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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

As bicicletas (1)

Aprendi tarde, e mal, a andar de bicicleta. Não havia nenhuma em minha casa, o que me fazia sentir desfavorecido face a miúdos ainda mais pobres, os quais, embora sem altura para chegar do selim aos pedais, as montavam com as pernas por debaixo do quadro e se exibiam no adro em corridas e acrobacias.
É certo que o meu pai tinha motoreta, e então eram tão raras na aldeia como os automóveis. Mas nem me passava pela cabeça montar nela, cair certamente, amassar chapa, riscar a pintura; receava sobretudo que, por volta da meia noite, quando o meu pai lhe pegasse para sair, sempre atrasado para o trabalho distante, ela não trabalhasse, fazendo-o perder o dia, ameaçando até o emprego.
Um dia, um primo, uns anos mais velho, apareceu com bicicleta. Talvez do tio, já não sei. E lá vamos nós a correr pelas ruas, ele a pedalar, eu atrás apeado, esbaforido. A certa altura, propôs ensinar-me.
Comecei por recusar, a medo de cair. Ah, mas ele amparava a bicicleta, não me deixava cair!
Assim tranquilizado, montei a custo no selim, tentei chegar aos pedais. 
— Não precisas, eu empurro, depois aprendes a dar meias pedaladas. 
Poucos metros depois, já ele largava a bicicleta por breves momentos, e eu ganhava confiança. Até que, quase no fim da rua, entendeu terminada a lição, que a paciência das crianças é curta. E não encontrou melhor forma de marcar o final do que com violento empurrão no guiador, fazendo-me estatelar violentamente no pó da estrada.
Esfarrapado, dorido, chorei, protestei contra a estupidez do acto.
— Todos caem, precisavas de aprender!
Não voltei a montar em bicicleta até que, aí pelos meus dezoito anos, outro primo, mais novo, surgiu com velha pasteleira. Experimentei sozinho, rua abaixo, pouco depois já pedalava pelas ruas da aldeia, triunfante, eufórico, por, finalmente, ter aprendido algo que qualquer miúdo de seis anos fazia, e muito melhor do que eu.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Levantar quando entra senhora

Aquele meu amigo estava sentado à secretária no seu gabinete quando entrou intempestiva uma professora a ralhar — só quem não foi professor desconhece a elegância de modos de algumas delas.
Gritou, barafustou; ele, sereno, continuava a escrever com a sua Parker.
E ela, talvez por ter esgotado o rol das queixas docentes:
— Oiça lá, o colega não se levanta quando está a falar com uma senhora?
Ele levantou então os olhos, fitou-a e respondeu:

— Sempre!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vale a pena ter seguros?

Eu, que nada percebo de Direito, interrogava-me: culpa e responsabilidade pelos estragos do mau tempo devem ser imputados ao vento, que os causou, à Câmara Municipal de Lisboa, que não cortou as árvores da cidade, ou aos proprietários dos carros, que os estacionaram na proximidade das árvores, apesar dos alertas da meteorologia e da protecção civil?
Não foi necessário sequer aguardar por julgamento; acabo de ouvir que a CM de Lisboa assume a responsabilidade. 

Assim sendo, admitindo que daqui para a frente o Estado assume a responsabilidade pelos danos provocados pelas  forças da natureza — incêndios, derrube de árvores, inundações, certamente, e por que não tremores de terra — vale a pena continuar a pagar exorbitâncias em seguros para proteger casa e carro?

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Telefones e conversas

Para mim, as conversas ao telefone são um triste remedeio.  Ao fim de algum tempo,  a mão que o segura fica dormente, aquece a orelha, mudo para a outra, vejo a conversa a arrastar-se, mas não a desenvolver-se, a impaciência provoca-me bicho-carpinteiro, que os numerosos afazeres com que preencho os dias reclamam insistentemente a minha pessoa...
Também nisto me revejo na (minha) avó da Luz. Apesar da solidão, que bem lhe devia pesar durante as longas invernias na aldeia quase deserta, quando me telefonava a conversa era mais ou menos esta: “Vocês estão todos bons? Olha, se cá quiseres vir, já há laranjas apanhadoiras. Beijos para todos, fiquem bem e até à próxima, se Deus quiser." E desligava.
Já a sua filha (e minha mãe) se alongava um pouco mais ao telefone; mas, também ela, logo que tinha sabido dos "meus", me despachava, mesmo quando eu procurava prolongar a conversa:
"Mãe, e por aí?"
"Ora, por cá tudo na mesma, não há novidades. Vou desligar que estou a arrefecer. E estou em pé, doem-me  as costas."

Hoje, que tenho a idade de uma e de outra, sinto também que conversar longamente requer ocasião e condições: é preciso disponibilidade, estar presencialmente com os interlocutores, bem instalado, confortável, melhor ainda com comida e bebida à frente — e televisão, computadores e telemóveis desligados.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A minha Vespa


Tempos atrás, pu-la à venda; mas apenas fui contactado por um vigarista no estrangeiro, pelo que a fui deixando ficar. Neste Inverno, vou pô-la como nova: remoção de pontos de ferrugem, retoques de pintura, substituição de cromados ferrugentos, matrículas novas, que nas velhas caíram caracteres, lubrificação, bateria nova... 

Com a alegria da criança que redescobre brinquedo há muito esquecido, voltei à minha velha Vespa 125, abandonada a um canto da garagem e com pouco uso anual por ter deixado de lhe fazer seguro — umas pequenas voltas de tempos a tempos para não enferrujar, e pronto.
Já renovei o seguro, já dei umas boas voltas nela a ver o estado geral.
Como quando a comprei, no início dos anos 80, pega à segunda pedalada, responde bem, o motor trabalha como relógio bem afinado; noto, porém, o banco mais rígido, a suspensão um pouco dura, o que não surpreende pois amortecedores e pneus ainda  ainda são de origem.
Não, não está à venda.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Os sapatos do antifascista

Foi no Itau, café do Camões, aí por 1972, que me apresentaram aquele revolucionário, acabado de sair de Caxias, onde a Pide o manteve preso por largos meses. E ele, olhando em redor sempre vigilante, sempre alerta, que os informadores estão por todo o lado, contava pormenores. Não tinha sido submetido à tortura do sono. Nem à da estátua. Nem... Ah, mas foi torturado, muito torturado, a sua militância duramente posta à prova, e baixando a voz, escondendo os lábios de olhares indiscretos com a concha da mão, contava: punham-lhe pó nos sapatos para as solas se romperem mais depressa! “E os bufos, pá, vinham ter comigo: — Isto está mal! 

Mas eu fazia-me parvo, esgazeava os olhos, nada dizia, até que, sem me conseguirem arrancar nada, tiveram de me soltar!”
Despediu-se, saiu, sempre a olhar em redor, assustadiço como coelho em tempo de caça.
E eu: — O gajo é doido, não é?



Ah, tinha ficado maluco em Caxias. Mas já antes não batia muito certo, talvez por isso tivesse sido preso: durante a greve do ano anterior, um grupo de estudantes tentava forçar a entrada numa sala para expulsar os fura-greves, a polícia foi chamada, todos fugiram menos ele, que foi apanhado a forçar a porta!

(Foto: fachada do prédio onde funcionou o Instituto Comercial de Lisboa)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Eu enquanto leitor

Foi aí pelos meus quinze anos que me tornei leitor eclético, anárquico, incapaz de ler livros que não me seduzam, me agarrem desde o início. (Os Maias foi uma das excepções, mas tive de saltar as páginas iniciais, com a descrição do Ramalhete.)

Estudava então em Leiria, pouco, e estava alojado em casa modesta, velha, escura, tristonha, de uma senhora divorciada que recebia estudantes como hóspedes — sim, ao contrário do que hoje se diz por aí, o divórcio existia antes do 25 de Abril, embora se não  aplicasse aos casamentos religiosos. 
Adiante. O que interessa é que, ao fundo de um corredor, amontoavam-se centenas de livros, sem qualquer ordem. Para um miúdo viciado na leitura, afastado da família, num meio completamente estranho, foi um maná dos céus. Devorava um ou dois por dia, misturando Júlio Dinis com Caryl Chessman, o condenado à morte que na cela se tornou escritor, Thor Heyerdahl e a sua Kon-Tiki, Júlio Verne, Dumas, Salgari, Defoe, histórias policiais e de terror com os famosos livros de cowboys e o Major Alvega...
Os dias voavam, as saudades não doíam tanto... 
(Naquele primeiro período, os resultados escolares não foram brilhantes.)
Passou meio século, creio que evolui como leitor, mas não mudei de critérios: se o livro não me puxa, não o leio. Por muito elogiado, por muito premiado que seja. Os meus gostos não se subordinam aos alheios. E vem isto a propósito de ontem ter procurado obra muito badalada recentemente. Bem escrita, mas intragável, barroca, em que o discurso (o modo de contar) abafa a história. 
Deixo-o para as noites de insónia de leitores persistentes e pacientes, convicto de que só com paciência de corno se conseguirá ler.

O rei vai nu...