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terça-feira, 30 de junho de 2009

As osgas


Imperam de noite, livrando-nos de mosquitos, melgas e demais pragas nocturnas, que não contentes em picar, em provocar coceira, não raro transmitem doenças (a leishmaniose, por exemplo). Patrulham incansavelmente paredes, muros, sebes, sempre silenciosas, discretas, "inimigas como eu da claridade", incompreendidas e não raro perseguidas: "osgas peçonhentas, achatadas", escreveu Cesário, juntando-as aos demais ladrões do agricultor.
Na foto, um dos meus exemplares.

Chamam-lhe um figo!



Desde os tempos bíblicos e homéricos que os figos têm vindo a perder status social. Na minha infância, dizia-se que "roubar figos não é crime", talvez por injustamente serem considerados fruta do pobre, e às figueiras, com má fama, acusadas de chuponas, era frequentemente destinada a pior terra. (Ainda o eucalipto não era praga nacional.)

Os figos, sazonais, extremamente perecíveis, dificilmente transportáveis e comercializáveis, perderam negócio primeiro para os pêssegos (Ah, o antigo Temporão de Alcobaça! E o Jota Galo!). Depois vieram as maçãs e as pêras, disponíveis todo o ano, e a fruta exótica -- coitados dos figos!
Sempre do contra, plantei há anos uma figueira no meu quintal, bem advertido dos perigos dessa árvore maldita: "Vizinho, olhe que lhe dá cabo de tudo! Até das paredes!"
Cresceu e entre anos bons, de boa produção, e anos maus, em que lhe juro arrancá-la se não produzir bem no ano seguinte, lá continua, não tão nociva, acho eu, como os agoiros prediziam. E os figos são incríveis.
Ora, como sucede nos anos bons -- e este é um deles, ainda bem que a crise não se propagou às árvores --, reparto a produção com os amigos. Surpresa é que, ultimamente, a simples palavra "figos" provoca olhares augados, conversa lastimosa: "As saudades que eu tenho da figueira do meu avô e das barrigadas de figos que lá comia" e eu, incapaz de resistir a tão forte desejo por uma das melhores frutas da Terra, volto a trepar à árvore, tentando encontrar mais uns figuitos para acudir à nova cliente. Sempre dados com indescritível prazer -- como a figueira mos dá.
Abençoada árvore.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Myra, Maria Velho da Costa


A odisseia de uma jovem russa em Portugal, também ela de mil ardis, contada com uma técnica narrativa primorosa, a combinação harmoniosa do real com o fantástico, a sintaxe elegantemente agramatical, a função poética da linguagem, as personagens – o cão de luta, o motorista, a pintora e os seus empregados domésticos, o frade, para quem a castidade é pecaminosa, e a freira escandalizada com tal heresia, o cego e a sua cadela, o rapaz pardo por quem Myra se apaixona, a gata, os delinquentes que encarnam o mal, a proxeneta e as crianças prostituídas...
O melhor romance que li nos últimos tempos. Um assombro.

domingo, 28 de junho de 2009

terça-feira, 23 de junho de 2009

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Rapaz atarefado


Ainda o Miguel não aprendeu bem a andar e já não pára.
Até dá corridinhas. As mãos sempre ocupadas.
Posted by Picasa

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Da eloquência


"(...)
-- Você sabe falar -- comentou.
-- Nasceu comigo.
-- Daria um péssimo escritor -- prosseguiu. -- Nunca conheci um escritor que fosse um bom orador.
--- É esse o meu problema -- repliquei. "

Ray Bradbury, "Rumo a Quilimanjaro", in As Vozes de Marte, colecção Argonauta, Ed. Livros do Brasil, Lisboa

terça-feira, 16 de junho de 2009

Amsterdam, Jacques Brel

As férias grandes eram então grandes, intermináveis na solidão aldeã, os rapazes da minha geração aprendendo ofícios por aqui e por ali, os estudantes fechados em casa a marrar para os exames de segunda época ou a banhos na Nazaré. Na aldeia, que a imigração esvaziara, o convívio quase se resumia a um longo bocejo ao serão, em frente à televisão do café, por entre velhos que jogavam dominó e menos velhos de corpo, igualmente envelhecidos de espírito, que discutiam a bola. Vivia só com a minha avó, os meus pais mourejando na Holanda, em Amesterdão, com os meus irmãos. Apenas eu, o mais velho, ficara. Por companhia, os livros que mensalmente requisitava na biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian, uma telefonia que apanhava a Emissora Nacional -- e os sonhos.
E numa manhã, enquanto a minha avó me contava as novidades do dia – quem namorava quem, quem ralhara, quem fizera as pazes, o que esta dissera daquela – ouvi pela primeira vez Brel. De imediato me impressionou aquela voz poderosa, máscula, dura, nos antípodas das cantorias lamechas e efeminadas que preenchiam as emissões da rádio. No meu Francês ainda incipiente, compreendi que falava daquele porto que eu conhecera no ano anterior, dos marinheiros que lá nasciam e morriam, que bebiam à saúde das putas – sim, “des putains d’Amsterdam, d’Hambourg ou d’ailleurs” numa época em que palavrões andavam arredados dos media... E eu escutei maravilhado aquela canção, aquela voz, diferentes de tudo o que até então ouvira, e aquela raiva gritada, falando de cerveja e de batatas fritas, dos marujos que tiram macacos (do nariz) nas estrelas e “mijam como eu choro sobre as mulheres infiéis”...
Para ouvir Amsterdam, mal traduzida para Inglês (por exemplo: Batave, traduzido por boat, whore, é apenas um nome antigo para Holanda).
Foto: minha, tirada em Amesterdão, aí por 1976.

Tropa fandanga


Tropa macaca, dizíamos de nós próprios, por oposição às tropas especiais. 1975, pleno PREC (Processo Revolucionário em Curso, para os mais novos). A imagem fala por si própria.
Na primeira fila, o último do lado direito: eu mesmo.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O blogue do pintor


O João Alfaro estreou-se na blogosfera com este belíssimo blogue. Pinturas lindas, fotos das ferramentas do ofício, textos que dão conta das suas motivações e gostos (Diz ele: "O acto da escrita é, para mim, muito sofredor." Bem-vindo ao clube.)
É um repouso de alma um blogue assim, especialmente para quem, como eu, já não suporta a politiquice nacional, se impacienta com uma certa actualidade noticiosa, feita de desgraças quotidianas -- sempre bem esticadas, bem espremidas, cadáver a cadáver --, se agonia com a crítica social estribada numa qualquer presunção de superioridade.
Engenho, arte e uma enorme capacidade de trabalho: temos blogger (ou bloguista?)

terça-feira, 9 de junho de 2009

O Miguel já anda

E agora já anda!

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Passinhos do Miguel

Há umas semanas atrás, o Miguel ensaiava já os primeiros passos:

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Alimentando o gato Felpudo

Não gosto muito de gatos. Mas este e a irmã foram trazidos pela mãe, famintos, pouco após a morte da minha rotweiller. Alimentei-os e foram ficando pelo quintal, sempre ariscos, sem deixar que ninguém lhes toque. Excepção: o Afonso. A amizade com o macho, o Felpudo, começou cedo, quando o Afonso berrava desalmadamente, sem que nada o calasse; então, levava-o até à porta, mostrava-lhe o gato e, miraculosamente, a gritaria infernal cessava. Depois, começou a andar e a perseguir o Felpudo, que se lhe vinha encostar e pedir afagos. Agora retribui, prendendo o cão e alimentando-o.
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

É queimar!


Outra noite de calor insuportável. De madrugada, bem antes do nascer do Sol, levanto-me e abro as janelas para refrescar a casa. Depressa a temperatura começa a descer dos 28 graus. Volto a deitar-me, saboreando o fresquinho que entra pelas janelas – para de me levantar de um salto e correr a fechá-las: outro vizinho resolveu queimar o lixo do quintal e a fumarada enche-me já a casa. É assim todo o ano, pouco importando que seja Inverno ou Verão, que haja roupa estendida ou não. Creio que é, simplesmente, espírito incendiário, embora moderado: queimam sempre os resíduos em verde, para não levantarem altas chamas…Com a escolaridade básica, ou professores, ou engenheiros – não importa. É queimar.
Dioxinas? -- Isso é nas cimenteiras.
Mau cheiro? -- Não te chega nada a casa!
Podas, relva, caules de couve, detritos diversos, tudo serve para a fumarada matinal ou vespertina, o que importa é que quando se podem abrir janelas para refrescar as casas lá vem a fumaça. (No Inverno, preferem a hora de maior calor, quando queremos enxugar a humidade da estação. Como podem atender a reclamações, se sempre discordamos da hora das queimadas?)
Como aquele capitão do Apocalypse Now que adorava o cheiro a napalm pela madrugada, assim são eles. Não há melhor perfume matinal, assim até lhes dá gosto levantar cedo, a puta da vida ganha-lhes sentido. É queimar.