnebre das mulheres, que carpiam já a desgraça pressentida, todos sabendo que o fogo é pior do que um ladrão, pois não se contenta em roubar e em matar, precisa de destruir tudo por onde passa.
Foi uma guerra antecipadamente perdida. Os campos secos incendiaram-se como um fósforo e as labaredas, empurradas pelo vendaval terrível que se levantara, atacaram os currais, os palheiros, as adegas e até as casas da periferia; o povo desuniu-se e cada qual procurou salvar o seu e acudir aos seus, permitindo que as chamas entrassem pelos Montes adentro, pelo Pátio dos Vieiras, inflamando as casas como fogueiras de Santo António, uma após outra, até à Rua Principal.
Desesperado, que também a sua casa pegava fogo, o regedor correu para o posto público, na loja da Tia Joaquina, e telefonou para Alcobaça, suplicando ajuda. O presidente da Câmara, alarmado com os gritos que ouvia distintamente pelo telefone, chegou à rua e vendo o clarão que iluminava o céu, disse: — Acudamos depressa, senão os Montes morrem queimados!
Chegou quase uma hora depois, à frente dos bombeiros, e logo se atiraram todos ao combate desigual, trazendo alento ao povo já exausto; porém, dos Montes só restaria um brasido se não tivesse chegado ajuda vinda do Alto, como se Deus se tivesse apiedado ou então considerasse suficiente o castigo: desabou uma tromba de água, e o povo, cristão e ateu, caiu de joelhos, entoando Bendito seja o Senhor lá nas alturas! As chamas enfraqueceram e homens, mulheres e garotos, molhados que nem pintos, tremendo de frio e ardendo em calor, conseguiram até à madrugada circunscrever os incêndios, apartando-os uns dos outros.
O nascer do dia mostrou a devastação, cada qual avaliando os prejuízos, procurando ainda salvar relógio de sala, cadeira, ou galinha; então, ergueu-se em uníssono um coro de lamentações, como se as mulheres carpissem em simultâneo a morte de todos os homens da aldeia; não, elas choravam a perda dos parcos haveres, o sofrimento futuro, sem tecto, sem mobiliário, sem gado, sem ninguém que lhes acudisse, enquanto davam punhadas no próprio peito, arrancavam os cabelos, rasgavam os joelhos pelas pedras da rua: — Valei-me, Senhora de Fátima, que irá ser de mim e dos meus meninos? Depois, tendo carpido as perdas próprias e alheias, com a coragem do desespero, tocaram mais uma vez a burra para diante."

Entre Cós e Alpedriz

Leitura recomendada

No blogue artedosdias, de Julieta Monjinho, migas de leite.

Sexo e género

Está na moda, e é certamente politicamente correcto, falar em "igualdade de género", "violência de género". Não deixa, no entanto, de ser um tremendo disparate, ao confundir o cu com as calças.
Sexo é biológico; género é gramatical. A primeira categoria pode assumir três valores: macho, fêmea e, suponho, hermafrodita (que os biólogos me desculpem alguma incorrecção). O género, em Português, têm dois valores: masculino e feminino, embora noutras línguas exista o género neutro. "Livro" é, em Português, do género masculino e não tem sexo. Certo?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Nas curvas de Cós

"--- Ou volta connosco para Pombal, ou sai aqui e vai à boleia. Duvida: a esta hora, quem parará? Mas não tem outra solução e é isso que faz, com tanto azar que o deixam junto a um cemitério, raio de lugar, raio de hora, como chegará a casa, a uns bons trinta quilómetros? Meia hora depois, avista uns faróis, pede insistentemente boleia, o carro afrouxa, chiam os pneus com a brusquidão da travagem, ainda tenta explicar-se, mas interrompe-o voz apressada: --- Entre!

É médico e já devia estar há horas no hospital de Alcobaça, atrasou-o outro parto que correu mal, imagina rindo a fúria da parturiente que o aguarda gritando com dores, as imprecações da parteira, uma e outra supondo-o no conforto de cama de amante ou em farra bem bebida --- se é homem há que esperar o pior, dir-lhes-á a sabedoria feminina. Não está incomodado, insultos e pragas aliviam o sofrimento de uma e a aflição da outra, e talvez entretanto a criança nasça sem a sua ajuda, poupando-lhe o trabalho de a pôr cá fora. É também aflito que o João se retesa e segura ao que pode, enquanto o doutor, divertido, troça dos seus receios, estranhos em quem pede boleia à porta do cemitério à meia-noite: parara convencido de que fosse alma penada que quisesse fugir de lugar tão solitário... O João, desesperadamente agarrado à porta para evitar cair em cima do doutor nas curvas, para não ser projectado nas travagens nem bater com a nuca nas acelerações, que, embora o veículo tenha já cinto de segurança não sabe como o pôr nem se atreveria a fazê-lo, ofendendo o condutor, aproveita uma recta para se explicar: tinha ido visitar a namorada, adormecera na camioneta e perdera a ligação...

Depois, sério, vendo a cara inocente do rapaz, dá conselhos, os quais, como sempre sucede com todos nós, só serão tomados, se o forem, tarde de mais. Diz-lhe que o comportamento feminino é frequentemente imprevisível, porque homens e mulheres pensam e reagem de diferentes maneiras, dão diferente importância às coisas... O João ouve-o, embora a atenção se concentre na estrada, como ele próprio gostaria que o médico também fizesse, olhando para o caminho em vez de o olhar nos olhos quando fala, bom seria também que não tirasse as mãos do volante para gesticular... Vendo que o pendura está mais preocupado com a sua condução “agressiva”, como a caracteriza, do que com os conselhos que prodigaliza, lembra-lhe que ele próprio trava quando entender necessário, não precisa o João de o fazer, nem de se inclinar nas curvas, que não vão de mota... Agora as mulheres, insiste, talvez por as considerar especialidade sua, pela profissão e pela importância que lhes dá fora dela, as mulheres podem ser, e são frequentemente, um problema, porque os homens as não compreendem nem são ensinados a fazê-lo.

--- Por exemplo, há mulheres que no período mudam por completo de comportamento, tornando-se agressivas, más, embirrantes, entendendo que por elas passarem mal os companheiros se devem desfazer em atenções, quando muitas vezes eles nem sequer sabem do sofrimento que as aflige --- mas se gostassem realmente delas, deviam adivinhá-lo, sem que fosse preciso explicar-lhes, pensam elas.

--- Olhe, continua, conheci casos de casais com óptimo relacionamento que acabaram por se separar por causa desta incompreensão, elas ofendidas com a falta de solidariedade para com os tormentos delas, tão zangadas ficavam que acabada a menstruação os continuavam a privar da ração ou, se acaso entretanto faziam as pazes, entretanto começava novo período... Um círculo vicioso, está a ver, não é?

Mas o que o João via era a morte diante dos olhos: chiavam pneus, os faróis devassavam a noite, árvores e muros corriam loucamente direito ao carro e desviavam-se no último momento, o cheiro da borracha queimada penetrava novamente no interior do veículo... A dada altura, uma nuvem de centelhas chispou quando a parede de uma casa se não arredou, mas o médico nem sequer afrouxou:

--- Deixe lá, é só chapa riscada, o seguro paga a pintura. Onde é que você mora?

E insistiu em o deixar em casa, para terror do João, ao imaginar aquela condução louca pelas curvas de Cós acima. Tinha razão em se assustar, que o médico parecia querer antecipar o lema que o povo dos Montes defendeu nos anos noventa, sem conseguir convencer o Presidente da Câmara: Vamos fazer das curvas uma recta! Por várias vezes o carro teve pelo menos uma roda no precipício, chegou a entrar pelo atalho e após saltos violentos, apercebendo-se de que a o caminho não era por ali, acelerou em marcha-atrás, enquanto os cabelos do João se punham em pé ao ver a velocidade a que recuavam sem que fosse possível descortinar na escuridão os limites do abismo; na Curva da Segunda o automóvel derrapou tanto que quase fez inversão de marcha:

--- Isto sim, são curvas que dão luta! Hei-de cá voltar!

Subiam já em estrada melhor.

--- Olhe, tenho uns colegas com a mania dos ralis, vou desafiá-los para uma corridinha até cá acima."

Foto: as Curvas no Google Earth

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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

A Oeste nada de novo

Agoniado com a campanha eleitoral tristonha e enfadonha, enojado com as matreirices que, de parte a parte, os nossos políticos inventam, mais preocupados em denegrir as propostas adversárias do que em evidenciar o mérito das próprias, sobretudo sem paciência para a novela A Manuela & a TVI, recordo-me de Camões:

"Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a Pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e da rudeza

D'ua austera, a
pagada e vil tristeza."

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Kara Té

A (Arte da) Mão Vazia.
Está na hora de recomeçar, perdendo aqueles quilitos extra que férias, sorna, cama e boa mesa acumularam. No programa pessoal, Jion e kumité. Está também previsto o regresso ao ensino (sempre gratuito) da arte, interrompido nos dois últimos anos por condicionalismos que estão, espero, ultrapassados.

Setembro



"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios." Ler mais

Assim começa Do lacrau e da sua picada

(Imagem do pintor João Alfaro)